Herói do voo VASP 375, o comandante Murilo morreu vítima de insuficiência respiratória

Faleceu nesta quarta-feira, 26 de agosto, aos 72 anos, o comandante Fernando Murilo de Lima e Silva, o herói que impediu a tragédia do voo VASP 375, sequestrado em 29 de setembro de 1988. Em post no Facebook, Ivan Sant’Anna, autor do livro “Caixa Preta” e amigo do experiente piloto, relatou que a causa da morte foi insuficiência respiratória, possivelmente por Covid-19.

Na época do incidente, o comandante Murilo foi condecorado com a Ordem do Mérito Aeronáutico, mas nunca recebeu um agradecimento oficial da presidência pelo seu ato heróico. Em 2001, 13 anos após o sequestro do Boeing 737-300 PP-SNT da Vasp, o aviador recebeu o troféu Destaque Aeronauta do Sindicato Nacional dos Aeronautas por sua contribuição em evitar o que poderia ter sido o maior desastre aéreo da história no Brasil.

Sequestro do VASP 375

Em 29 de setembro de 1988, o jato 737-300 operado pela Viação Aérea São Paulo (VASP) cumpria o voo VASP 375, uma rota doméstica que partiu do Aeroporto Internacional de Porto Velho (RO) com destino ao Galeão, no Rio de Janeiro, com quatro escalas em Cuiabá (MT), Brasília (DF), Goiânia (GO) e Belo Horizonte (MG).

Na última perna do viagem, o passageiro identificado como Raimundo Nonato Alves da Conceição, que embarcou na aeronave em Confins portando um revólver, anunciou o sequestro do voo e matou o copiloto da aeronave, Salvador Evangelista, com um tiro na cabeça após ele tentar alertar ao controle de tráfego aéreo sobre a situação que acontecia a bordo.

A exigência do sequestrador era que o avião fosse desviado para Brasília e arremessado contra o Palácio do Planalto, sede do gabinete do então presidente José Sarney. Mais tarde, Raimundo alegou que a motivação do crime era seu descontentamento com as políticas de Sarney, que ele considerava ser o culpado pela péssima fase econômica que o Brasil enfrentava na época.

Convencido pelo comandante Murilo, o sequestrador desistiu de derrubar o avião sobre a sede do governo, mas impediu o pouso do avião no aeroporto de Brasília. Raimundo decidiu então que a aeronave deveria seguir para São Paulo, mas foi alertado que não havia combustível suficiente para continuar o voo até o destino pretendido.

Boeing 737-300 da VASP semelhante ao modelo sequestrado em 1988 (Aero Icarus – Wikimedia Commons)

Com pouco combustível, um dos motores do 737 da VASP começou a falhar. Foi neste momento em que o comandante Murilo, já quase sem opções, decidiu realizar uma série de manobras acrobáticas nunca antes realizadas com um avião daquele porte repleto de passageiros no intuito de desequilibrar o sequestrador. A estratégia funcionou e Raimundo acabou caindo na cabine, embora tenha conseguido manter em punho seu revólver. No entanto, o piloto teve tempo suficiente para aterrissar o jato no aeroporto de Goiânia, onde o sequestro e as negociações continuaram por várias horas.

O sequestrador chegou a exigir um avião menor para fugir, mas, quando descia a escada do 737 usando o comandante Murilo como escudo, acabou sendo baleado três vezes pela equipe de elite da Polícia Federal. Raimundo morreu dias depois.

Se tivesse ocorrido nos anos 1990 ou 2000, o incidente do voo VASP 375 poderia ter originado uma série de medidas de proteção contra sequestradores e terroristas, como a introdução de portas blindadas na cabine de aviões comerciais, algo que ocorreu somente após o atentado terrorista contra o World Trade Center, em Nova York, no fatídico dia 11 de setembro de 2001.

Veja mais: Fokker já tentou converter jato regional para pousar em porta-aviões