Os 40 anos do Boeing 737-300 no Brasil

A segunda geração do Boeing 737 foi amplamente usada no Brasil nas décadas de 1990 e 2000

RGLandor
O Boeing 737-300 foi a principal aeronave das linhas domésticas na década de 1990 (Aeroprints).

No final da década de 1970, os Boeing 737-200 e Douglas DC-9 se consolidaram como as principais aeronaves usadas para voos de curta distância e grande frequência. A alta confiabilidade, versatilidade e capacidade de operar em aeroportos menores proporcionaram um terreno sólido para as duas principais fabricantes de aeronaves comerciais da época.

Entretanto, o Choque do Petróleo em 1973 e o surgimento de novas tecnologias após o lançamento do Airbus A300, Boeing 747 e do Concorde deixavam as duas aeronaves em desvantagem tecnológica em relação às mais novas. A McDonnell Douglas já corria atrás em atualizar o DC-9, o conhecido DC-9-80 ou Super 80, que tinha previsão de voar em 1980. Para a Boeing, ficar atrás da concorrente poderia significar perder o que conquistou tão arduamente com os 727 e 737.

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Assim, em 1979 a Boeing apresentou a segunda geração do 737, o modelo -300. O avião receberia o turbofan CFM56, novos aviônicos e fuselagem maior, marcando uma evolução em relação ao 737-200. A Piedmont Airlines e a Southwest Airlines encomendaram 10 unidades cada, tornando-se os launch customers do 737-300.

O segundo protótipo do Boeing 737-300 é exibido no Farnborough Air Show com as clientes lançadora do modelo (Ken Fielding).

O primeiro voo do modelo 737-300 foi realizado em 24 de fevereiro de 1984 e logo se tornou um dos modelos mais populares da Boeing, com 1.113 unidades produzidas. A última entrega foi o ZK-NGJ para a Air New Zealand em 17 de dezembro de 1999, portanto com alguns modelos da segunda geração mais novos que seus sucessores, o Next Generation (-600/-700/-800/-900).

O BOEING 737-300 NO BRASIL

No início da década de 1980, voos domésticos no Brasil eram realizados majoritariamente pelos Boeing 727 e 737-200, com alguns trechos realizados por aviões Airbus A300 e McDonnell Douglas DC-10-30. No mercado regional, os Embraer EMB-110 Bandeirantes formavam mais de 90% da frota.

A VASP já operava com os Boeing 737-200 desde 1969 e, após o fracasso de conseguir financiamento para os Airbus A310-200, ela se voltou para a Boeing e o 737-300. Era outra gestão da empresa, sem visões megalomaníacas e com aeronave mais adequada à realidade nacional após a crise econômica de 1981/1983.

O primeiro 737-300 do Brasil foi o PP-SNS, recebido em 18 de abril de 1986 e com chegada em São Paulo Congonhas em 29 de abril. Com serial number 23.175, foi entregue originalmente para a CP Air, que o empregou na divisão Attaché CP Air como C-FCPJ, com configuração All-business.

Em 40 anos, 123 Boeing 737-300 voaram nas empresas nacionais, sem nenhum acidente com vítimas fatais e foram importantes como substitutos dos Boeing 727 e 737. Algumas aeronaves chegaram a ter quatro operadores distintos no país, como foi caso do PP-SFL, que operou pela VASP, depois VARIG, BRA e OceanAir, e PP-SOK, que chegou pela VASP e passou pela TransBrasil, Nordeste e Webjet.

Ele teve a ingrata missão de substituir o ‘insubstituível’ Lockheed L188 Electra na Ponte-Aérea Rio-São Paulo. Ainda hoje, após 40 anos, há modelos voando no Brasil nas asas da Sideral Linhas Aéreas e possivelmente na Total Linhas Aéreas.

