A SpiceJet deixou de operar seus últimos Boeing 737 MAX, em meio a uma crise financeira prolongada que mantém a maior parte da frota da companhia aérea de baixo custo da Índia no chão.

A suspensão foi noticiada inicialmente pelo site TravelExtra em 28 de agosto, citando comunicado escrito da SpiceJet. Segundo a publicação, a decisão está relacionada a restrições financeiras e de leasing, e não a um novo problema técnico ou de segurança com o 737 MAX.

Registros de voo analisados por Airway confirmam a informação. Os três 737-8 da SpiceJet que ainda estavam ativos pararam de voar em um intervalo de dois dias. O VT-MXD realizou seu último voo comercial conhecido em 20 de agosto, de Kozhikode para Delhi. O VT-MXE voou pela última vez em 19 de agosto, entre Pune e Delhi, enquanto o VT-MXI encerrou suas operações registradas naquele dia, de Srinagar para Delhi.

Voos posteriores continuaram aparecendo nas programações atribuídas às aeronaves, mas vários foram cancelados ou operados por outros 737. Não há registro de voos comerciais subsequentes realizados pelos três MAX.

A perda do MAX reduz ainda mais uma operação que já funciona com uma fração da frota registrada da SpiceJet. O site Planespotters.net lista 11 aeronaves em serviço: três Airbus A320, seis Boeing 737NG e dois De Havilland Canada Dash 8-400. Outras 41 aeronaves estão paradas, incluindo 19 737 e 22 Dash 8.

SpiceJet Boeing 737-800
VT-SPU
SpiceJet Boeing 737-800 VT-SPU | Drewski2112

Os três A320 são adições recentes em regime de damp-lease, uma das medidas adotadas pela SpiceJet para ampliar a capacidade enquanto grande parte de sua frota própria segue indisponível.

Anos de caos financeiro

Os problemas da SpiceJet antecedem tanto a atual escassez de frota quanto a suspensão do 737 MAX. A companhia quase encerrou as operações em dezembro de 2014, quando fornecedores de combustível interromperam temporariamente o abastecimento devido a dívidas em aberto. O cofundador Ajay Singh retornou ao comando e liderou uma recuperação.

Outro período de dificuldades financeiras ocorreu após a paralisação global do 737 MAX em 2019 e a pandemia de Covid-19. Prejuízos, dívidas de leasing e falta de caixa limitaram cada vez mais a capacidade da empresa de manter e recuperar aeronaves.

A SpiceJet tentou uma nova reestruturação em 2024, com uma captação de ₹30 bilhões, cerca de US$360 milhões na época. O valor permitiu quitar parte das dívidas com arrendadores e outros credores e financiar planos para reativar aeronaves paradas, mas a recuperação operacional ficou aquém de restabelecer o porte anterior da companhia.

A diferença é visível na participação no mercado doméstico. A SpiceJet respondia por cerca de 15% do tráfego doméstico indiano em 2019. A fatia caiu para 1,9% em junho de 2026 e 1,6% em julho, quando transportou cerca de 187 mil passageiros domésticos.

SpiceJet Dash-8 VT-SUO 'Laung'
SpiceJet Dash-8 VT-SUO 'Laung' | arjun_mohan2000

As restrições de caixa persistem. A Reuters informou em junho que os pagamentos a muitos dos cerca de 375 pilotos da companhia estavam atrasados desde março. A SpiceJet também buscou financiamento adicional pelo programa governamental Emergency Credit Line Guarantee Scheme.

Arrendadores continuam a cobrar aeronaves e dívidas em aberto. Duas empresas de Dublin controladas pela ICBC Financial Leasing solicitaram em julho a desregistro de quatro Boeing 737 MAX da SpiceJet pelo mecanismo Irrevocable Deregistration and Export Request Authorisation.

Segundo a SpiceJet, essas quatro aeronaves já estavam paradas, devido a problemas de fabricação em turbinas de alta pressão dos motores. A companhia afirmou que devolvê-las eliminaria despesas de leasing sem reduzir a frota ativa.

A SpiceJet enfrenta ainda outras disputas com arrendadores e credores, incluindo pedidos de insolvência na Justiça indiana. Alguns casos foram resolvidos por acordos, mas os litígios continuam enquanto a empresa tenta preservar caixa e recuperar aeronaves.

129 MAX ainda na carteira da Boeing

A situação atual da SpiceJet contrasta fortemente com os planos para o 737 MAX antes da entrada em serviço do modelo.

O banco de dados de Pedidos & Entregas da Boeing registra 142 pedidos brutos do MAX pela SpiceJet: 42 em 2013 e outros 100 em 2016. Apenas 13 foram entregues, restando 129 aeronaves na carteira de pedidos do fabricante.

Essas 13 aeronaves chegaram em rápida sucessão entre setembro de 2018 e março de 2019. O último exemplar foi entregue em 4 de março de 2019, seis dias antes do acidente do voo 302 da Ethiopian Airlines e pouco antes da paralisação global do MAX pelos órgãos reguladores.

SpiceJet Boeing 737-800 VT-SPK
SpiceJet Boeing 737-800 VT-SPK | Premshree Pillai

O momento interrompeu a transição planejada da SpiceJet para uma frota MAX muito maior. As entregas nunca foram retomadas após a paralisação, embora o modelo tenha voltado ao serviço comercial na Índia posteriormente.

SpiceJet e Boeing já haviam anunciado um compromisso ainda maior. Em 2017, divulgaram planos para 155 aeronaves MAX firmes, além de direitos de compra para outras 50, e a Boeing ainda mencionava pedidos para 155 MAX 8, MAX 9 e MAX 10 em materiais da empresa em 2021. O banco de dados atual registra 142 pedidos brutos. Informações públicas analisadas por Airway não esclarecem a diferença de 13 aeronaves.

As 129 aeronaves ainda não entregues superam em muito a operação atual da SpiceJet. O backlog é quase 12 vezes maior que as 11 aeronaves atualmente listadas como ativas em toda a frota da companhia. Ou seja, isso pode se transformar num problema para a fabricante norte-americana.

Frota MAX se dispersa

Várias das 13 aeronaves originais já deixaram a SpiceJet e retornaram aos arrendadores. VT-MXH, VT-MXJ e VT-MXX saíram em 2023, seguidos por VT-MXG e VT-MXK em 2024, e algumas já operam por outras empresas.

A SpiceJet também utilizou aeronaves 737 MAX fornecidas temporariamente por outras companhias. Aeronaves da Corendon Airlines e, mais recentemente, da Ascend Airways voaram para a companhia indiana sem que isso representasse entregas adicionais da Boeing em relação ao pedido pendente.