A oficina de aviões da Latam, no Aeroporto de Congonhas

Centro de manutenção em São Paulo recebe 15 aeronaves por dia. Ou melhor, por noite
A oficina da Latam em Congonhas ainda exibe a antiga marca da Tam (Thiago Vinholes)
A oficina da Latam em Congonhas ainda exibe a antiga marca da Tam (Thiago Vinholes)
A oficina da Latam em Congonhas ainda exibe a antiga marca da Tam (Thiago Vinholes)
A oficina da Latam em CGH ainda exibe a antiga marca da Tam (T.Vinholes)

Quando o ponteiro do relógio aponta para as 11 horas da noite, o Aeroporto de Congonhas fecha. Para reduzir a poluição sonora na região, nenhum avião pousa ou decola depois desse horário. Mas o movimento não para. Pelo contrário, ele está apenas começando, ao menos para os mecânicos que trabalham na oficina de Latam Airlines no aeroporto na zona sul de São Paulo.

“Aproveitamos o tempo que as aeronaves ficam paradas à noite para realizar uma série de revisões de rotina ou até mesmo serviços de manutenção, se estiver ao nosso alcance. A oficina funciona 24 horas por dia, mas a maior parte das atividades acontece à noite”, explicou Denis Loureiro, coordenador de manutenção da Latam em Congonhas.

A oficina da Latam em Congonhas atende todos os dias até 15 aeronaves da frota. São aviões que precisam de serviços como troca de pneus e rodas, checagem de componentes eletrônicos e limpeza de cabine, incluindo novos assentos e carpetes, se o “estrago” causado pelo passageiro durante o dia for muito grave. Ou, se houver necessidade, o centro pode substituir componentes vitais do avião, como o radar, para-brisa, trem de pouso e os motores.

“A segurança é primordial na aviação comercial e para isso é preciso muita atenção com a manutenção. As aeronaves passam por ‘checks’ diários, semanais e mensais, todos já previstos no manual do fabricante”, conta Loureiro.

Já os serviços mais pesados, como os que exigem a desmontagem de componentes de grande porte e complexidade, são realizados no centro de manutenção da Latam em São Carlos, que possui as ferramentas e autorizações necessárias.

A Latam foi a primeira companhia das Américas a receber o A320neo (Airbus)
A oficina da Latam em Congonhas já está habilitada para trabalhar com o A320neo (Airbus)

A oficina da Latam possui três hangares, cada um com capacidade para uma aeronave. Serviços também são realizados no pátio em frente, onde é possível estacionar mais cinco jatos. “A noite, as aeronaves ficam intercalando as posições. A Latam ainda possui outros dois pontos em Congonhas onde os aviões podem pernoitar, depois de passar pela oficina”, revela o coordenador de manutenção da empresa.

A instalação da Latam em Congonhas é uma espécie de “centro autorizado” de manutenção para aviões da Airbus, como é o caso da frota da companhia que opera em Congonhas – os jatos da família A320. “Cada processo de manutenção em aeronaves, especialmente jatos comerciais, exige certificações do fabricante e de órgãos aeronáuticos”, afirmou Loureiro.

Peças no cofre, motores na geladeira

Em um sala fechada por uma grade de metal, vigiada por um guarda e com entrada somente para pessoas autorizadas, a Latam guarda uma valiosíssima coleção de peças de reposição. São desde componentes simples, como interfones de cabine e cafeteiras, até radares e caixas pretas, itens avaliados em dezenas de milhares de dólares. A caixa preta do Airbus A320, por exemplo, custa US$ 60.000, enquanto um radar pode custar mais de US$ 1 milhão.

Caixas-pretas no estoque da Latam; cada uma custa US$ 18.500 (Thiago Vinholes)
Caixas-pretas no estoque da Latam; cada uma custa US$ 18.500 (T. Vinholes)

As peças pequenas e médias ficam armazenas em prateleiras a perder de vista, enquanto os componentes maiores são guardados em um armazém equipado com um guindaste de teto.

Já o espaço onde a Latam revisa e guarda seus motores reservas em Congonhas é como o “eldorado” para entusiastas da aviação. “Para cada 10 motores voando, temos um de reserva”, revelou Renato Banchieri, gerente da oficina de motores e rodas da Latam em Congonhas.

Os motores reservas da companhia ficam embalados em sacos plásticos gigantes e armazenados em salas climatizadas e com cuidados especiais contra corrosão. “Reduzimos a temperatura para deixar o ar mais seco, assim a umidade não enferruja os motores. Também colocamos sacos de sílica nas entradas de ar. Esse procedimento é utilizado em motores que ficam parados muito tempo”, conta Banchieri.

