Na contramão do mercado, Rússia investe em jato quadrimotor de passageiros

Il-96-400M, versão atualizada e maior do antigo widebody Il-96, está sendo fabricada no país e deve voar em 2021
Projeção do Il-96-400M: iniciativa isolada da Rússia (UAC)
Projeção do Il-96-400M: iniciativa isolada da Rússia (UAC)

A indústria aeronáutica já compreendeu que os jatos bimotores de passageiros são incomparavelmente mais econômicos que aviões com três ou quatro motores. O fracasso das vendas do A380 e o desaparecimento dos clientes do Boeing 747 e do A340 confirmam esse fato.

Mas há quem ainda acredite em uma aeronave civil com quatro motores, a russa UAC. O conglomerado que reúne as principais fabricantes de aviões do país tem investido no projeto de modernização do Ilyushin Il-96 (por sua vez um derivado do Il-86, avião lançado ainda na época da União Soviética) e que teve cerca de 30 exemplares produzidos.

Sob a designação Il-96-400M, o quadrirreator cresceu graças ao acréscimo de 8,6 metros de fuselagem e será capaz de transportar até 402 passageiros em classe única. Um protótipo do jato está sendo montado na VASO (Voronezh Aircraft Production Association), uma divisão da UAC que hoje é responsável também pelo desenvolvimento do turboélice Il-112V.

De acordo com a VASO, o Il-96-400M deverá ser concluído no ano que vem quando será transferido para a Ilyushin que fará os testes com o protótipo em voo a partir de 2021. Por enquanto, o governo russo está bancando a construção de seis unidades, mas não se sabe ainda de que forma ele será comercializado – normalmente, as companhias aéreas russas são “convencidas” a encomendar esses modelos caseiros, como ocorreu o Sukhoi SSJ100, por exemplo.

Para economizar recursos, a VASO está utilizando a fuselagem do Il-96-400T, uma variante de carga com 64 metros de comprimento e que não foi muito longe. Projeções da cabine do avião mostram que o foco será no conforto dos passageiros com telas individuais nos assentos, wi-fi a bordo e outras amenidades já comuns em aeronaves ocidentais.

Pouco eficiente

A decisão da Rússia em investir em um widebody quadrimotor soa como contrassenso, ainda mais que o Il-96-400M utilizará os motores PS-90A1, de concepção antiga e alto consumo de combustível.

Para se ter uma ideia da ineficiência do jato russo, ele tem alcance de 10.000 km e transporta 150.000 litros de querosene. Já o bimotor A330-900neo, da Airbus, que possui capacidade semelhante de passageiros, é capaz de voar mais longe – 13.400 km – e com 10.000 litros a menos de combustível.

A única explicação razoável para lançar o Il-96-400M é manter ativa a produção do único widebody russo enquanto o projeto do CR929, uma parceria com os chineses, não vire realidade, o que deve levar ainda muito tempo. Para bancar o custo de operação do Il-96-400M, no entanto, seus possíveis clientes certamente necessitarão de uma bela ajuda governamental.

Fuselagem do primeiro Il-96-400M: ineficiente (UAC)

Veja também: Ex-rota comunista terá voos com o Airbus A350

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Antonio Lopes
Antonio Lopes
2 anos atrás

Como todos os países independentes seus governos bancam esse tipo de projeto mesmo que não seja lucrativo,vide o exemplo do álcool de milho nos EUA totalmente subsidiado e ineficiente para os padrões econômicos atuais.Agora existem outros governos que se desfazem e vendem suas empresas de aeronáutica para os concorrentes matando o desenvolvimento tecnológico.

Joao Almeida
Joao Almeida
2 anos atrás

Economia real versus economia ideologica estatal, isto e, mais um fiasco

Dario Lemos
Dario Lemos
2 anos atrás

Começando pelo governo canadense que permitiu a compra da divisão de jatos comerciais da Bombardier pela Airbus e teve, como efeito dominó, a necessidade da associação (fusão ou compra : escolha o que melhor lhe convier, Antônio) da Embraer com a Boeing. Procure verificar as vendas do antigo CS series com o E2 e verá como o modelo canadense está dando um “banho” em vendas em relação ao modelo brasileiro. E mais, somente na visão curta de certas pessoas uma negociação dessas significa “matar o desenvolvimento tecnológico”.

Joaquim Paulino Leite Neto

Russos fazendo um puxadinho na aviação. É como reinventar a roda, avião que morrerá assim que nascer, não existe mais espaço para aeronaves que não economizem combustível. A empresa russa que empregar o avião irá falir em pouquíssimo tempo, não tem como concorrer com jatos da Airbus e Boeing.

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