A versão comercial do ATL-100 tem espaço para até 19 passageiros (Divulgação)

A versão comercial do ATL-100 é projetada para transportar até 19 passageiros (Divulgação)

Candidata a nova estrela da indústria aeronáutica nacional, a Desaer (Desenvolvimento Aeronáutico) anunciou nesta semana a formação de uma joint venture com o centro de inovação português CEiiA (Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto) para o desenvolvimento, industrialização e comercialização da aeronave de transporte leve ATL-100 proposta pela empresa brasileira com sede em São José dos Campos (SP).

“O ATL-100 é uma aeronave de uso civil e militar, com configurações para o transporte de passageiros (até 19 passageiros) e para carga (2,5 toneladas), com o objetivo de endereçar as necessidades de transporte regional em áreas já adensadas e nas regiões mais remotas, necessitando de pouco apoio de infraestrutura no solo e possibilidade de aterrar em pistas curtas e não pavimentadas”, cita o comunicado do CEiiA.

Em contato com o Airway, Evandro Filemo, sócio-fundador da Desaer, disse que a parceria estratégica com o centro de engenharia português vai acelerar o desenvolvimento do ATL-100. “Vamos ter mais profissionais envolvidos no projeto da aeronave, aqui no Brasil e em Portugal. Planejamos ter o primeiro protótipo do ATL-100 pronto para voar até 2023 e com bases de produção nos dois países.”

Sediado em Matosinhos, no distrito do Porto, o CEiiA é o principal centro tecnológico de Portugal, com projetos nas áreas de mobilidade, incluindo a participação no programa KC-390 da Embraer.

“O desenvolvimento do ATL-100 terá como alicerce o foco na sustentabilidade, não só pela aplicação de tecnologias menos poluentes em seus componentes, mas, também, pela perspetiva de utilização, no futuro, de novas tecnologias como motores elétricos”, indica a nota do centro lusitano.

O comunicado destaca ainda que “o CEIIA e a DESAER entendem que esta parceria, que agrega competências complementares do setor aeroespacial de Portugal e do Brasil, além de ser um importante projeto de inovação tecnológica e de criação de renda e emprego em ambos os países, surge com especial relevância agora como um contra-ataque aos efeitos danosos sobre a economia mundial causados pela crise da covid-19″.

Substituto para o Embraer Bandeirante

Formada por ex-engenheiros da Embraer, a Desaer está instalada na Incubaero, uma incubadora de empresas e projetos aeronáuticos da Fundação Casimiro Montenegro Filho, no DCTA – Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial.

Primeiro projeto da companhia, o ATL-100 é um avião da categoria “Commuter”, também chamados no Brasil de “aviões-utilitários”. Por definição, esse é um segmento restrito a aeronaves com motores turboélice, capacidade para até 19 passageiros, peso máximo de decolagem em torno de 8.600 kg e sem cabine pressurizada.

A versão militar do ATL-100 é proposta para transportar 12 soldados paraquedistas com equipamento completo, capacidade semelhante a do Bandeirante (Divulgação)

A versão militar do ATL-100 pode ser uma opção para a FAB substituir os antigos Embraer Bandeirante (Divulgação)

O projeto da Desaer ainda inclui algumas características que aumentam a performance e as possibilidade operacionais da aeronave, como a asa alta e o conjunto de trem de pouso fixo (o Bandeirante, por exemplo, tem asa baixa e trem de pouso retrátil). Esses componentes são ideais para aviões desenvolvidos para exercer trabalhos pesados, como pousar e decolar a partir de pistas semi-preparadas de terra ou grama – ou mesmo locais sem pista alguma.

Embora ainda não tenha saído do papel, o ATL-100 já está despertando atenção do mercado. No ano passado, durante a feira de aviação executiva Labace em São Paulo, a Desaer confirmou o primeiro cliente do bimotor, a AGS Logística. A empresa de logística assinou um contrato de intenção de compra para duas aeronaves com opção para mais três unidades. O avião da empresa paulista é avaliado em US$ 5,5 milhões (R$ 30,6 milhões na cotação atual).

“Também estamos negociando a venda de sete aeronaves com a Avinter, empresa aérea regional do Uruguai. Há ainda o interesse de forças armadas estrangeiras. Já tivemos conversas com duas forças aéreas de países da América do Sul e uma da Europa”, revelou Filemo, mas sem identificar quais são as nações interessadas na aeronave.

A partir de 2023, os modelos Embraer Bandeirante da Força Aérea Brasileira (FAB) vão começar a atingir o limite operacional e deverão ser desativados e substituídos. Até lá, se tudo correr como o planejado pela Desaer e seu novo parceiro de Portugal, o ATL-100 deve estar pronto para ser demonstrado à FAB.

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