A Azul apresentou nesta quinta-feira, 13, dados do segundo trimestre que ajuda a mostrar os dois lados da recuperação da companhia após sua ampla reestruturação financeira. A empresa está menos endividada e conseguiu preservar praticamente toda sua receita mesmo reduzindo significativamente a oferta de voos, mas ainda enfrenta custos elevados e consumiu uma parcela relevante de seu caixa entre abril e junho.
A companhia registrou receita operacional de R$ 4,98 bilhões no 2º trimestre de 2026, apenas 0,7% acima do mesmo período do ano passado. O resultado ganha outra dimensão quando comparado à redução de 10,6% na capacidade oferecida e de 9,1% no número de passageiros transportados.
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A Azul conseguiu compensar essa redução cobrando mais por seus voos. A tarifa média avançou 9,5%, para R$ 629, enquanto o yield, indicador da receita obtida por passageiro e quilômetro transportado, cresceu 12,9%. A estratégia, porém, não foi suficiente para compensar o aumento dos custos.
O custo por assento-quilômetro oferecido (CASK) cresceu 26%, praticamente o dobro do avanço de 12,7% da receita unitária. O combustível teve grande peso nessa diferença: o preço médio pago pela Azul por litro subiu 61,8% na comparação anual.

Mesmo excluindo combustível, porém, o custo unitário aumentou 12%. O EBITDA ajustado caiu 55,4%, de R$ 1,14 bilhão para R$ 510 milhões, e sua margem recuou de 23,1% para 10,2%.
Disputa por tripulantes pressiona custos
Outra despesa que chama atenção é a de pessoal. Salários e benefícios aumentaram 21,3%, para R$ 745 milhões, apesar de a Azul ter reduzido em 4,1% seu número de funcionários na comparação anual.
A companhia atribuiu a alta a iniciativas temporárias para retenção de tripulantes, novas contratações e treinamento, além do reajuste salarial de 5% definido em acordo coletivo.
Coincidentemente, o movimento ocorre num período em que a LATAM passou a buscar agressivamente no mercado brasileiro tripulantes com experiência em jatos Airbus A320 e Embraer, famílias que formam a maior parte da frota da Azul.
Não há evidência divulgada pelas empresas que permita relacionar diretamente a ofensiva da concorrente ao aumento dos gastos da Azul. A necessidade declarada pela companhia de investir na retenção de pessoal, entretanto, mostra que a disputa por profissionais qualificados também se tornou uma preocupação.

Azul hoje é uma companhia menor
A reestruturação também está mudando o tamanho da operação. A frota disponível para voos caiu de 176 aeronaves no 2º trimestre de 2025 para 155 um ano depois.
A maior redução ocorreu nos Embraer E-Jets de primeira geração, que passaram de 25 para apenas oito aeronaves disponíveis. A frota de ATR caiu de 29 para 23 aviões e a de Airbus de fuselagem larga foi reduzida pela metade, de dez para cinco.
Em sentido contrário, os E195-E2 passaram de 31 para 42 unidades. Segundo a Azul, 94,1% de sua capacidade doméstica já é operada por aeronaves de nova geração.
A redução atingiu principalmente a operação internacional, cuja capacidade caiu 24,9%. No mercado doméstico, a retração foi de 6,5%.

Dívida cai, mas caixa também
O maior avanço aparece na dívida. A Azul encerrou junho com dívida bruta de R$ 21,4 bilhões, contra R$ 34,4 bilhões um ano antes. A redução de aproximadamente R$ 13 bilhões é consequência direta da reestruturação financeira concluída pela companhia.
Os vencimentos também foram empurrados para frente, com a maior parcela da dívida prevista somente a partir de 2031. Isso deixa a Azul numa posição financeira consideravelmente menos vulnerável que há um ano. O trimestre, entretanto, mostra que a recuperação ainda não terminou.
O caixa disponível caiu de R$ 2,09 bilhões no final de março para R$ 1,27 bilhão em junho, redução de 39% em três meses. A Azul recebeu ainda R$ 330 milhões durante o período por meio de uma linha de crédito para companhias aéreas garantida pelo governo federal.
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A empresa informa possuir R$ 3,7 bilhões em liquidez imediata, mas esse número inclui, além do dinheiro disponível, recebíveis que podem ser antecipados.
Parte relevante do consumo de caixa no trimestre está relacionada à própria reestruturação. A Azul desembolsou R$ 794,5 milhões com despesas consideradas não recorrentes, incluindo pagamentos anteriormente adiados a fornecedores, manutenção e arrendadores.
Isso significa que uma parcela importante dessas saídas não deverá se repetir nos próximos trimestres. Ainda assim, os números mostram que a nova Azul precisa agora superar uma segunda etapa de sua recuperação: depois de reduzir sua dívida e reorganizar a frota, a companhia terá de provar que consegue voltar a gerar caixa de maneira consistente com sua operação regular.

