A China está gradualmente estudando materiais e componentes para substituir itens de origem ocidental utilizados no jato comercial COMAC C919, numa tentativa de reduzir a dependência do programa de aeronaves em relação a fornecedores estrangeiros.

A iniciativa vai muito além da dependência mais visível do C919 em motores e aviônicos ocidentais. Empresas e institutos de pesquisa chineses desenvolvem alternativas nacionais para produtos que vão desde selantes e borrachas até tintas, fixadores e materiais de limpeza usados na fabricação de aeronaves.

Siga AIRWAY: WhatsApp | Instagram | LinkedIn | Twitter | Facebook

Os detalhes vieram à tona durante um fórum da indústria aeronáutica realizado em Guangzhou, no início deste mês, o mesmo evento em que companhias aéreas chinesas discutiram o aumento da demanda pelo C919 e as dificuldades da COMAC para ampliar a produção.

Segundo o South China Morning Post, Zhang Xiaoyan, engenheira-chefe do Instituto de Materiais Aeronáuticos de Pequim, afirmou que alguns materiais desenvolvidos localmente já estão em teste no C919, enquanto outros passam por avaliação da COMAC.

Fábrica da COMAC que será ampliada para produzir mais C919
Fábrica da COMAC que será ampliada para produzir mais C919

Um exemplo é o HM1176, selante desenvolvido na China que vem sendo utilizado no programa C919 e no motor CJ-1000, também nacional, desde 2025.

A natureza aparentemente trivial de alguns desses componentes ilustra o tamanho do desafio enfrentado pela China. Construir uma indústria aeronáutica comercial autônoma exige muito mais do que substituir alguns grandes sistemas importados.

Tecnologia ocidental em todo o C919

Apesar de ser promovido como o primeiro jato comercial de corredor único desenvolvido na China, o C919 foi projetado com uma cadeia global de suprimentos que inclui um número significativo de sistemas ocidentais.

Os motores LEAP-1C da CFM International são o exemplo mais evidente, mas empresas como Honeywell, Collins Aerospace, Parker Aerospace, Eaton, Thales, Liebherr, Safran e Moog também fornecem sistemas e componentes para a aeronave.

Muitos desses produtos estão profundamente integrados ao C919 e não podem ser simplesmente trocados sem trabalho de engenharia, testes e certificação.

Por isso, a China não busca uma substituição imediata e total dos equipamentos ocidentais. O esforço atual visa criar alternativas nacionais qualificadas que possam ser gradualmente disponibilizadas à COMAC.

China Eastern COMAC C919
China Eastern COMAC C919 | AkzoNobel

Zhang reconheceu que a China ainda depende de um grupo relativamente pequeno de fornecedores dos Estados Unidos e da Europa para alguns materiais aeroespaciais avançados.

A dimensão geopolítica é difícil de ignorar. Restrições impostas pelos Estados Unidos à exportação de tecnologia aeronáutica já expuseram a dependência dos programas chineses de aviação comercial em relação a equipamentos estrangeiros. Desenvolver fornecedores alternativos dá à COMAC maior controle sobre sua cadeia de produção e reduz o impacto potencial de futuras restrições de exportação.

O mesmo objetivo aparece na área de propulsão. A China desenvolve o AECC CJ-1000A como alternativa nacional ao LEAP-1C, embora o motor chinês ainda esteja em desenvolvimento e o C919 continue utilizando unidades da CFM.

Prioridade da indústria chinesa: o motor CJ-1000A é projetado para equipar o jato comercial C919 da Comac (Divulgação)
Prioridade da indústria chinesa: o motor CJ-1000A é projetado para equipar o jato comercial C919 da Comac (Divulgação)

Reduzir dependência sem comprometer a certificação europeia

A substituição de componentes em uma aeronave comercial certificada apresenta outro desafio: toda alteração significativa pode afetar a configuração aprovada.

A estratégia chinesa, portanto, parece ser evolutiva, e não uma tentativa de redesenhar o C919 de uma só vez com sistemas nacionais.

Zhang afirmou que o desenvolvimento de alternativas chinesas não deve interferir no esforço da COMAC para obter a certificação europeia do C919, processo que segue em andamento junto à AESA, a Agência de Segurança da Aviação da União Europeia.

O movimento de nacionalização ocorre também em meio à pressão para acelerar as entregas do C919. Companhias aéreas chinesas já acumularam grandes encomendas do jato, enquanto outras manifestaram publicamente interesse em adquiri-lo.

A produção, no entanto, segue muito abaixo dos níveis alcançados por Airbus e Boeing. Restrições na cadeia de suprimentos estão entre os desafios que a COMAC precisa superar caso queira ampliar significativamente sua capacidade de entrega.