O Peru escolheu a suíte de guerra eletrônica L3Harris Viper Shield para seus futuros caças F-16 Block 70, acrescentando mais um componente ao programa de modernização que encerrará décadas de dependência de aeronaves de combate de origem soviética.
A L3Harris anunciou a decisão em 18 de agosto, quatro meses após o governo peruano selecionar 12 novos F-16 Block 70. As aeronaves substituirão ao menos parte da frota de caças atualmente centrada nos MiG-29 e Mirage 2000, cada vez mais difíceis de manter.
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O Viper Shield, designado oficialmente AN/ALQ-254(V)1, foi desenvolvido pela norte-americana L3Harris em parceria com a Lockheed Martin e a Força Aérea dos EUA, especificamente para os F-16 modernos. O sistema combina funções de apoio eletrônico e contramedidas, com objetivo de detectar ameaças de radar e interferir em sistemas que tentem rastrear ou engajar a aeronave.
O Peru torna-se o oitavo país a selecionar o Viper Shield. Segundo a L3Harris, a empresa se prepara para produção em ritmo total de 233 sistemas, com o equipamento integrado internamente nos novos Block 70/72 e também disponível em configurações para F-16 mais antigos.

Caminho longo até o F-16
O anúncio da suíte de guerra eletrônica é relativamente direto, mas o programa de caças que o sustenta foi bem mais complexo.
O Peru passou anos avaliando como substituir uma frota de combate heterogênea, cujas origens refletem períodos muito distintos nas relações exteriores do país.
A Força Aérea do Peru ainda opera Mirage 2000 de fabricação francesa ao lado dos MiG-29 e dos aviões de ataque Su-25, ambos de projeto russo. Estes dois últimos foram adquiridos após o conflito de fronteira com o Equador em 1995, quando Lima voltou-se para equipamentos de origem soviética.
O Peru adquiriu inicialmente 18 MiG-29 usados da Bielorrússia em 1997, seguidos de três aeronaves novas compradas diretamente da Rússia em 1998. O acordo com a Bielorrússia dificultou a obtenção de peças de reposição e suporte técnico, o que motivou o posterior entendimento com a Rússia. Os Su-25 também vieram de estoques excedentes bielorrussos no mesmo período.

O resultado foi uma frota de combate incomum, misturando projetos franceses e soviéticos, mas a manutenção dessas aeronaves tornou-se cada vez mais problemática com o passar dos anos.
Quando o Peru finalmente avançou para uma nova aquisição de caças, três modelos ocidentais surgiram como principais candidatos: o Lockheed Martin F-16 Block 70, o Saab Gripen E e o Dassault Rafale.
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A concorrência passou por várias reviravoltas políticas e orçamentárias antes de Lima optar pelo F-16. Em setembro de 2025, o Departamento de Estado dos EUA aprovou uma possível venda militar estrangeira de 12 F-16 Block 70 e equipamentos associados, estimada em US$ 3,42 bilhões, dando ao Peru um marco para avançar com a opção norte-americana.
A decisão não foi imediata. Propostas concorrentes continuaram em análise e persistiram dúvidas sobre financiamento e a configuração final da aquisição. A Lockheed Martin anunciou finalmente em abril de 2026 que o Peru havia escolhido o F-16 Block 70.

Caças soviéticos dão lugar à frota ocidental
A escolha do F-16 também altera uma relação com a aviação militar russa que remonta a muito antes do MiG-29.
O Peru tornou-se um dos principais usuários latino-americanos de aeronaves soviéticas nos anos 1970, adquirindo, entre outros, caças-bombardeiros Sukhoi Su-22 e uma grande frota de helicópteros soviéticos. As compras posteriores de MiG-29 e Su-25 mantiveram essa ligação após o colapso da União Soviética, mesmo tendo sido inicialmente fornecidas pela Bielorrússia.
Os novos F-16 representam, portanto, mais do que uma simples substituição de caças antigos. Seus armamentos, sistemas de guerra eletrônica, treinamento e suporte de longo prazo vão vincular parte significativa da infraestrutura de aviação de combate do Peru a fornecedores norte-americanos por décadas.
A escolha do Viper Shield faz parte dessa transição. Diferentemente de equipamentos que poderiam ser integrados posteriormente por outro fornecedor, o sistema foi desenvolvido em conjunto com a configuração mais recente do F-16 e já está sendo incorporado ao ecossistema de produção dos Block 70/72.

Renovação regional de caças
O Peru também se insere em um ciclo mais amplo de renovação que está transformando as frotas de caças em toda a América do Sul.
O Brasil foi o primeiro entre as principais forças aéreas da região, escolhendo o Gripen E/F para substituir seus Mirage 2000 e, futuramente, os F-5. A Força Aérea Brasileira já opera o F-39E, designação local, e o país participa do desenvolvimento e produção do programa Gripen. O contrato original prevê 36 aeronaves, sendo 28 Gripen E monopostos e oito Gripen F bipostos.
A Argentina adquiriu posteriormente F-16 usados da Dinamarca para recuperar a capacidade supersônica perdida com a aposentadoria da família Mirage, enquanto a Colômbia escolheu o Gripen E/F para substituir sua frota de Kfir de origem israelense. A Saab assinou o contrato colombiano em novembro de 2025 para 15 Gripen E e dois Gripen F, com entregas previstas entre 2026 e 2032.
