O governo dos Estados Unidos tentou incluir um compromisso de compra de aviões comerciais da Boeing por companhias aéreas brasileiras em um acordo negociado com o Brasil após a imposição de tarifas de 50% pelo presidente Donald Trump em 2025.
A exigência constava de um rascunho de declaração conjunta apresentado por negociadores americanos durante uma missão do governo brasileiro a Washington, em 16 de outubro daquele ano, segundo documentos obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo.
“Companhias aéreas brasileiras comprometeram-se a adquirir aeronaves comerciais fabricadas nos EUA, incluindo anúncios de intenção de comprar [xx] aeronaves Boeing”, dizia o texto proposto pelos Estados Unidos.
O número aparecia como “[xx]” porque a quantidade ainda deveria ser negociada entre os dois países. Portanto, a proposta americana não estabelecia a compra de 90 aviões, número que aparece em um documento diferente elaborado pelo próprio governo brasileiro.
Siga AIRWAY: WhatsApp | Instagram | LinkedIn | Twitter | Facebook

Produzido em setembro de 2025, esse segundo documento analisava possíveis elementos para a negociação comercial e sugeria a adoção de uma “meta de compras brasileiras” de produtos americanos. Nesse cenário, foi projetada a aquisição de 90 aeronaves.
Segundo o Estadão, o chanceler Mauro Vieira rejeitou os termos apresentados pelos Estados Unidos e orientou os negociadores brasileiros a não levá-los para a reunião formal realizada naquele dia.
GOL e LATAM operam Boeing em condições diferentes
Uma eventual compra de aviões Boeing pelas principais companhias brasileiras, no entanto, dependeria de decisões privadas de frota sobre as quais o governo brasileiro não possui controle direto.
Entre as três maiores empresas aéreas do país, GOL e LATAM operam aeronaves Boeing, mas em situações bastante diferentes.
A GOL utiliza o 737 como base de sua operação e atualmente possui 146 aeronaves da família, incluindo modelos 737-700, 737-800 e 737 MAX 8. Portanto, entre as grandes companhias que atuam no mercado brasileiro, é aquela cuja estrutura de frota possui o encaixe mais direto para novos aviões comerciais Boeing de corredor único.

Mas a GOL integra o Abra Group, grupo de aviação latino-americano que também reúne a Avianca e possui investimentos em outras empresas. Decisões de frota e financiamento de grande escala estão, assim, inseridas em uma estratégia que ultrapassa a operação brasileira.
No caso da LATAM, a separação é ainda mais clara. O LATAM Airlines Group, sediado no Chile, utiliza aviões Airbus da família A320 em sua frota de corredor único, enquanto os Boeing estão concentrados principalmente na operação de longo curso e cargueiros, com modelos 767, 777-300ER e 787.
Uma eventual compra de novos widebodies Boeing seria, portanto, uma decisão do grupo LATAM para sua rede internacional, e não necessariamente uma aquisição destinada especificamente à operação brasileira. Já uma encomenda de 737 representaria a introdução de uma família diferente em uma frota narrowbody hoje baseada em Airbus.

Azul não opera aviões Boeing
A Azul apresenta uma situação diferente. A companhia é brasileira e não faz parte de um grupo aéreo multinacional como Abra ou LATAM, mas não possui aviões Boeing em sua frota.
Sua operação utiliza uma combinação de Airbus A320neo, A321neo e A330, Embraer E-Jets e turboélices ATR, além de modelos empregados em operações regionais e de carga.
A própria Azul confirmou ao Estadão que não possui aeronaves Boeing. A GOL não comentou a negociação entre os governos, enquanto a LATAM informou sobre suas entregas recentes de 787-9, mas também não se manifestou sobre a proposta americana.
A estrutura do mercado ajuda a mostrar a dificuldade prática de transformar o compromisso proposto pelos Estados Unidos em uma compra específica. O governo brasileiro poderia negociar condições comerciais com Washington, mas não determinar diretamente fabricantes, modelos ou quantidades adquiridas pelas companhias aéreas.

Jatos executivos entraram em nova proposta
A exigência relacionada à indústria aeronáutica reapareceu em uma proposta americana enviada ao Brasil em 9 de janeiro de 2026, desta vez sem mencionar uma quantidade de aviões comerciais Boeing.
No documento, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) incluiu o setor aeroespacial entre os itens prioritários para um acordo de curto prazo e pediu que o Brasil removesse “todas as barreiras tarifárias e não tarifárias à venda de jatos executivos dos EUA no Brasil”.
A formulação ampliava o interesse americano para fabricantes de aeronaves executivas dos Estados Unidos, um segmento no qual empresas como Gulfstream e Textron Aviation disputam diretamente o mercado brasileiro.
As negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos continuam. Uma nova rodada de contatos é prevista durante reunião do G20, após o governo Trump ter adotado novas sobretaxas sobre produtos brasileiros em julho.
