A chegada do novo VC-25B Bridge (ponte) da Força Aérea dos EUA acrescentou mais uma aeronave a uma das frotas mais exclusivas da aviação.
Baseado em um ex-Boeing 747-8i operado pelo governo do Catar, o avião apoiará as missões de transporte presidencial até que o programa VC-25B, há muito adiado, entre em operação no final desta década.
Embora a aeronave tenha gerado controvérsias devido à sua origem incomum, ela também se junta a uma linhagem que remonta a mais de 80 anos e inclui desde hidroaviões e transportes com motores a pistão até Boeings 747 especialmente modificados, capazes de atuar como centros de comando aerotransportados.
O início das viagens aéreas presidenciais
Antes da Segunda Guerra Mundial, presidentes dos EUA geralmente viajavam de trem ou navio.
Isso mudou em janeiro de 1943, quando o presidente Franklin D. Roosevelt voou a bordo do hidroavião Boeing 314 Dixie Clipper para a Conferência de Casablanca, no Marrocos. A aeronave pertencia à Pan American Airways e não era um transporte presidencial dedicado, mas demonstrou o valor estratégico das viagens aéreas de longo alcance para o comandante-chefe.

Logo, autoridades militares concluíram que o presidente precisava de uma aeronave exclusiva.
Um Consolidated C-87 Liberator Express especialmente modificado, conhecido como Guess Where II, foi inicialmente selecionado para a função, mas nunca transportou Roosevelt após surgirem preocupações com o histórico de segurança do avião.
Em vez disso, a Casa Branca recebeu um Douglas VC-54C batizado de Sacred Cow.
'Vaca Sagrada', a primeira aeronave presidencial
Entregue em 1945, a Sacred Cow (vaca sagrada) tornou-se a primeira aeronave configurada especificamente para uso presidencial.
O VC-54C contava com uma suíte privativa, equipamentos de comunicação e um elevador especial para acomodar a cadeira de rodas de Roosevelt.
A aeronave levou Roosevelt à Conferência de Yalta pouco antes do fim da Segunda Guerra Mundial e depois serviu ao presidente Harry Truman.
Hoje, a Sacred Cow está preservada no Museu Nacional da Força Aérea dos Estados Unidos, em Ohio.

Independence e a era Constellation
Em 1947, Truman substituiu a Sacred Cow por um Douglas VC-118 maior, conhecido como Independence.
Batizada em homenagem à cidade natal do presidente, no Missouri, a aeronave trazia um desenho distinto de cabeça de águia no nariz e representava um avanço significativo em conforto e alcance.
O passo seguinte veio durante o governo Eisenhower, com a família Lockheed Constellation.
O Columbine II entrou em serviço em 1953, seguido pelo mais avançado Columbine III em 1954.
A aeronave entrou para a história da aviação quando um voo comercial com o mesmo número do avião de Eisenhower causou confusão no controle de tráfego aéreo. O incidente levou à adoção de um indicativo exclusivo sempre que o presidente estivesse a bordo de uma aeronave militar.
Nascia o termo "Air Force One".

A era do jato
A chegada do Boeing 707 transformou as viagens presidenciais.
Eisenhower foi o primeiro presidente dos EUA a voar em um jato, em 1959, usando uma das várias versões do VC-137 introduzidas na transição dos aviões a hélice.
O avião emblemático da época chegou em 1962 com o SAM 26000, um Boeing VC-137C especialmente modificado, baseado no 707-320B.
A aeronave estreou a agora icônica pintura azul e branca, criada pelo designer industrial Raymond Loewy em colaboração com o presidente John F. Kennedy.
O SAM 26000 tornou-se uma das aeronaves mais reconhecidas da história.
Transportou Kennedy durante sua presidência e estava presente em Dallas em 22 de novembro de 1963. Após o assassinato de Kennedy, Lyndon B. Johnson tomou posse a bordo da aeronave antes de deixar o Texas.
Depois, o avião serviu Johnson e Richard Nixon antes de passar a funções de reserva.

SAM 27000 e três décadas de serviço
Um segundo VC-137C, designado SAM 27000, entrou em operação em 1972.
A aeronave tornou-se o principal transporte presidencial de sete presidentes, de Richard Nixon a George W. Bush.
Por quase três décadas, o SAM 27000 representou os Estados Unidos ao redor do mundo durante a Guerra Fria, os anos Reagan e o período pós-Guerra Fria.
A última missão presidencial do avião ocorreu em 2001, levando George W. Bush à sua primeira posse antes de ser aposentado.
Hoje, está em exposição na Biblioteca Presidencial Ronald Reagan, na Califórnia.

A era do Boeing 747
A geração atual de aeronaves presidenciais chegou em 1990.
Conhecidos como VC-25A, os dois aviões são Boeings 747-200B fortemente modificados, com matrículas militares 28000 e 29000.
Entraram em serviço sob o presidente George H.W. Bush e, desde então, transportaram todos os presidentes dos EUA, incluindo Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump e Joe Biden.
Embora externamente se assemelhem aos 747 comerciais, os VC-25A diferem radicalmente por dentro.
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As aeronaves contam com sistemas de comunicação segura, contramedidas defensivas, eletrônicos protegidos, salas de conferência, recursos médicos e acomodações para equipe sênior, seguranças e jornalistas.
Talvez a característica mais marcante seja a capacidade de reabastecimento em voo, permitindo teoricamente que permaneçam no ar indefinidamente em caso de emergência nacional.

O programa VC-25B atrasado
Na década de 2010, a Força Aérea iniciou o planejamento para substituir a frota envelhecida de VC-25A.
O resultado foi o programa VC-25B, baseado em dois ex-Boings 747-8 Intercontinental adquiridos para conversão militar extensiva.
O projeto foi lançado durante o primeiro mandato de Donald Trump, em 2017, mas logo enfrentou desafios de produção, interrupções na cadeia de suprimentos e problemas de certificação.
Os custos ultrapassaram US$ 5 bilhões e o cronograma sofreu sucessivos atrasos.
Agora, a expectativa é que as aeronaves entrem em serviço por volta de 2028, cerca de quatro anos além do previsto inicialmente.

O VC-25B temporário
Para manter a capacidade de transporte presidencial enquanto o programa VC-25B segue em desenvolvimento, a Força Aérea recorreu a uma solução incomum.
Um ex-Boeing 747-8i do governo do Catar foi adquirido e rapidamente adaptado, tornando-se o chamado VC-25B Bridge.
Diferente dos futuros VC-25B, a aeronave provisória mantém grande parte do interior VIP original. A Força Aérea priorizou comunicações seguras, sistemas defensivos e equipamentos de missão, evitando modificações estruturais extensas que atrasariam a entrada em serviço.
O avião chegou à Joint Base Andrews em junho de 2026 e iniciou voos de comissionamento logo depois.
A expectativa é que opere ao lado da frota VC-25A até a entrega das próximas aeronaves presidenciais.
Um símbolo voador da presidência
Da Sacred Cow movida a pistão aos atuais Boeing 747 modificados, as aeronaves presidenciais evoluíram junto com a própria tecnologia da aviação.
Cada geração refletiu as demandas de sua época, seja cruzando oceanos durante a Segunda Guerra Mundial, projetando o poder americano na Guerra Fria ou servindo como centro de comando seguro nos dias atuais.
A chegada do VC-25B Bridge garante a continuidade dessa história enquanto o próximo capítulo aguarda nas fábricas da Boeing.









