Os combates aéreos de Portugal

“Guerra do Ultramar” levou as forças portuguesas ao limite em combates simultâneos em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau
O caça F-84 da FAP não era adequado para o novo tipo de combate que aparecia na África (Domínio Público)
O caça F-84 da FAP não era adequado para o novo tipo de combate que aparecia na África (Domínio Público)
O caça F-84 da FAP não era adequado para o novo tipo de combate que aparecia na África (Domínio Público)
O jato T-33 da FAP não era adequado para o novo tipo de guerra que nascia na África (Domínio Público)

Pioneiro na exploração dos oceanos, Portugal colecionou territórios no mundo todo enquanto foi um império. Os domínios compreendiam do Brasil à largas porções de terras na África e pontos na Ásia, o que fez do pequeno país da Europa um gigante no planeta por mais de 700 anos. Mesmo com o fim na monarquia, em 1910, os portugueses tentaram manter a “fleuma” imperial até a segunda metade do século XX. E na base da força.

Em 1961, uma série de movimentos populares foi iniciada em Angola, ainda uma colônia portuguesa, pedindo independência. Nessa mesma época, muitos países na África já haviam se libertado de seus antigos colonizadores, processo que Portugal, então governado pelo implacável ditador Salazar, se recusava a aceitar. Para repelir as manifestações, que começaram a tomar forma de ataques armados, os portugueses enviaram milhares de soldados para o território africano, o que exigiu uma enorme movimentação da Força Aérea Portuguesa (FAP).

Começava a primeira fase da “Guerra do Ultramar”, como chamam os historiadores portugueses, ou a “Guerra de Libertação”, como é conhecido o conflito na África, que duraria até 1974. Portugal estava para enfrentar um dos piores e mais difíceis tipos de combates, a longa guerra contra guerrilhas. É o mesmo tipo de conflito que os Estados Unidos enfrentaram e perderam poucos anos depois na Guerra do Vietnã.

Os movimentos angolanos, liderados pelo MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), montaram seus próprios exércitos e foram a luta. E Portugal arrumou uma briga enorme. Os grupos eram financiados e armados pela antiga União Soviética (URSS) e forças de diversos países foram lutar ao lado dos angolanos. Até Cuba estava na encrenca.

Portugal era uma ditadura militar, mas suas armas não eram tão boas. Os primeiros aviões de combate enviados a Angola foram os arcaicos monomotores North-American T-6 “Texan” e os caças a jato de primeira geração Republic F-84 e Lockheed T-33. No início dos combates, essas aeronaves atuavam em missões de reconhecimento e eventuais combates, sempre contra posições terrestres. Mas combater guerrilheiros não é fácil. E Portugal não parava de colecionar inimigos.

A África do Sul lutou ao lado de Portugal na Guerra do Ultramar (Domínio Público)
A África do Sul lutou ao lado de Portugal na Guerra do Ultramar (Domínio Público)

Com a recusa em libertar o país, os movimentos angolanos iniciaram sangrentos ataques em prédios do governo e contra populações estrangeiras. Em 1962, foi iniciado o movimento de libertação em Moçambique e, no ano seguinte, em Guiné-Bissau, que ainda eram colonias de Portugal. Ao lado dos portugueses, temendo a mesma rebelião em seu território, estava a África do Sul.

Combates

O principal avião da FAP no combate a posições guerrilheiras nos três cenários de guerra foi, quem diria, o T-6. Conhecido como avião de treinamento, a aeronave projetada na década de 1930, foi armada como nunca pelo portugueses e saiu à caça dos rebeldes. Como os EUA experimentariam ainda na década de 1960, na Guerra do Vietnã, nesse tipo de conflito velocidade não é o quesito mais importante para o ataque de precisão, embora fosse uma ação perigosíssima.

O rústico T-6 foi o avião mais usado pela FAP na Guerra do Ultramar (Domínio Público)
O rústico T-6 foi o avião mais usado pela FAP na Guerra do Ultramar (Domínio Público)

Os T-6 levavam metralhadoras, bombas e foguetes. Mas mesmo com centenas de surtidas, os ataques rebeldes nunca terminavam. As forças em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau contavam com centenas de milhares de combatentes, enquanto Portugal se esforçava para alcançar algumas poucas dezenas de milhares.

Cada vez mais armado, o trio africano também conseguiu montar suas “próprias” forças aéreas, com aviões e equipamento de solo, como baterias de artilharia anti-aérea e mísseis. Durante o conflito, aviões com as cores dos países eram pilotados por pilotos de outras nações, principalmente da URSS e Cuba.

