A Lufthansa foi o maior operador do A340, com mais de 20 aeronaves em quase 30 anos (Konstantin Von Wedelstaedt – Wikimedia Commons)

Tão importante e hoje quase esquecido. O A340, o primeiro jato comercial quadrimotor da Airbus, está virando uma ave rara. Representante de um segmento da aviação comercial cada vez mais fora de uso, o jato europeu ficou ainda mais apagado com a baixa de demanda de voos durante a pandemia do novo coronavírus.

Os números sobre quantas unidades permanecem em serviço podem variar. Até maio, a Airbus informou que existem 228 modelos A340 “em frota”. São unidades ativas e estocadas, que até certo ponto, ainda recebem assistência e são monitoradas pela fabricante. Nos registros do site Planespotters, 64 jatos estão listados como “ativos” em frotas de 23 empresas aéreas e 11 governos.

Os A340 foram muito utilizados no início da pandemia em voos de repatriação de estrangeiros na China, onde começou a disseminação do vírus da COVID-19. O longo alcance da aeronave – até 16.670 com o A340-500 – permitiu voar sem escalas (ou com poucas paradas) de diferentes partes do mundo até o foco do surto e retornar rapidamente. Com a emergência controlada em países da Ásia e Europa, esses fretamentos diminuíram. Em outra ponta, jatos com interior adaptado também foram escalados para voos de carga e atender a alta demanda de transporte aéreo de suprimento médicos durante a pandemia.

Fora dos grandes centros, jatos A340 solitários vêm operando com baixa frequência, mas mantendo o perfil de voos longos característico do quadrimotor europeu. Na Venezuela, a Conviasa opera um A340-200 da primeira “fornada” produzida pela Airbus, com 27 anos de uso. No Irã, duas empresas empresas, Iran Aseman e Mahan Airlines, voam outros seis aparelhos veteranos, os mais antigos do mundo, com voos quase diários para destinos no leste europeu, Ásia e Oriente Médio.

O único A340-200 da Conviasa; o destino mais frequentado pela aeronave é Teerã (Alex Barbosa)

Berço do A340, o mercado europeu hoje tem poucos aparelhos em serviço. Antes o maior operador da aeronave, com mais de 20 exemplares, a Lufthansa agora tem apenas três aparelhos voando. A Iberia, outros importante cliente do quadrimotor, possui apenas um modelo disponível e logo deve desativá-lo. Outras empresas da velho continente, Air Belgium e Swiss têm cada uma quatro modelos ativos em rotas internacionais, incluindo destinos na América do Sul (no Equador, Peru e Suriname em voos da Air Belgium).

No Brasil, o quadrimotor da Airbus é agora é visto em raras oportunidades. Recentemente, um modelo A340-300 da Kam Air, do Afeganistão, passou pelos aeroportos de Cabo Frio (RJ) e Viracopos/Campinas (SP) trazendo suprimentos médicos para o combate ao coronavírus. No passado, dois modelos A340-500 tiveram uma passagem breve pela TAM, único cliente da aeronave no Brasil. As aeronaves foram usadas pela empresa entre 2007 e 2011.

O primeiro “Jumbo” da Airbus

A década de 1990 foi um período decisivo na história da Airbus. O grupo europeu começava a colher os rendimentos do A320, introduzido em voos comerciais em 1988 e que rapidamente se tornou um dos aviões mais pedidos pelas companhias aéreas e entrando na disputa contra o Boeing 737

Enquanto marcava território na categoria dos narrowbodies (jatos de um corredor), a fabricante europeia propôs uma alternativa ao Boeing 747. No início dos anos 1990, o preço mais baixo dos combustíveis ainda justificava a operação de widebodies (dois corredores) quadrimotores de longo alcance e grande capacidade e o modelo americano era a única opção.

Mais de 300 passageiros: nos bons tempos, os A340 realizaram alguns dos voos mais longos do mundo (Konstantin Von Wedelstaedt – Wikimedia Commons)

A primeira resposta dos europeus – depois viria o A380 – para tomar pedidos do clássico Jumbo foi o A340. O modelo quadrimotor começou a ser projetado pela Airbus em 1987 e quatro anos depois o avião já estava pronto para voar. O primeiro a decolar foi o A340-200, em 25 de novembro de 1991 e certificado em 1993.

O projeto ainda teve as versões A340-300 (lançado em 1993), A340-500 (2002) e o A340-600 (2006), um dos maiores aviões do mundo com mais de 75 metros de comprimento. Deve-se lembrar também que o programa de widebodies da Airbus deu origem ao bimotor A330, disponível a partir de 1994.

O A340 foi bem recebido pelas companhias e a Airbus logo garantiu importantes encomendas de grande empresas da Europa. O avião até certo ponto comparável ao 747, com capacidade de passageiros que pode variar de 260 e 380 passageiros em layouts com três classes – ou máximo de até 440 passageiros. Ao mesmo tempo, corria o projeto do A380, que decolou em 2005.

A categoria dos quadrimotores parecia promissora e os europeus alimentavam a esperança de oferecer os substitutos definitivos para os antigos Boeing 747. As coisas andavam bem até 2008, quando estourou a crise econômica mundial e os preços dos combustíveis dispararam. Mesmo com as reduções nos valores realizadas desde então, criou-se um novo patamar que inviável para a operação a aeronave com quatro motores. Como alternativa, o bimotores evoluíram e estão assumindo a vaga do velho Jumbo e os quadrimotores da Airbus, aviões ainda considerados novos.

A Airbus produziu a série A340 entre 1991 e 2011 e entregou 380 aeronaves, um volume baixo comparado aos mais de 1.500 jatos 747 produzidos pela Boeing desde 1968. A seu favor, o quadrimotor europeu nunca registrou um acidente fatal.

Baixo potencial no ramo de carga

Projetado especificamente para o transporte de passageiros, o A340 é um avião pouco indicado para ser convertido em cargueiro, mesmo na versão “gigante” -600. Existem projetos de modificar o jato, como as propostas da Lcf Conversions, de Malta, e Bedek Aviation, de Israel, mas nenhum aparelho foi convertido. Na configuração “Freighter”, a aeronave teria capacidade para transportar até 90 toneladas de carga. É pouco para um quadrimotor: o 747-8F cargueiro leva quase 140 toneladas. Portanto, o modelo europeu dificilmente deve ganhar sobrevida no mercado de cargas.

A empresa iraniana Mahan Air agora é um dos maiores operadores do A340, com cinco aparelhos (Papas Dos – Wikimedia Commons)

Passada a pandemia do coronavírus, a retomada dos A340 estocados que resistirem a crise vai depender do “novo normal” da aviação comercial, o que pode reduzir ainda mais o espaço dos dispendiosos quadrimotores. O primeiro avião comercial da Airbus com quatro motores ainda tem fôlego para continuar voando por mais 20 ou 30 anos – os últimos aparelhos foram entregues em 2012, mas são caros de manter.

Cada vez mais raros nos aeroportos, o A340 foi um projeto importante para a Airbus e abriu o caminho para o programa A380. Não fossem as mudanças bruscas na economia nos últimos anos, os jatos europeus poderiam ter assumido maior protagonismo no mercado. Por outro lado, a obsolescência dos quadrirreatores forçou a indústria a criar uma nova geração de bimotores mais eficientes de longo alcance e com maior capacidade. Perdemos os clássicos, mas ganhamos em eficiência.

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