As asas do 777X tem 71,7 metros de envergadura. Com as pontas dobradas, ela é reduzida para 64,8 m (Boeing)

Próximo grande avião comercial da Boeing, o novo 777X promete surpreender muita gente quando chegar aos aeroportos. O jato americano é a maior aeronave bimotor de todos os tempos, com 76,7 metros de comprimento e peso máximo de decolagem de 351 toneladas (números referentes ao 777-9). A envergadura das asas do modelo também impressiona, com 71,7 m de uma ponta à outra.

O fato do 777X ser tão largo levou a Boeing a criar um dispositivo que dobra as pontas das asas do avião quando ele está no solo e reduz sua envergadura para 64,8 metros, exatamente o mesmo tamanho das asas do 777-200LR e 777-300ER da primeira geração. Não fosse por essa solução, terminais aéreos precisariam passar por adaptações para receber o novo 777, repetindo o mesmo problema do gigante Airbus A380, uma aeronave que “cabe” em poucos aeroportos pelo mundo.

Agora imagine a seguinte situação: e se, por algum motivo extremamente improvável, os pilotos do 777X esquecerem de descer as pontas das asas dobráveis, ele poderia decolar?

Na prática, isso seria impossível. A Boeing desenvolveu sistemas redundantes e alertas para assegurar que os pilotos não se esqueçam de baixar as pontas das asas do 777X e travá-las na posição correta antes da decolagem. Isso, inclusive, foi um dos requisitos do FAA, a agência de aviação civil dos EUA, para a certificação da aeronave.

Contudo, em teoria, o 777X conseguiria voar com as pontas das asas dobradas? “É uma situação hipotética, mas o 777X teoricamente poderia sim voar com as pontas das asas dobradas”, explicou ao Airway o professor Fernando Catalano, chefe do Departamento de Engenharia Aeronáutica da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos.

“A asa do 777X tem uma grande capacidade de gerar sustentação, mesmo com as pontas das asas levantadas. Ele sem dúvidas poderia decolar com essa configuração, embora obviamente isso
não seja recomendado. Isso certamente também mudaria a performance de voo da aeronave. O que não poderia acontecer de jeito nenhum é ele voar com uma ponta da asa dobrada e outra abaixada. Assimetria não é algo bom na aviação”, contou Catalano.

A asa de maior envergadura do 777X foi desenvolvida para melhorar a eficiência de consumo de combustível da aeronave em voo. “É um ganho pequeno, de aproximadamente 1%, mas na aviação soluções para reduzir os gastos com combustível sempre são bem-vindas”, acrescentou o professor.

Ops, esqueci de desdobrar as asas…

Aeronaves equipadas com dispositivos que dobram as asas são muito comuns na aviação naval. É um recurso essencial para economizar espaço a bordo dos porta-aviões e aumentar a capacidade dos hangares e do conveses de voo dessas embarcações.

Por incrível que pareça, já foram registrados uma série de incidentes em que aeronaves navais dos EUA decolaram com as asas dobradas por pura distração dos pilotos e tripulantes de porta-aviões.

Em pelo menos sete ocasiões, caças Vought F-8 Crusader decolaram por engano com as asas recolhidas, todas em operações noturnas. Felizmente, nenhum aparelho se acidentou por conta desse descuido.

Caça F-8 Crusader voando com as asas dobradas se aproximando para um pouso de emergência

Isso também aconteceu com caças F-4 Phantom da Marinha dos EUA, embora o número de incidentes seja desconhecido. A Força Aérea dos EUA, por outro lado, conduziu testes com o F-4 voando propositalmente com as asas dobradas para saber como a aeronave se comportava nessa situação.

A despeito dos alertas e mecanismos de segurança, antes de decolar com o 777X ou com algum caça naval, é sempre bom conferir visualmente se as asas estão na posição correta…

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