Há apenas três anos, um passageiro pagava em média R$ 182 a mais para voar pela Azul do que pela LATAM no mercado doméstico brasileiro. No primeiro semestre de 2026, essa diferença desapareceu. A LATAM passou a ter a maior tarifa média entre as principais companhias aéreas do país, resultado de trajetórias de preços que seguiram direções opostas desde 2023.

Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), corrigidos pela inflação, mostram que a tarifa média da LATAM subiu de R$ 604,15 no primeiro semestre de 2023 para R$ 678,87 no mesmo período deste ano, alta real de 12,4%. Na Azul, o valor caiu de R$ 786,56 para R$ 672,23, uma redução de 14,5%.

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A diferença entre as duas empresas, que era de R$ 182,41 há três anos, agora é de apenas R$ 6,64, mas com a LATAM no topo. É a primeira vez em 14 anos que a Azul deixa de apresentar a maior tarifa média entre as três grandes companhias brasileiras, segundo levantamento publicado pela VEJA a partir dos dados da ANAC.

A inversão não ocorreu em um único ano. A aproximação já era visível em 2024, quando a diferença entre Azul e LATAM havia caído para cerca de R$ 49. No primeiro semestre de 2025, a Azul ainda cobrava em média R$ 686,07, contra R$ 640,82 da LATAM.

Neste ano, as trajetórias voltaram a divergir. A tarifa média real da LATAM avançou 5,9% sobre o primeiro semestre de 2025, enquanto a da Azul recuou 2,0%.

Airbus A320neo Azul
Airbus A320neo Azul | Azul

Em três anos, portanto, abriu-se uma diferença de 26,9 pontos percentuais entre a evolução real das tarifas das duas empresas: a LATAM encareceu acima da inflação enquanto a Azul ficou significativamente mais barata em termos reais.

Malha da Azul não explica inversão

A comparação das tarifas médias nacionais exige uma ressalva. Ela não significa que uma companhia necessariamente cobre mais do que outra por uma passagem entre as mesmas cidades.

A Azul possui uma malha muito diferente das concorrentes, com forte presença em cidades menores e mercados nos quais enfrenta pouca ou nenhuma concorrência direta. Essa característica ajudou durante anos a explicar por que sua tarifa média era superior à de LATAM e GOL.

Uma análise do Airway dos microdados de tarifas aéreas da ANAC, porém, mostra que a mudança permanece quando boa parte desse efeito é retirada da comparação.

Considerando apenas mercados de origem e destino nos quais Azul e LATAM comercializaram passagens entre janeiro e junho de 2026, a tarifa média nominal da LATAM foi de R$ 673,15, ante R$ 640,21 da Azul.

LATAM A321neo PS-LQB
LATAM A321neo PS-LQB | UB-TY144 uboie

A diferença, portanto, aumenta para R$ 32,94, ou 5,1%, quando são considerados somente mercados em que as duas empresas disputam passageiros.

A transformação fica ainda mais evidente quando a mesma comparação é feita retroativamente.

Em 2023, nesses mercados compartilhados, a tarifa média nominal da LATAM era de R$ 526,26, enquanto a da Azul chegava a R$ 659,20. A Azul cobrava R$ 132,94 a mais.

Em 2024, a diferença caiu para R$ 27,08 e, no ano seguinte, para R$ 15,11. Agora a relação se inverteu: a LATAM cobra R$ 32,94 a mais.

Isso representa uma mudança de quase R$ 166 na diferença nominal entre as tarifas das duas empresas em apenas três anos.

GOL permanece mais barata

A inclusão da GOL na comparação reforça o resultado. Nos mercados de origem e destino em que as três companhias comercializaram passagens no primeiro semestre de 2026, a tarifa média nominal da LATAM foi de R$ 671,81.

A Azul aparece em seguida, com R$ 637,84, enquanto a GOL registrou R$ 593,82. A diferença entre LATAM e GOL chega, assim, a quase R$ 78.

Três anos antes, a situação era bastante diferente. Nesses mesmos tipos de mercados compartilhados pelas três empresas, a Azul apresentava tarifa média de R$ 663,77, contra R$ 525,45 da LATAM e R$ 513,91 da GOL.

Boeing 737 MAX 8 da GOL (Alexandro Dias)
Boeing 737 MAX 8 da GOL (Alexandro Dias)

Os dados ajudam a afastar uma explicação baseada apenas na presença da Azul em mercados menores e menos concorrenciais. A composição de sua extensa malha continua influenciando a média nacional, mas a inversão também aparece quando a análise é limitada aos mercados nos quais as principais empresas disputam o mesmo fluxo de passageiros.

Tarifa média não é preço de um voo

Os dados da ANAC consideram o valor pago pelo transporte aéreo, sem incluir taxas aeroportuárias e serviços adicionais. Também ficam de fora categorias de bilhetes que não são oferecidas ao público em geral, como passagens emitidas com programas de milhagem e determinadas tarifas especiais.

Há ainda outra diferença importante. Os mercados de origem e destino utilizados na análise não correspondem necessariamente a rotas sem escalas. A origem e o destino são aqueles registrados no bilhete, independentemente da existência de conexões durante a viagem.

Por isso, os números não permitem concluir, por exemplo, que a LATAM cobra 5,1% mais que a Azul quando as duas oferecem exatamente o mesmo voo. Eles mostram que, nos mercados em que ambas venderam transporte entre a mesma origem e o mesmo destino, o valor médio pago pelos passageiros da LATAM foi maior.

Embraer E195-E2 da Azul
Embraer E195-E2 da Azul | Azul

A tendência também aparece nos resultados financeiros da companhia. No segundo trimestre de 2026, o Grupo LATAM informou crescimento de 17,5% na receita de passageiros por assento-quilômetro (PRASK), enquanto sua capacidade consolidada aumentou 8,9%. A empresa atribuiu o desempenho, entre outros fatores, a tarifas mais altas e yields fortes em sua malha.

A mudança ocorre enquanto a LATAM prepara uma expansão para mercados brasileiros de menor densidade. A companhia começará a operar o Embraer E195-E2 no fim deste ano e prevê ter até 14 unidades em serviço até março de 2027, atendendo 42 rotas.

O jato permitirá à LATAM entrar em cidades menores, aumentar frequências e substituir aeronaves maiores em determinados mercados. É justamente o tipo de operação em que a Azul construiu grande parte de sua malha doméstica e que, durante anos, ajudou a diferenciá-la das duas principais concorrentes.