Pioneiro da era a jato, o Me 262 chegou tarde demais para mudar o curso da guerra (imagens de domínio público)

Em 1945 a Luftwaffe (força aérea da Alemanha) já não conseguia mais abater tantos bombardeiros durante as incursões que os Aliados efetuavam diariamente, cada vez mais próximos do coração da Alemanha e com crescente intensidade. No entanto, surgiu nessa época um impressionante caça birreator, o Messerchmitt Me 262, que inaugurou a era a jato nos campos de batalha.

Os pilotos de caça alemães que o pilotaram e os aliados que o enfrentaram viveram emocionantes aventuras para contar. Contudo, o avião chegou tarde demais para alterar o curso da guerra a favor da Alemanha nazista e, além disso, em quantidades poucos significativas.

Em abril de 1944, foram entregues 16 Me 262 e, em maio, apenas seis. Segundo relatos de pilotos do Erprobungs-kommcomando 262 (Ekdo 262), baseado em Lechfeld, na Baviera, o esquadrão experimental que testava o caça a jato, tratava-se de um avião extremamente difícil de pilotar. Levando ao máximo o manete de combustível, os primitivos turborreatores Jumo 004B-1 podiam superaquecer ou pegar fogo. Se os motores paravam à baixa altitude, a única salvação era pousar; recuperar o fôlego das turbinas exigiria muito tempo e, por isso, não havia outra saída.

Contudo, a outra face da moeda eram as suas performances extraordinárias para a época: velocidade máxima de 900 km/h a 6.100 metros de altitude e uma velocidade de subida de 1.200 m por minuto, qualidades que eram suficientes para vencer o P-51 Mustang com motor a pistão, então considerado o melhor caça dos Aliados.

Por insistência de Hitler, o Me 262 foi usado como bombardeiro, missão na qual ele não era eficaz

Como bombardeiro, o Me 262 não era verdadeiramente eficaz, embora Adolf Hitler tivesse ordenado que o avião fosse usado nessa função. A visibilidade do piloto para frente e para baixo era escassa e o aparelho atingia uma velocidade exagerada em mergulho, correndo o risco de quebrar as asas na rápida descida. Operando como caça ele era muito melhor, mas não possuía uma manobrabilidade comparável à dos aviões aliados.

Primeiras perdas

Logo que entrou em operação, o Ekdo 262 imediatamente sofreu uma série de perdas. Em uma delas, o comandante da unidade, o capitão Werner Thierfelder, teve seu avião abatido quando tentava interceptar um avião de reconhecimento inimigo e morreu. Todavia, as ordens de Hitler para que os Me 262 fossem usados como caça-bombardeiros estavam sendo cumpridas. Cada vez mais pilotos aliados se envolviam em combates com o novo avião alemão e, embora conseguissem derrubar alguns, lançaram o aviso de que seriam necessárias novas táticas para atacar esta ameaça.

Outra inovação importante do Me 262 eram as asas enflechadas

Quando o exército alemão foi expulso da França, em 1944, Hitler finalmente anulou à utilização do Me 262 como bombardeiro. Ekdo 262, agora chamado Kommando Nowotny (Comando Nowotny), tinha crescido e começava a posicionar-se ao norte e a oeste da linha de frente alemã.

Uma das quatro unidades do caça baseadas em Würzburg, na região central da Alemanha, teve um batismo de fogo desastroso e perdeu seis aviões na primeira missão, abatidos por Mustangs que escoltavam os bombardeiros aliados (ou talvez pela incapacidade dos pilotos em controlarem seus aviões), conseguindo danificar apenas um B-17.

Embora esse tipo de resultado fosse habitual na curta carreira do Me 262, também houve exceções: em fevereiro de 1945, o tenente Rudolph Rademacher abateu um Spitfire, um B-24 Liberator e cinco B-17 em apenas uma surtida. Com o passar do tempo, o objetivo dos pilotos do Me 262 passou a ser focado no abate de bombardeiros e não os caças de escolta.

O primeiro voo do Me 262 foi realizado em 18 de julho de 1942; um ano antes, o avião voou com motores a pistão

A velocidade do jato alemão permitia que ele furasse a cortina protetora de caças, destruísse um ou dois bombardeiros a tiros de canhão e se afastasse rapidamente antes que os Mustang pudessem reagir e atacá-lo.

Segundo registros históricos, os Me 262 derrubaram um total de 542 aeronaves dos Aliados, um número muito abaixo dos tradicionais caças alemães com motores a pistão, o Messerschmitt Bf 109 e o Focke-Wulf Fw 190.

Vulnerável na decolagem

A maior desvantagem do Me 262 era a necessidade de pistas pavimentadas para a decolagem. No entanto, o empuxo dos motores a jato incendiava o revestimento de asfalto dos aeródromos. Para contornar essa situação os alemães construíram pistas de concreto, que por sua vez eram bem visíveis nas fotografias tiradas por aviões de reconhecimento.

Oficiais americanos inspecionando o motor do Me 262; turborreator Jumo 004B-1 tinha uma vida útil de apenas 100 horas de voo

Aos poucos, cada destacamento do Me 262 foi ficando sob vigilância de uma patrulha de caças aliados, medida que se revelou muito eficaz e obrigou o jato alemão a ficar no chão. Quando por ventura eles tentavam decolar, eram facilmente destruídos na corrida de decolagem ou a poucos metros do solo.

Na tentativa de conseguir melhores resultados com o Me 262, a Luftwaffe formou um esquadrão composto somente por pilotos “ases” de guerra, mas estes também acharam a transição para o jato muito complicada. Habituados a rápida resposta dos motores a pistão, os aviadores alemães mais experientes achavam vergonhosa a lenta aceleração da aeronave.

Um Me 262 capturado pelos Aliados com a insígnia da força aérea dos EUA

Tarde demais

Até o começo de abril de 1945 (um mês antes da rendição alemã), foram construídos mais de 1.200 exemplares do Me 262, mas apenas 200 deles entraram em serviço. Cerca de cerca de 100 aparelhos eram utilizados em unidades de treinamento e os restante foi estocado em hangares ou depósitos provisórios onde aguardaram pelo final de uma guerra que não podiam vencer.

Após a Segunda Guerra Mundial, um pequeno número de aeronaves continuou em serviço com a força aérea da antiga Checoslováquia até 1951. O Me 262 também influenciou fortemente vários outros projetos de aviões militares, como o North American F-86 Sabre, MiG-15 e o bombardeiro B-47 Stratojet, além de abrir o caminho para a aviação comercial a jato.

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