Sob uma frente de combate até então inédita, a Força Aérea Portuguesa foi uma das primeiras do mundo a aplicar helicópteros em combate, novamente antevendo um dos principais instrumentos da Guerra do Vietnã e conflitos das décadas seguintes. Na África, um dos primeiro aparelhos utilizados pela FAP foi Aloutte III, usado em ataques leves e evacuações de feridos.

Portugal foi o primeiro país a utilizar o helicópteros em combate; modelos Aloutte III na África (Domínio Público)
Portugal foi o primeiro país a utilizar o helicóptero em guerra; modelos Aloutte III na África (Domínio Público)

Jatos portugueses vão ao ataque

Embora Angola tenha iniciado as manifestações, a maior frente de batalha da Guerra do Ultramar foi em Moçambique. O país recebeu armamentos modernos e apoio dos temidos MiG-17, algo que os portugueses não tinham como enfrentar. Os jatos da FAP então em combate eram o limitado F-84 e o apenas razoável Fiat G.91. Esses aviões, porém, por sorte não se encontraram. Mas uma série de caças portugueses foram abatidos por mísseis terra-ar e artilharia, principalmente em regiões onde haviam antigos aeródromos portugueses tomados pelos rebeldes.

Temendo ataques mais ferozes, Portugal enviou para a guerra o que tinha de melhor: seus poucos caças F-86 Sabre. Os aviões americanos, porém, foram retirados em 1964 a pedido dos EUA, que exigiu o retorno dos aparelhos defesa na Europa, a serviço da OTAN. Enquanto isso a frota de MiGs aumentava…

Os F-86 portugueses tiveram de voltar para a Europa e servir a OTAN (Domínio Público)
Os F-86 portugueses tiveram de voltar para a Europa e servir a OTAN (Domínio Público)

Os MiG-17 operados em Guiné-Bissau “sambavam” contra os radares portugueses. No início da década de 1970, unidades decolavam a noite e partiam para assustar os navios da Marinha de Portugal, que não sabiam o que fazer. MiGs da Força Aérea da Nigéria também participaram dessas operações.

No único relato confirmado de ataque dessas aeronaves, houve uma “barbeiragem” do piloto, que não teve sua identidade revelada. Um MiG-17 abriu fogo contra um navio, pensando ser uma embarcação portuguesa navegando no limite estabelecido. No entanto, era um cargueiro cubano.

O Fiat G-91, em primeiro plano, foi o principal jato da FAP na África; sete foram abatidos (Domínio Público)
O Fiat G-91, em primeiro plano, foi o principal jato da FAP na África; sete foram abatidos (Domínio Público)

Os ataque de jatos e dos T-6 portugueses em operações contra guerrilhas continuariam até o final do conflito, em 1974. Encontros com aeronaves hostis eram raros e se acontecessem os pilotos lusitanos eram orientados a evitar o combate. O outro lado também seguia a mesma ordem.

E Portugal não parava de gastar com armas. Nesse período a FAP recebeu seus primeiros Boeing 707 de apoio logístico, que voavam constantemente em longas rotas entre a antiga metrópole e bases nas colonias “rebeldes” ou países vizinhos, como Botsuana e a antiga Rodésia.

Portugal operou dois Boeing 707 durante a guerra na África (Domínio Público)
Portugal operou dois Boeing 707 durante a guerra na África (Domínio Público)

A partir da década de 1970, o conflito em Angola recebeu mais atenção da África do Sul do que propriamente de Portugal, que estava ocupado demais em Moçambique e Guiné-Bissau. Os angolanos tinham a ajuda dos MiG-21 comandados por cubanos. Essas aeronaves travaram combates supersônicos contra os Dassault F-1 sul-africanos, que levaram vantagem.

Revolta popular, em Portugal

Os conflitos na África arrasaram a economia de Portugal e o número de mortos e feridos no conflito que já durava 13 anos era alarmante. Na Guerra do Ultramar, cerca de nove mil portugueses, dos 148 mil enviados, morreram e outros 30 mil ficaram feridos. Mostrando um enorme despreparo da ditadura de Salazar, cerca de 70% das baixas lusitanas eram de forças expedicionárias. Ou seja, eram soldados com pouquíssimo treinamento militar, sobretudo para uma guerra tão imprevisível.

Segundo registros da FAP, durante o conflito foram perdidos 51 modelos T-6 e sete jatos Fiat G.91. Do lado dos países africanos, as perdas são estimadas em cerca de 100 mil mortos e feridos. Em 1974, com a Revolução dos Cravos, a ditadura foi encerrada em Portugal e os territórios do ultramar foram enfim libertados. Todas as forças portuguesas foram retiradas da África.

Mas a guerra nessa região continuaria. Com um desfecho conturbado e uma série de partidos corruptos em busca do poder, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau ainda viveriam muitos anos de guerra civil, que terminaram somente no início desta década.

Veja mais: Operação Chernobyl

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