O almoxarifado em Congonhas também possui trolleys reservas, os carrinhos usados pelos comissários distribuírem refeições e bebidas (Thiago Vinholes)
O estoque em Congonhas também possui trolleys reservas (T. Vinholes)

“Aqui em Congonhas podemos fazer a troca de motores nos jatos da família A320. O serviço é realizado à noite, em cerca de três horas. Quando amanhece, horário que podemos ligar os motores, testamos o equipamento e, se aprovado, liberamos o avião para operar nos voos comerciais. Isso acontece geralmente quando o motor apresenta alguma avaria ou em casos de ‘birdstrikes’, quando o motor suga um pássaro”, explicou Banchieri.

Os motores usados no A320 da Latam custam cerca de US$ 10 milhões e suas peças de reposição são igualmente caríssimas. Cada palheta na “boca” do motor, peças construídas em titânio, custa US$ 50.000. “Cada motor do A320 tem 22 dessas palhetas. Nos birdstrikes, essa parte é uma das mais afetadas”, contou o gerente da Latam.

De acordo com o gerente da Latam, todos os motores usados nos jatos da frota da companhia têm seguro e a franquia cobre danos avaliados em cerca de US$ 250 mil. Se o dano for muito grave, o motor pode ser descartado, uma vez que uma revisão completa com o fabricante pode custar mais de US$ 5 milhões. Ainda segundo Banchieri, os pássaros que causam os maiores danos em aviões são urubus e quero-queros.

A Latam mantém um motor reserva para cada 10 que estão voando (Thiago Vinholes)
A Latam mantém um motor reserva para cada 10 que estão voando (T. Vinholes)

A parte da “graxa” na oficina da Latam ainda conta com uma “borracharia” de pneus de aviões. Todos os dias, a sessão recebe até 30 conjuntos de pneus e rodas, que são desmontados, avaliados e enviados para revisão com o fabricante (a Latam usa pneus Goodyear), onde são recauchutados – os pneus do trem de pouso principal do A320 podem ser recauchutados até quatro vezes.

A oficina de pneus da Latam em Congonhas, apesar do trabalho pesado, é a única sessão da instalação que não opera 24 horas dia. A borracharia funciona das 6 horas até as 15 horas.

Conjunto de pneus do Airbus presidencial; a Latam é responsável pela manutenção do FAB-VC1 (Thiago Vinholes)
Os pneus do Airbus presidencial estavam em Congonhas; a Latam faz a manutenção do FAB-VC1 (Thiago Vinholes)

“Tela da NASA”

A oficina da Latam em Congonhas também concentra o Centro de Controle de Operações Aéreas (CCOA) da Latam Airlines no Brasil, outra parte da companhia que funciona 24 horas por dia. “Aqui nessa sala acompanhamos tudo que está acontecendo nos voos da Latam, como a disponibilidade de aeronaves e tripulantes, informações meteorológicas, voos atrasados e cancelados. Tudo aparece em nosso monitor, a ‘tela da Nasa’, até o que nossos clientes escrevem nas redes sociais sobre a companhia”, contou Andrey Mourão, gerente do CCOA.

O centro de controle, uma sala com dezenas de operadores, é onde a Latam soluciona todos os problemas que podem surgir em seus voos durante o dia, orientando mecânicos e pilotos, mesmo voando, sobre os procedimento que devem ser realizados para manter a operação em ordem e segura.

"Tela da Nasa" no Centro de Controle de Operações Aéreas da Latam (T. Vinholes)
“Tela da Nasa” no Centro de Controle de Operações Aéreas da Latam (T. Vinholes)

Quando as operações são encerradas em Congonhas, o CCOA “fecha a conta” e prepara as operações do dia seguinte. “Por mais que exista uma antecipação na programação, todos os dias é necessário realizar alguma modificação. Um avião pode ser substituído ou então é necessário enviar um comandante para outra base. A atividade aqui não para nunca”, descreveu a gerente.

O CCOA também conta com uma outra sala onde só ficam comandantes experientes. Esses pilotos em solo têm conexão direta com seus colegas em voo e ajudam a solucionar problemas e criar planos de voo para as operações diárias da companhia no Brasil.

Manter uma companhia aérea é uma tarefa árdua, especialmente com uma frota do tamanho da Latam. No Brasil, a empresa opera mais de 130 jatos somente da família A320, o que exige cuidados especiais e uma estrutura e processos de logística dignos de fábricas, além de milhares de funcionários. É um trabalho que nunca para, caso contrário os aviões não decolam.

Veja mais: KLM completa 70 anos de operações no Brasil

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Manuel ns
5 anos atrás

Ola, Thiago gosto do seu blog sou faço parte da manutenção de aeronaves só que você poderia adicionar algum tópico referente a vagas na aviação na parte da Manutenção de Aeronaves.

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