O avião gigante de Hitler

Maior aeronave desenvolvida durante a Segunda Guerra Mundial, hidroavião BV 238 foi destruído pelos Aliados antes de entrar em operação
O primeiro voo do BV 238 foi realizado em abril de 1944, a partir do rio Elba, em Hamburgo
O primeiro voo do BV 238 foi realizado em abril de 1944, a partir do rio Elba, em Hamburgo

A indústria da Alemanha nazista construiu alguns dos aviões mais incríveis do passado. Entre caças extremamente ameaçadores com tecnologias pioneiras a formidáveis aeronaves de transporte, os alemães também desenvolveram o maior avião do mundo durante o período da Segunda Guerra Mundial, o magnífico hidroavião com seis motores Blohm & Voss BV 238.

A enorme aeronave foi projetada para acompanhar os planos expansionistas da Alemanha de Adolf Hitler, que naquela época planejava a conquista de territórios por todo o planeta e a criação de uma rede colonial, inclusive com presença na América do Sul. Para efetuar a invasão dessas novas terras e posteriormente abastecê-las, era necessário um transporte ágil de grande capacidade e longo alcance, algo que nos anos da guerra só poderia ser feito pelos “Flugboots” (“barcos voadores”, em alemão).

O principal fabricante de hidroaviões da Alemanha durante o conflito era a Blohm & Voss, empresa fundada no final do século XIX e especializada na construção de navios, atividade que mantém até os tempos atuais. Combinando a experiência naval com novos conhecimentos aeronáuticos, a BV produziu “barcos voadores” de diferentes portes, como o BV 138 e o BV 222, modelo que serviu de base para o projeto do BV 238.

O desenvolvimento do BV 238 foi iniciado em 1941, logo após o BV 222, então o maior avião em serviço na Alemanha, entrar em operação. A aeronave de porte ampliado surgiu por sugestão de seu projetista, o engenheiro alemão Richard Vogt, que na época trabalhava no desenvolvimento de um hidroavião maior ainda, o BV P200, de transporte comercial, mas que não saiu do papel.

O hidroavião de patrulha BV 222 serviu de base para o projeto do BV 238 (Domínio Publico)
O hidroavião de patrulha BV 222 serviu de base para o projeto do BV 238 (Domínio Publico)

Aproveitando partes do BV 222 e novas ideias criadas a partir do BV P200, Vogt projetou um hidroavião multi-tarefa. Além da pretendida função de transportador pesado de longo alcance, o aparelho também deveria servir para atacar embarcações, realizar patrulhas marítimas e desembarque anfíbio de tropas e veículos de combate.

Monstro marinho

O primeiro protótipo do hidroavião gigante ficou pronto no início de 1944 e o voo inaugural foi realizado em abril daquele ano. O mundo nunca havia visto uma máquina voadora tão grande e pesada: o novo Flugboot nazista media 43,3 metros de comprimento e tinha uma envergadura de 60,1 m. Já o peso máximo de decolagem foi estimado em até 100.000 kg – vazio, o BV 238 pesava 54.780 kg.

Os seis motores, fornecidos pela Daimler-Benz, eram enormes blocos V12 de 42,5 litros de deslocamento, cada um capaz de gerar 1.900 cavalos de potência. O conjunto era suficiente para levar a aeronave a velocidade máxima de 425 km/h e atingir a autonomia de 6.000 km, o suficiente para atravessar o Oceano Atlântico, o que não era nada mau para um avião de 100 toneladas projetado nos anos 1940.

As armas do BV 238 também assustavam, seguindo o melhor estilo “fortaleza voadora”. O hidroavião contava com 20 torres com metralhadoras e mais dois canhões para auto-defesa. As asas do avião eram tão grandes e grossas, que contavam com porões para armamentos. Ao todo, o avião podia transportar 20 bombas de 250 kg nos compartimentos internos ou então engenhos maiores, como bombas de 1.000 kg ou torpedos, em cabides externos. Outra possibilidade era a capacidade de lançar a “bomba-planadora” BV 143 ou o rudimentar Hensche HS 293, um dos primeiros mísseis com orientação desenvolvidos no mundo, guiado por sinais de rádio.

Avião de fuga

A base de testes do BV 238 era o rio Elba, em Hamburgo, na mesma região onde hoje existe uma fábrica da Airbus, inclusive responsável por construir componentes do A380, o maior avião de passageiros da atualidade. Foi de lá que o enorme hidroavião alemão realizou 38 voos de teste bem sucedidos, todos comandados pelo capitão Helmut Rodig, piloto de ensaio da Luftwaffe, a força aérea da Alemanha.

