O programa do “carro voador” da Eve deve atingir uma etapa importante em dezembro, quando a empresa espera concluir o primeiro protótipo representativo da configuração definitiva do Eve-100, modelo que pretende certificar em 2028.
A previsão foi revelada por Johann Bordais, CEO da subsidiária da Embraer, em entrevista ao jornal Valor Econômico. Segundo o executivo, essa aeronave servirá de base para a construção de seis unidades que serão utilizadas na campanha de certificação a partir de 2027.
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A diferença é importante em relação ao protótipo atualmente em testes. A Eve já colocou no ar um demonstrador em escala real e recentemente realizou seu primeiro voo de transição, mas essa aeronave não tripulada ainda é utilizada para desenvolver e validar a arquitetura do eVTOL.
Até o final deste ano, a empresa pretende realizar uma transição completa, passando do voo sustentado pelos propulsores verticais para o voo convencional, no qual as asas fornecem a sustentação e os motores destinados ao voo horizontal assumem a propulsão.
É uma das etapas mais importantes do desenvolvimento de um eVTOL. Diferentemente de um helicóptero, o projeto da Eve utiliza oito hélices exclusivamente para decolagem e pouso vertical e motores elétricos separados para o deslocamento horizontal. Após a transição, os rotores verticais deixam de fornecer sustentação.

Dois pedidos já são firmes
Bordais também esclareceu uma diferença importante dentro da enorme carteira comercial anunciada pela Eve.
A empresa costuma citar cerca de 2.700 aeronaves incluídas em sua carteira, distribuídas entre 28 clientes em dez países. A maior parte, porém, corresponde a cartas de intenção e outros compromissos preliminares, e não a encomendas firmes comparáveis às registradas por fabricantes tradicionais de aviões.
Esse quadro começou a mudar. Segundo Bordais, a Eve já possui dois pedidos firmes. Um deles é da Revo, empresa brasileira que atualmente oferece transporte por helicópteros em São Paulo. O outro foi fechado com a japonesa AirX, especializada em serviços de helicópteros e mobilidade aérea.
A conversão das intenções em contratos é uma etapa importante para o programa à medida que o Eve-100 se aproxima da configuração definitiva. O número de potenciais clientes continua sendo relevante para medir o interesse comercial, mas pedidos firmes oferecem uma indicação mais concreta de quais operadores estão efetivamente dispostos a receber as primeiras aeronaves.

Certificação é prevista para 2028
O avanço ocorre depois de o cronograma do Eve-100 ter se mostrado consideravelmente mais longo que o imaginado nos primeiros anos do projeto.
A Eve já adiou duas vezes sua previsão de certificação. A expectativa atual é concluir o processo em 2028, tendo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) como autoridade primária.
A certificação brasileira deverá posteriormente ser validada por outras autoridades. Bordais destacou ao Valor a relação entre Anac e a Federal Aviation Administration (FAA), dos Estados Unidos, um dos mercados mais importantes para o futuro eVTOL.
O prolongamento do desenvolvimento não é uma particularidade da Eve. A primeira onda de projetos de eVTOL foi acompanhada por previsões extremamente otimistas sobre a velocidade com que essas aeronaves poderiam ser desenvolvidas, certificadas e colocadas em serviço comercial.
Na prática, transformar os chamados “carros voadores” em aeronaves comerciais mostrou-se muito mais complexo.
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Além de demonstrar que a aeronave consegue voar, os fabricantes precisam comprovar níveis de segurança compatíveis com o transporte comercial de passageiros, certificar novos sistemas de propulsão elétrica e baterias, demonstrar tolerância a falhas e criar procedimentos de manutenção e operação para uma categoria de aeronave praticamente inexistente até poucos anos atrás.
A própria infraestrutura necessária para operar grandes frotas de eVTOLs também avança em ritmo diferente daquele sugerido pelas projeções iniciais do setor.

Eve diz ter dinheiro para chegar à certificação
Outro ponto abordado por Bordais é justamente uma das dificuldades dessa longa fase de desenvolvimento: financiá-la antes que a venda de aeronaves comece a gerar receitas relevantes.
O CEO afirmou ao Valor que a Eve possui caixa suficiente para levar o Eve-100 até a certificação prevista para 2028 e que não vê necessidade de uma nova captação no curto ou médio prazo.
A empresa espera consumir entre US$ 225 milhões e US$ 275 milhões em caixa durante 2026. Medidas de redução de despesas e ganhos de eficiência devem fazer com que o resultado fique mais próximo do limite inferior dessa faixa, segundo Bordais.
A relação com a Embraer também diferencia a Eve de empresas que precisaram construir praticamente do zero suas estruturas de engenharia, testes e industrialização. A fabricante brasileira participa do desenvolvimento do Eve-100 e deverá ter papel relevante na passagem do projeto para produção seriada.
Essa produção está prevista para ocorrer em Taubaté, no interior de São Paulo. A futura fábrica foi planejada para atingir capacidade de até 480 aeronaves por ano.
Antes disso, porém, o programa precisa atravessar sua etapa mais importante até agora. Com o protótipo de configuração definitiva previsto para dezembro e seis aeronaves de certificação a caminho a partir de 2027, os próximos dois anos deverão mostrar se o cronograma de 2028 conseguirá finalmente colocar o “carro voador” da Eve em condições de entrar no mercado.



