A Embraer aproveitará a presença de uma delegação brasileira na Índia durante a 18ª Cúpula do BRICS, que ocorre neste final de semana, para defender a proposta do C-390 Millennium na concorrência que escolherá o próximo avião de transporte médio da Força Aérea Indiana (IAF).

Executivos da fabricante deverão se reunir com representantes do governo indiano durante a visita, segundo o jornal Hindustan Times. A equipe da Embraer é liderada por José Serrador Neto, vice-presidente global de Relações Institucionais, e acompanha a delegação empresarial que viajou ao país com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.

A visita acontece pouco tempo depois de o Ministério da Defesa da Índia abrir formalmente a concorrência para até 60 aeronaves do programa Medium Transport Aircraft (MTA). Avaliada em cerca de 1 trilhão de rúpias, aproximadamente R$ 54 bilhões pela cotação atual, a compra está entre as maiores oportunidades abertas atualmente para o C-390.

A Embraer concorre em parceria com o grupo Mahindra, com o qual mantém um acordo para oferecer o C-390 e estabelecer sua produção na Índia caso o avião seja escolhido. A exigência de fabricação local tem peso relevante no programa: a previsão é que apenas os primeiros 12 exemplares sejam fornecidos diretamente pelo fabricante estrangeiro, enquanto os outros 48 deverão sair de uma linha instalada no país.

C-130J Hercules da Força Aérea Indiana (Alan Wilson)
C-130J Hercules da Força Aérea Indiana (Alan Wilson)

Disputa com C-130J

O principal adversário conhecido do C-390 é o Lockheed Martin C-130J Super Hercules. A fabricante norte-americana está associada à Tata Advanced Systems, que já participa da cadeia industrial do modelo e produz conjuntos de empenagem do C-130J em Hyderabad.

A Lockheed Martin também parte de uma posição conhecida pela IAF. A Índia já opera 12 C-130J, empregados principalmente em missões de transporte tático e apoio a forças especiais.

A concorrência, no entanto, estabelece uma capacidade de carga entre 18 e 30 toneladas. O C-390 pode transportar até 26 toneladas, enquanto a capacidade máxima do C-130J fica próxima do limite inferior estabelecido pela Índia, dependendo da configuração e das condições da missão.

O Airbus A400M chegou a ser apontado como o terceiro candidato ao programa durante as etapas preliminares, mas sua participação passou a ser considerada improvável após a definição dos requisitos da concorrência. O avião europeu pode transportar até 37 toneladas, acima da faixa estabelecida pela Força Aérea Indiana, além de pertencer a uma categoria de maior porte e custo.

A400M Atlas (RAF)
A400M Atlas (RAF)

O pedido de propostas foi enviado em agosto a cinco grupos indianos: Tata Advanced Systems, Mahindra, Adani Defence & Aerospace, Hindustan Aeronautics Limited (HAL) e Reliance Defence. Até agora, apenas Tata e Mahindra anunciaram os fabricantes estrangeiros com os quais pretendem concorrer. Os outros três grupos ainda não revelaram possíveis parceiros, o que impede considerar a disputa limitada oficialmente ao C-390 e ao C-130J.

Produção na Índia

A Embraer trabalha com a Mahindra na campanha indiana desde 2024, quando as empresas assinaram um memorando de entendimento após a IAF consultar o mercado sobre uma possível aquisição de 40, 60 ou 80 aviões. A parceria foi ampliada posteriormente para incluir uma proposta industrial voltada à fabricação do C-390 no país.

As duas empresas também anunciaram planos para desenvolver capacidade local de manutenção, reparo e revisão do C-390. A produção em território indiano é um dos principais requisitos do programa MTA e segue a política Make in India, que busca aumentar a participação da indústria nacional nas grandes compras de defesa.

Força Aérea Indiana An-32
Força Aérea Indiana An-32

Se confirmada a compra das 60 aeronaves previstas na concorrência, a Índia se tornaria de longe o maior cliente do C-390. Hoje, o programa soma 62 pedidos ou compromissos anunciados de 12 países, dos quais 19 são do Brasil. O maior contrato internacional é o dos Emirados Árabes Unidos, com 10 encomendas firmes e opções para outras 10 aeronaves.

A IAF pretende usar o novo avião para renovar parte de sua capacidade de transporte, hoje apoiada por uma combinação de modelos de diferentes categorias. Entre os mais antigos estão os Antonov An-32 de origem soviética, que ainda constituem uma parcela importante dos aviões de transporte médio do país.

Primeiro C295 da Força Aérea Indiana; entrega da aeronave é esperada para o segundo semestre (Airbus)
Primeiro C295 da Força Aérea Indiana; entrega da aeronave é esperada para o segundo semestre (Airbus)

E-Jets também na agenda

A viagem à Índia não se limita à campanha militar. Serrador também se reuniu nesta quinta-feira com o ministro da Aviação Civil, Ram Mohan Naidu, para discutir os planos da Embraer para ampliar sua presença industrial no mercado indiano.

Em janeiro, a fabricante brasileira assinou um memorando de entendimento com a Adani Defence & Aerospace para desenvolver um ecossistema de aviação regional no país. O acordo prevê a possibilidade de instalar na Índia uma linha de montagem final do E175 e ampliar a participação de fornecedores locais na cadeia dos E-Jets.

A Embraer enxerga a expansão da aviação regional indiana como uma segunda oportunidade de produção local, independente da parceria com a Mahindra no programa militar. A Índia é hoje um dos maiores mercados de aviação comercial do mundo, mas os jatos regionais ainda têm presença limitada nas frotas de suas principais companhias aéreas.