Um avião que abandona o formato tradicional de uma fuselagem tubular com duas asas recebeu um novo apoio do governo dos Estados Unidos. A JetZero terá US$ 5,3 milhões para realizar testes com os motores do Jet1, seu demonstrador em tamanho real, que deve voar pela primeira vez no fim de 2027.
O dinheiro vem da Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA), por meio da quarta fase do programa Continuous Lower Energy, Emissions and Noise (CLEEN), voltado a tecnologias para reduzir consumo de combustível, emissões e ruído. No caso da JetZero, os ensaios vão estudar uma característica pouco comum do avião: os motores ficam sobre a parte central da aeronave, e não pendurados sob as asas.
O Jet1 receberá instrumentos para medir o fluxo de ar na entrada e na saída dos motores durante decolagem, subida e cruzeiro, além de operações no solo com vento cruzado. O demonstrador usa dois turbofans Pratt & Whitney PW2040, da mesma família de motores utilizada pelo Boeing 757.
A posição dos motores também ajuda a reduzir o ruído percebido no solo, já que parte dele fica bloqueada pela própria estrutura do avião. Por outro lado, o ar chega aos motores de maneira diferente daquela encontrada em uma aeronave convencional, algo que precisa ser testado antes que a solução seja adotada no futuro avião comercial da JetZero.

Fuselagem também funciona como asa
O Jet1 utiliza uma configuração conhecida como blended wing body (BWB), ou corpo integrado à asa. Em um avião convencional, como um Boeing 737 ou Airbus A320, a fuselagem é essencialmente um tubo que transporta passageiros e carga, enquanto as asas produzem a maior parte da sustentação.
No BWB, essa separação praticamente desaparece. A região central é larga e achatada e se mistura gradualmente às asas, fazendo com que boa parte da própria estrutura produza sustentação. O resultado lembra uma grande asa, embora não seja exatamente uma “asa voadora”, pois ainda existe uma região central claramente destinada à cabine e à carga.
A principal vantagem é aerodinâmica. A JetZero afirma que seu futuro avião poderá consumir até 50% menos combustível que modelos convencionais comparáveis. Esse número ainda precisa ser comprovado em uma aeronave de grande porte, e é justamente para reduzir esses riscos técnicos que o Jet1 está sendo construído.
O demonstrador está sendo produzido pela Scaled Composites em Mojave, na Califórnia. Apenas a região do cockpit será pressurizada, já que sua função não é transportar passageiros, mas testar aerodinâmica, estruturas, sistemas e características de voo. Em junho, a JetZero informou que sua construção estava cerca de 40% concluída.
O Departamento de Defesa dos Estados Unidos selecionou o projeto em 2023 e prevê investir até US$ 235 milhões ao longo de quatro anos. A Força Aérea dos EUA vê potencial na configuração para futuros aviões de transporte e reabastecimento em voo, nos quais menor consumo pode significar maior alcance ou capacidade de carga.

Avião para cerca de 250 passageiros
Os resultados do Jet1 serão usados no desenvolvimento do Z4, avião comercial que a JetZero pretende colocar em serviço no início da década de 2030. A empresa já garantiu financiamento de US$ 100 milhões para apoiar o desenvolvimento e a infraestrutura de produção.
O Z4 é projetado para transportar cerca de 250 passageiros e percorrer até 9.260 km (5.000 milhas náuticas). Apesar de compartilhar a configuração básica do demonstrador, será uma aeronave muito mais complexa, com cabine pressurizada para passageiros e todos os sistemas necessários para obter certificação comercial. A JetZero já definiu Greensboro, na Carolina do Norte, para receber a fábrica do modelo.
A United Airlines já assinou um acordo que poderá resultar na compra de 100 Z4, com opções para outros 100. O compromisso, porém, depende do cumprimento de etapas do desenvolvimento e de o futuro avião atender aos requisitos de segurança, operação e viabilidade comercial da companhia aérea.
