O próximo avião usado para preparar os futuros pilotos dos caças da Marinha dos Estados Unidos pode ter origem italiana. Uma série de desistências praticamente deixou o M-346N, oferecido pela americana Textron em parceria com a Leonardo, sozinho entre os grandes fabricantes na disputa para substituir o Boeing T-45 Goshawk.

O T-45 é o jato no qual pilotos da Marinha e dos Fuzileiros Navais aprendem as técnicas necessárias antes de avançar para caças como o F/A-18E/F Super Hornet e o F-35C. É uma das etapas da formação dos aviadores que depois operam a partir dos porta-aviões americanos, ambiente popularizado mundialmente pelos filmes Top Gun.

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A disputa pelo substituto parecia bem diferente quando foi aberta formalmente em março. Quatro propostas de grandes empresas eram esperadas, incluindo modelos da Boeing e da Lockheed Martin e até um avião inteiramente novo desenvolvido especialmente para a concorrência.

Agora, a Sierra Nevada Corporation (SNC) confirmou que não apresentou uma proposta até o prazo de 30 de outubro. A informação foi revelada pelo site Breaking Defense.

A decisão tirou da disputa o Freedom Trainer, um jato bimotor de dois lugares que, ao contrário dos principais rivais, não era uma adaptação de um treinador já existente. A SNC havia desenvolvido o avião especificamente pensando nas necessidades da Marinha americana.

Freedom trainer (SNC)
Freedom trainer (SNC)

Empresa diz que contrato não compensava

A explicação da SNC ajuda a entender por que uma concorrência inicialmente disputada terminou com tão poucas opções. A empresa afirmou que não poderia apresentar uma proposta de maneira responsável nas condições atuais do contrato e disse que poderia voltar a se interessar caso a Marinha reveja sua abordagem.

O Freedom havia sido apresentado em 2025 e chegou a reunir SNC, General Atomics e Northrop Grumman em sua equipe industrial. A Northrop deixou a parceria em setembro, mas as outras duas empresas continuaram na disputa até o prazo para apresentação das propostas.

A SNC também não foi a primeira a desistir. A Lockheed Martin havia preparado o TF-50N em parceria com a sul-coreana Korea Aerospace Industries (KAI), mas abandonou a concorrência em abril depois de analisar as exigências definitivas da Marinha.

Dois meses depois foi a vez da Boeing. A fabricante pretendia oferecer uma versão do T-7A Red Hawk, seu novo treinador desenvolvido com a sueca Saab para a Força Aérea dos Estados Unidos. A empresa concluiu, porém, que seriam necessárias modificações e trabalhos adicionais para atender aos requisitos da Marinha, trazendo riscos ao cronograma.

Proposta de jato de treinamento da italiana Stavatti
Proposta de jato de treinamento da italiana Stavatti | Stavatti Aerospace

A própria Marinha já havia reagido às dificuldades encontradas pela indústria. O teto previsto para a fase de desenvolvimento foi elevado de cerca de US$ 1,75 bilhão para US$ 2,7 bilhões, e o prazo para apresentação das propostas foi adiado mais de uma vez.

M-346N fica praticamente sozinho

Quem permaneceu foi a Textron, que se associou à italiana Leonardo para oferecer o M-346N. Diferentemente do Freedom, o avião parte de um modelo que já está em produção e é utilizado para treinamento militar por vários países.

O M-346 foi desenvolvido na Itália pela então Alenia Aermacchi, hoje parte da Leonardo. Para a concorrência americana, a versão M-346N seria oferecida pela Textron sob a marca Beechcraft, com montagem final prevista em Wichita, no Kansas, caso seja escolhida.

Formalmente, existe pelo menos outro interessado. A pequena Stavatti Aerospace afirma também ter apresentado uma proposta, enquanto a Marinha não revelou oficialmente quais empresas entregaram ofertas. Por isso, ainda não é possível tratar a Textron como vencedora.

Entre fabricantes estabelecidos, porém, o M-346N é a única proposta conhecida que chegou ao fim da concorrência. De quatro grandes equipes inicialmente esperadas, três abandonaram o programa antes da escolha.

T-45 Goshawk
T-45 Goshawk

Substituto não precisará pousar em porta-aviões

Apesar de preparar pilotos para a aviação embarcada, o futuro treinador terá uma diferença importante em relação ao T-45. A Marinha decidiu que o novo avião não precisará realizar pousos em porta-aviões.

Parte desse treinamento será transferida para simuladores. Em terra, os alunos continuarão praticando aproximações semelhantes às realizadas em navios, mas poderão interrompê-las antes de tocar a pista.

A mudança permite à Marinha utilizar um avião menos especializado que o T-45, que possui gancho de parada e estrutura preparada para operações embarcadas.

Os Estados Unidos pretendem comprar 216 novos treinadores. A decisão, inicialmente prevista para março de 2027 e depois adiada para junho, agora é esperada entre julho e setembro do próximo ano.