Enquanto o primeiro protótipo era testado, a Blohm & Voss trabalhava na construção de outras duas unidades do BV 238, que nunca seriam finalizadas. A guerra da Europa caminhava para seus últimos capítulos e a Alemanha enfrentava larga desvantagem. A zona industrial de Hamburgo, não por acaso, era um dos principais alvos dos bombardeiros aliados, o que forçou a fabricante a “esconder” o hidroavião no lago Schaalsee, a cerca de 80 km do rio Elba, em agosto de 1944.

Perto do final da Segunda Guerra Mundial, houve rumores de que importantes nomes do partido nazista, incluindo o próprio Hitler, planejavam fugir da Alemanha, fosse em submarinos ou usando aviões de longo alcance. O BV 238, embora ainda não fosse declarado operacional, poderia servir como um meio de fuga para pontos distantes do território alemão.

No final de abril de 1945, já com a Alemanha praticamente rendida, o BV 238 foi encontrado em seu esconderijo no lago Schaalsee por esquadrilhas da RAF, a força aérea britânica. A posição do gigante foi reportada e logo em seguida aeronaves britânicas de ataque retornaram ao ponto e atacaram o então maior avião do mundo com rajadas de metralhadoras.

A aeronave destruída, com a fuselagem rachada ao meio, permaneceu no mesmo lugar até meados de 1948, quando finalmente foi desmontada e seu alumínio reciclado e comercializado.

O BV 238 foi atacado e destruído por aviões britânicos no lago Schaalsee, na região de Hamburgo
O BV 238 foi atacado e destruído por aviões britânicos no lago Schaalsee, na região de Hamburgo

Nenhum vestígio do BV 238 foi preservado, ao contrário da experiência de seu projetista. Com o final da guerra, Richard Vogt, assim como muitos outros engenheiros alemães, se mudou para os Estados Unidos, onde trabalhou em diversos projetos aeronáuticos, militares e civis.

A última contribuição de Vogt, então um dos maiores especialistas do mundo em aeronaves de grande porte, foi no projeto do Boeing 747, lançado em 1969 e até hoje um dos maiores aviões do mundo.

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  1. Nós não podemos postar nada sobre o hitler que é sempre considerado nazismo e é excluido das redes sociais mas a midia vive falando dele !

  2. Como pode um país praticamente sózinho brigando com o mundo “todo” e desenvolvendo tanta tecnologia. Chega a assustar o desenvolvimento tecnologico alemao durante a 2a. guerra.

  3. Excelente reportagem, não conhecia este avião, foi uma bela surpresa, continue postando mais!

  4. Marcos, não tem como negar as grandes tecnologias e inovações da Alemanha. O problema estava na politica empregando mal a ciência

  5. Ernesto, basta examinar Israel, e verá que onde tem um povo trabalhador culto e civilizado tudo pode se conseguir. Infelizmente Hitler conseguiu alcançar essa posição de “líder supremo” devido aos bancários daquela época pensando que poderiam controla-lo e colocando-o para enfrentar os bolchevistas e comunistas -que eram tão vagabundos quanto ele- Lenin, Marx, Trotsky, etc. Cada um desses acreditando que eram uma dadiva dos deuses como presentes e regalos aos reles terráqueos. E deu na merda que deu. Entre a China, URSS, Coreia, Vietnam, países do Leste da Europa, Cuba, etc. mataram mais de 100 MILHOES de pessoas, para satisfazer o ego dos seus “lideres” megalomaníacos.

  6. Pare com essa mentira de “conquistar o mundo”. Quem dominava o mundo na época era o “Império onde o sol nunca se põe”, como os britânicos chamavam o seu Império, e foi sucedido pelo povo que se diz escolhido (destino manifesto) para comandar o mundo. Eram os únicos que alguma vez, depois do Império Romano, pretenderam “dominar o mundo”…

  7. Até pouco tempo atrás, ainda era disponível no mercado mundial de miniaturas, um outro avião nazista, equipado com 8 motores BMW, cujo objetivo era bombardear Nova Iorque.

  8. A ALEMANHA NAZISTA NÃO CONQUISTAVA E SIM URSUPAVA OS BENS E A VIDA DOS SEUS SEMELHANTES SE ACHAVAM TÃO INTELECTUAIS MAS NO ENTANTO FIZERAM UMA BURRADA, PRIMEIRO MASSACRANDO VIDAS INOCENTES CRUELMENTE E CONFISCANDO O QUE ERA DOS OUTROS E A OUTRA FOI CONFRONTAR A RUSSIA, SE É PRA CONQUISTAR O MUNDO QUE SEJA POR MEIOS LEGAIS E COMERCIAIS E NÃO MATANDO E ROUBANDO COMO FIZERAM..

  9. Puta ladainha esse papo de Hitler querer dominar o mundo. Pura propaganda pós guerra dos Aliados.

    Olhem a europa e o mundo como estão hoje! Tudo virou um caos. Pessoas morrendo e sendo escravizadas por Juros e creditos.

