O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, alertou companhias aéreas e seguradoras sobre os riscos de operar no espaço aéreo russo, à medida que ataques ucranianos com drones atingem áreas cada vez mais profundas do país, incluindo regiões próximas a grandes aeroportos.
O alerta ocorre em meio à recuperação do tráfego aéreo internacional para a Rússia, apesar do desaparecimento da maioria das ligações diretas com países ocidentais após a invasão da Ucrânia em 2022. Companhias aéreas estrangeiras transportaram 24,3 milhões de passageiros de e para a Rússia em 2025, um aumento de 21% em relação ao ano anterior, segundo a Associação de Operadores de Transporte Aéreo da Rússia (AEVT).
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Zelensky afirmou em 1º de setembro que o espaço aéreo russo está se tornando “completamente inseguro” e direcionou seu alerta especialmente às companhias que o utilizam, suas seguradoras e empresas que prestam serviços a grandes aeroportos russos. Ele disse que a Ucrânia não ameaça deliberadamente aeronaves civis, mas argumentou que o alcance crescente dos drones ucranianos mudou o risco enfrentado pela aviação comercial.
O espaço aéreo russo permanece aberto ao tráfego civil e centenas de voos comerciais continuam a operar dentro do país e em suas fronteiras. Portanto, a descrição de Zelensky de que o espaço aéreo está efetivamente fechado não corresponde ao seu status regulatório.

Companhias estrangeiras preenchem a lacuna
A Rússia perdeu grande parte de sua conectividade aérea direta com a Europa e a América do Norte após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022. União Europeia, Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e vários outros países fecharam seu espaço aéreo para companhias russas, enquanto Moscou impôs restrições recíprocas.
O resultado não foi o desaparecimento do mercado internacional de aviação da Rússia, mas uma mudança significativa em sua geografia.
Pesquisa baseada em dados de horários da OAG mostrou que a capacidade internacional de assentos da Rússia caiu inicialmente cerca de 41% após a invasão. Em janeiro de 2023, a capacidade já havia se recuperado para um nível 4% abaixo do período pré-guerra, embora o número de países com ligação direta à Rússia tenha caído de 64 para 34.
Turquia e Emirados Árabes Unidos se consolidaram como os dois maiores mercados internacionais. Companhias aéreas da China, Ásia Central, Cáucaso e outros países que não impuseram sanções à aviação também ampliaram sua presença.
Em setembro de 2025, a Rússia mantinha voos diretos de passageiros com 41 países, operados por 21 companhias russas e 65 estrangeiras.

As empresas estrangeiras continuaram a ganhar participação. Seus 24,3 milhões de passageiros em 2025 representaram um aumento de 21% em relação a 2024, enquanto o número de voos operados de e para a Rússia cresceu quase 16%, chegando a 148.600.
Ao final de 2025, companhias estrangeiras detinham acesso exclusivo a rotas entre a Rússia e 12 países, pois nenhuma empresa russa operava nesses mercados. Companhias russas e estrangeiras competiam em rotas envolvendo outros 21 países.
Já as companhias russas transportaram 27,4 milhões de passageiros internacionais em 2025, um crescimento de apenas 1,6%. O tráfego em rotas fora da Comunidade dos Estados Independentes teve desempenho bem melhor, com alta de 8,4%, totalizando 17,72 milhões de passageiros.
O contraste se manteve em 2026. Companhias russas transportaram 8,19 milhões de passageiros internacionais nos primeiros quatro meses do ano, 1,8% a mais que no mesmo período de 2025. O tráfego internacional de passageiros em aeroportos russos aumentou 8,1%, alcançando 15,2 milhões no mesmo intervalo, indicando que operadores estrangeiros seguem como importante fonte de crescimento.

