A ATR criticou em um texto publicado em seu site nesta semana as propostas de modernização de antigos jatos regionais de 50 assentos nos Estados Unidos, alegando que o segmento apresenta problemas estruturais que persistem independentemente de atualizações.

A fabricante franco-italiana de turboélices diz que cláusulas de escopo, escassez de pilotos e baixa rentabilidade inviabilizam qualquer tentativa de prolongar a vida útil desses aviões. Em vez disso, a ATR obviamente propõe seus modelos ATR 42 e ATR 72 como alternativas mais adequadas para o mercado regional dos EUA, apesar da resistência histórica do segmento aos turboélices.

O mercado regional dos EUA migrou de forma decisiva para os jatos no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, com a chegada do Embraer ERJ 145 e do Bombardier CRJ200. Essas aeronaves de 50 assentos permitiram às companhias aéreas contornar cláusulas de escopo que limitavam o tamanho das aeronaves regionais operadas sob contratos principais.

Com o relaxamento das restrições, modelos maiores como o Embraer E175 e o CRJ700/900 passaram a dominar, oferecendo maior capacidade de passageiros e melhor desempenho econômico.

CRJ-200 (Eric Salard)
CRJ-200 (Eric Salard)

Atualmente, nenhum fabricante produz novos jatos regionais de 50 assentos. A Embraer encerrou a produção da família ERJ 145, e a Bombardier parou de fabricar o CRJ200, pouco antes de repassar os direitos da série para a Mitsubishi Heavy Industries. A frota remanescente está envelhecida, com muitas aeronaves próximas de 20 anos de operação. A ATR afirma que apenas modernizar esses jatos com novos interiores ou motores ignora restrições fundamentais do mercado.

ATR diz que seus aviões precisam de menos pilotos

“A modernização de jatos de 50 assentos não resolve os problemas que já os tiraram do mercado”, afirmou a ATR. “Cláusulas de escopo, falta de pilotos e deterioração da rentabilidade não se resolvem com novos assentos ou motores.”

A empresa argumenta que turboélices consomem menos combustível, exigem pistas mais curtas e apresentam melhor desempenho em rotas de menor demanda, onde jatos de 50 assentos têm dificuldade para gerar lucro.

ATR 72 versus CRJ200 em espaço interior (ATR)
ATR 72 versus CRJ200 em espaço interior (ATR)

A escassez de pilotos afetou especialmente as regionais dos EUA. Com companhias aéreas principais e de baixo custo elevando salários e contratando, as regionais enfrentam dificuldades para atrair e reter pilotos, sobretudo para aeronaves menores. A ATR afirma que seus aviões exigem menos pilotos por assento devido ao maior potencial de utilização e menores custos de tripulação em relação à capacidade, embora não apresente números específicos.

Cláusulas de escopo em acordos sindicais limitam a quantidade e o porte das aeronaves regionais que uma companhia principal pode operar. Negociações contratuais permitiram a entrada de jatos regionais maiores, afastando ainda mais os modelos de 50 assentos. A ATR defende que turboélices, com capacidade entre 30 e 78 lugares, se enquadram nas restrições atuais sem competir com as operações principais.

Alguns analistas observam que dificilmente as companhias dos EUA voltarão a operar turboélices em grande escala, devido a preferências históricas, estrutura de malha e expectativas dos passageiros. No entanto, a ATR cita Canadá, partes da Europa e Ásia como exemplos de mercados onde turboélices seguem centrais para a conectividade regional. A empresa acredita que, com o aumento do custo do combustível e pressão ambiental, as companhias dos EUA podem reavaliar o papel dos turboélices.

Evolução dos jatos regionais ASK na América do Norte (ATR)
Evolução dos jatos regionais ASK na América do Norte (ATR)

A ATR estima que cerca de 1.200 jatos de 50 assentos ainda operam na América do Norte, a maioria dos quais precisará ser substituída na próxima década. A fabricante oferece os modelos ATR 42-600 e ATR 72-600 como sucessores naturais, alegando que consomem 40% menos combustível por assento em comparação com jatos regionais equivalentes.

Resta saber se as companhias dos EUA seguirão esse caminho, mas a ATR reforça sua posição enquanto a janela para o retorno dos turboélices se estreita.