  10. Estive várias vezes na Alemanha e visitei museus onde pude verificar equipamentos usados na 2.a guerra mundial. Um dos museus ficaem Munich (museu industrial de Munich) onde está exposto um avião Juncker de 1920 usado por Hitler durante seus comícios. Vale apena ver

  11. Estive várias vezes na Alemanha e visitei museus onde pude verificar equipamentos usados na 2.a guerra mundial. Um dos museus fica em Munich (museu industrial de Munich) onde está exposto um avião Juncker de 1920 usado por Hitler durante seus comícios. Vale apena ver

  12. S. Levy, como alguém consegue dizer tantas asneiras??!!!
    Em primeiro lugar, a única semelhança entre o BV 238 e o Sunderland é que eram hidroaviões. De resto, o BV era muito maior. Era descendente do BV 222.
    Em segundo lugar, vai estudar e aprender a diferença entre “bancário” e “banqueiro”!!!

  13. Boa Noite a todos a comentaristas: sou colecionador de aviões de guerra e possuo um exemplar desse avião em minha coleção o BLOHN & VOSS BU 222 v 2. Devo informa-los que a réplica que possuo é perfeita de altíssimo grau de originalidade. Esses aviões serviam para abastecer as flotilhas de submarinos do III Reich não só de suprimentos como também de combustíveis. em alto mar em diversas locais onde houvesse necessidades para tal

    Agradeço a atenção de todos

    JOÃO LOURENÇO DA SILVA NETTO

  14. Hitler com mania de metálico..pensou em dominar o mundo.. quase consegui..a nova atômica estava quase pronta.

  15. Incrível, o tempo passa e a cada pouco se descobre uma nova obra do engenho alemão e suas criações para o esforço de guerra. Os cientista e engenheiros germânicos sempre pontearam a tecnologia da época, pena que tanto conhecimento e criatividade foi mal direcionado pelos governantes daquele tempo. É de se pensar o que poderia ter sido construído e disponibilizado ao mundo se toda essa genialidade tivesse sido direcionada para fins pacíficos.

  16. Assim como hoje a Coreia do Norte, país miserável, no qual a população vive em desgraça, consegue financiar projetos militares caríssimos, a Alemanha de Hitler, em nome de uma pretensa hegemonia mundial, investia tudo o que o Estado conseguia roubar de outros povos, em seu delírio de poder, logo, nada mais normal que os grandes avanços em tecnologia militar conseguidos pela mesma. É fazendo que se aprende a fazer e em qualquer país havendo investimento na formação da mão de obra especializada, consegue-se construir qualquer coisa que atenda aos interesse de uma nação. Tais fatos só espantam brasileiro, povo que nunca produziu sequer um estadista, logo, jamais teve investimento nas áreas que fazem qualquer país desenvolver tecnologia de ponta !

  17. Depois da guerra, infelizmente os cérebros foram “intimados” a passar seus conhecimentos para os E.U.A. e U.S. . Alemanha como país militar e soberano simplesmente morreu.

  18. Impressionante o nível tecnológico avançadíssimo que a Alemanha alcançou na época da 2ª guerra (…e sozinhos..), se o Hitler tivesse cabeça, hoje dominariam o mundo sem precisar usar força, haja visto seus principais cientistas terem sido levados parte p/os EUAs e parte p/Russia..

  19. Impressionante o nível tecnológico avançadíssimo que a Alemanha alcançou na época da 2ª guerra (…e sozinhos..), se o Hitler tivesse cabeça, dominariam o mundo sem precisar usar força, haja visto seus principais cientistas terem sido levados parte p/os EUAs e parte p/Russia..

  20. Bom a Alemanha antes da primeira guerra era um dos países ou até mais desenvolvido do mundo, pensadores, médico, cientistas, filósofos, era o mundo correndo atrás da Alemanha.

  21. MOISES GALLO BAROUH – POR INCRIVEL QUE PARECA, AQUELE POVO INOCENTE QUE FOI “MASSACRADO” NA GUERRA TOMOU PRA SI O PÉSSIMO EXEMPLO E ATRAVÉS DE “OUTROS MEIOS” SE APROPRIOU NAO DE BENS, MAS DE TERRITÓRIOS INTEIROS DE OUTROS POVOS COMO SE FOSSEM DELES POR CONTA DE UMA “PROMESSA DIVINA”. COM ISSO PERDERAM A MORAL PERANTE O MUNDO PARA CRITICAR.

  22. Existe uma série, com imagens originais, chamada “Asas da luftwaffe” que conta a história de vários modelos de aviões desenvolvidos pela Alemanha durante a segunda guerra mundial. É muito interessante e curiosa. Os episódios que assisti estavam em espanhol. Acho que devem estar disponíveis no Youtube mas não tenho como verificar agora.

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