Restrições de frota remodelam o mercado
O papel crescente das companhias estrangeiras coincide com restrições cada vez maiores de frota para as empresas russas.
Sanções ocidentais cortaram o acesso normal dos operadores russos a aeronaves Boeing e Airbus, peças de reposição e suporte dos fabricantes. A Rússia desenvolveu canais alternativos de suprimento e manteve centenas de aviões de fabricação ocidental em operação, mas a manutenção da frota tornou-se cada vez mais difícil.
A AEVT informou que o número de aeronaves estrangeiras disponíveis para companhias russas caiu em 47 unidades em 2025, chegando a 742. Aeronaves Boeing e Airbus ainda respondem pela maior parte do tráfego de passageiros, o que torna a perda gradual desses jatos especialmente significativa.
As restrições de capacidade incentivaram as companhias russas a alocar aeronaves para serviços internacionais mais rentáveis, enquanto empresas estrangeiras capturam tráfego adicional. O CEO da Aeroflot, Sergei Alexandrovsky, afirmou em 2025 que esperava um aumento de 10% a 20% no tráfego de companhias estrangeiras na Rússia naquele ano, com expectativa de crescimento adicional em 2026. Operadores estrangeiros já respondiam por 41,8% do mercado internacional de transporte aéreo da Rússia no primeiro trimestre de 2025.
Para passageiros que antes viajavam diretamente entre a Rússia e a Europa Ocidental, hubs fora do regime de sanções ganharam ainda mais importância. Aeroportos como Istambul, Dubai e outros oferecem conexões entre a Rússia e destinos que não contam mais com voos diretos.

Guerra dos drones atinge a aviação comercial
Essa rede reconstruída agora enfrenta uma restrição diferente: a expansão geográfica da guerra.
A Ucrânia enviou repetidamente drones de longo alcance a centenas de quilômetros dentro do território russo. Autoridades de aviação russas fecham temporariamente aeroportos e restringem trechos do espaço aéreo quando ataques são detectados, às vezes afetando grande número de voos.
Os riscos vão além de atrasos. Sistemas de defesa aérea operando contra drones próximos a rotas civis criam a possibilidade de identificação equivocada, interceptação ou danos causados por armas e destroços.
A queda de um Embraer E190 da Azerbaijan Airlines perto de Aktau, no Cazaquistão, em dezembro de 2024, demonstrou as possíveis consequências. O voo J2-8243 se aproximava de Grozny, no sul da Rússia, enquanto as defesas aéreas russas respondiam a drones ucranianos. O governo do Azerbaijão afirmou posteriormente que a aeronave foi atingida por fogo terrestre russo antes de desviar para o Mar Cáspio. Trinta e oito dos 67 ocupantes morreram.
O acidente levou a Azerbaijan Airlines e outras empresas a suspender voos para vários destinos russos, mas não reverteu a recuperação geral do tráfego de companhias estrangeiras.
A Osprey Flight Solutions, empresa de inteligência em segurança da aviação citada pela Reuters, prevê que operações ucranianas com drones e mísseis penetrem ainda mais na Rússia e afetem cada vez mais áreas próximas a grandes cidades.

Sobrevoos russos seguem como divisor
O alerta de Zelensky também vai além das companhias que transportam passageiros para a Rússia. Algumas empresas estrangeiras continuam cruzando o território russo em voos entre outros países, opção indisponível para muitos concorrentes ocidentais.
Companhias europeias praticamente abandonaram os sobrevoos russos após o fechamento recíproco do espaço aéreo em 2022. Empresas dos Estados Unidos também não podem usar o espaço aéreo russo, forçando rotas entre Europa-Ásia e América do Norte-Ásia a trajetos mais longos em muitos casos.
Companhias chinesas mantêm acesso. O espaço aéreo russo pode proporcionar rotas significativamente mais curtas entre a China e partes da Europa, criando vantagem de custo e horários sobre concorrentes europeus forçados a voar mais ao sul.
Empresas de países como China, Turquia e Emirados Árabes Unidos, portanto, ocupam posição muito diferente das companhias ocidentais que praticamente desapareceram do espaço aéreo russo após 2022. Elas ajudaram a restabelecer a conectividade internacional da Rússia e, em alguns casos, continuam usando o território russo para voos além do país.
