Cobaias aéreas

Apesar da comoção gerada, incidentes como o que ocorreu com o KC-390, da Embraer, são parte da realidade dos testes em voo de uma nova aeronave
Uma série de componentes importantes do KC-390 são produzidos em Portugal (FAB)
Uma série de componentes importantes do KC-390 são produzidos em Portugal (FAB)
O KC-390 pode transportar até 26 toneladas de carga, capacidade que supera a do C-130 Hercules (FAB)
O KC-390 está programado para estrear com a Força Aérea Brasileira a partir de 2018 (FAB)

Desde que os irmãos Wright e Santos Dumont (além de outros corajosos desbravadores dos céus) resolveram tornar o avião uma realidade o risco de um acidente sempre fez parte do jogo. Naquela época, coube a Wilbur Wright e ao próprio Santos Dumont testarem suas máquinas aéreas, mas há várias décadas essa missão é realizada por pilotos e tripulantes de testes, profissionais preparados para extrair o máximo de seus protótipos, mas que têm ciência de que uma decolagem num avião experimental pode ser a última.

Hoje em dia, a segurança desses ensaios aumentou consideravelmente. Projetos mais precisos e simulações em computador antecipam muitos potenciais problemas que são corrigidos antes mesmo de o primeiro protótipo decolar. Mas nunca se deve esquecer: um voo de testes serve para isso mesmo, conferir os limites reais de uma aeronave, ou seja, elas são como “cobaias aéreas”.

Por essa razão, o incidente com o novo cargueiro da Embraer, o KC-390, apesar de grave, não pode ser considerado algo incomum como fez parecer a comoção causada pela sua divulgação.

Embora a Embraer não tenha esclarecido a causa do incidente, que fez o jato perder altitude e atingir, segundo apurado por Airway, cerca de 4.8 G de aceleração (valor suportado por caças de combate), a revelação do funcionário da fabricante à revista Aero Magazine apontou que o desprendimento de um equipamento teria provocado a mudança do centro de gravidade do avião.

Se isso for confirmado, trata-se de um procedimento externo ao avião em si. Em outras palavras, não é algo que denota incapacidade do KC-390. Mesmo assim, a aeronave e sua tripulação conseguiram retomar o controle após ocorrer o estol (quando há perda de sustentação).

Mas é preciso explicar que o KC-390 estava sendo testado justamente para isso, um estol, ou seja, uma situação em que há enorme risco de se perder o controle do voo. Além disso, é praxe ir além do chamado “envelope de voo”, parâmetros que serão utilizados em voos comuns após a homologação.

E, apesar dos imensos esforços sofridos pela fuselagem, o protótipo PT-ZNF teve danos restritos e voltará ao programa de testes, segundo a Embraer – ao contrário da suposição de que teria sido inutilizado.

Capacete em aviões comerciais

Felizmente, o episódio não causou nenhum ferimento aos ocupantes do KC-390. No entanto, casos de perda de protótipos ainda ocorrem com alguma frequência, sobretudo em aviões militares cujas missões exigem uma performance “especial”. Em agosto deste ano, por exemplo, o único protótipo do S-97, novo helicóptero avançado da americana Sikorsky, fez um pouso forçado na California sem que seus ocupantes tivessem se ferido.

Os tripulantes de outro projeto avançado, o helicóptero 525 Relentless, da Bell, já não tiveram a mesma sorte. Em julho do ano passado, um dos três protótipos perdeu controle e se chocou com o solo matando seus dois pilotos. Não é por acaso que mesmo em certos tipos de protótipos os pilotos de testes utilizam capacetes e muitas vezes até para-quedas, um sinal claro que cada voo de teste é diferente de outro.

O Embraer KC-390 tem a missão de substituir os veteranos turbo-hélices C-130 Hercules no Brasil (FAB)
O Embraer KC-390 tem a missão de substituir os veteranos turbo-hélices C-130 Hercules no Brasil (FAB)

O episódio do KC-390, no entanto, tomou corpo porque foi notado por pessoas que acompanham a aviação logo no dia em que ocorreu, no feriado de 12 de outubro. Por meio de aplicativos como o Flight Radar, foi possível acompanhar o voo de teste do avião da Embraer, que embora seja privado e restrito a uma área delimitada, precisa informar sua posição para o controle de tráfego aéreo.

A queda abrupta da aeronave (de 6 mil metros para mil metros de altitude numa região em que o solo está a cerca de 700 metros) acabou repercutindo nas redes sociais e, embora tendo sua gravidade desmentida pela fabricante, não foi suficiente para esclarecer o que de fato havia ocorrido. Com isso, sobrou espaço para que teorias mais graves ganhassem vulto como a que dizia que o protótipo havia sido tão afetado pelo problema que seria abandonado.

Há ainda um aspecto que complica um pouco mais a situação. Por ser uma aeronave militar, cujo desenvolvimento está sendo acompanhado pela Força Aérea Brasileira (FAB), principal cliente, qualquer informação sobre seu desenvolvimento esbarra no sigilo que envolve a estratégia de defesa do país.

Espera-se que o programa possa de fato seguir sem atrasos e que os voos do KC-390 sejam feitos com segurança. Afinal, trata-se do maior avião já projetado e desenvolvido no Brasil e peça-chave para que o país mantenha sua posição de destaque na indústria aeroespacial.

Veja mais: Novo Gripen realiza primeiro voo supersônico

 

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IndioBravo
IndioBravo
4 anos atrás

O texto mais equilibrado sobre a questão é este.

Rafael
Rafael
4 anos atrás

Eu já acho que foi um teste de batismo e que a aeronave se saiu melhor que o esperado.
Ainda que tenha ocorrido um defeito da aeronave (desconsiderando a tese de que alto teria se soltado), ela se mostrou parruda e de fácil manuseio (para o tamanho dela), evitando o acidente fatal.

Que investiguem o erro, o consertem e a coloquem em produção o quanto antes. Para mim, é um orgulho saber que a aviação nacional consegue construir algo tão grandioso e bom.

Julio Cordeiro
Julio Cordeiro
4 anos atrás

Tratou-se de equipamento levado a bordo, não parte da aeronave, ou seja, carga. Lembro que algo semelhante (obviamente num patamar bem acima) com um 747 no Afeganistão há poucos anos atrás, teve parte da carga que se desprendeu no procedimento de decolagem, resultando numa queda horripilante que foi inclusive filmada por um veículo que transitava próximo ao aeródromo…infelizmente, naquele momento, a aeronave não tinha sustentação nem altitude para tentar nada.
Enfim, tripulação de parabéns, salvou vidas e o equipamento.

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