VASP (1986-2005)

Primeira operadora do modelo no Brasil, a VASP operou 26 aeronaves de 1986 até o final de suas operações. Ao receber o 737-300, a estatal paulista deixava bem claro que o modelo poderia operar no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, em um crescente lobby dela e da Transbrasil para desativar os Electras da VARIG na Ponte-Aérea.

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O 737-300 da VASP no Aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro (Icarus)

Após a privatização, 12 737-300 entraram na frota da empresa, mas a maioria com vida curta, devido ao calote da VASP à arrendadora Guiness Peat Aviation (GPA). O 737-300 operou em rotas domésticas e internacionais para a Aruba e Buenos Aires.

A VASP chegou a operar um 737-300 em pintura híbrida com a da JAT Yugoslav Airlines, o PP-SNY. Outro fato curioso foi que o CP-2313 foi a única aeronave a ter o customer code da VASP empregado pela Boeing em um 737-300.

Coube ao PP-SFJ realizar o último voo regular da VASP em 26 de janeiro de 2005, cumprindo o voo VP4265, Fortaleza-Recife-Maceió-Salvador-Guarulhos.

TRANSBRASIL (1986-2001)

A Transbrasil foi a segunda operadora do 737-300 no Brasil, recebendo o PT-TEA em 23 de junho de 1986. O avião substituiu os Boeing 727-100 nas rotas domésticas. No total foram 19 modelos operados até 2001, quando encerrou as operações.

PT-TEG
A Transbrasil substituir parte dos Boeing 727-100 por 737-300 (Aeroicarus).

Alguns voos para o Sul da subsidiária regional Interbrasil STAR foram realizados pelo 737-300. Os PT-TEU e PT-TEV vieram da VARIG como PP-VNU e PP-VNV, respectivamente, e posteriormente voltaram para a empresa gaúcha como PP-VTA e PP-VTB. Dois também foram provenientes da VASP: PT-TEQ e PT-TER, respectivamente PP-SOK e PP-SOL. O PT-TEP foi para a VARIG como PP-VQP em 2000.

O PT-TEW fez o último voo da Transbrasil, em 3 de dezembro de 2001, no trecho Fortaleza-Recife-Rio de Janeiro (Galeão)-São Paulo.

VARIG (1987-2006)

A VARIG foi a maior operadora do 737-300 no Brasil, com 41 unidades entre 1987 e 2006. Na empresa, o avião teve a missão de substituir os Electras na Ponte-Aérea, os 727-100 e parte dos 737-200 nos serviços domésticos e na América do Sul.

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A VARIG foi a maior operadora do Boeing 737-300, com 41 unidades. (Torsten-Maiwald).

Os 737-300 também efetuavam serviços para a Cruzeiro do Sul, porém com pintura VARIG. Os PP-VNU e PP-VNV, os primeiros recebidos pela empresa em setembro de 1987, foram para a Transbrasil, onde tiveram as matrículas PT-TEU e PP-TEV, respectivamente. Após a falência da empresa de Omar Fontana, as aeronaves retornaram para a VARIG como PP-VTA e PP-VTB. O PP-SFL da VASP virou PP-VQW e o PT-TEP da Transbrasil virou PP-VQP.

PP-VTA
O PP-VTA foi um dos últimos 737-300 recebidos pela VARIG. Posteriormente recebeu a última versão da pintura da empresa (Christian Volpati)

Coube a um 737-300 a distinção de ser a última aeronave recebida pela VARIG, em março de 2006, o PP-VTW, ex-TAP Air Portugal CS-TIC e Lloyd Aéreo Boliviano CP-2391.

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A VARIG usou bastante os Boeing 737-300 para pinturas especiais, principalmente da Copa do Mundo. Em sentido horário: PP-VOZ Copa do Mundo de 1998, PP-VPR com a Copa de 2002, PP-VPY com a Copa de 2006 e o PP-VPZ com os stickers de 75 anos da empresa, em 2002 (Christian Volpati).

RIO-SUL (2000-2002)

A Rio-Sul operou com 4 modelos a partir de junho de 2000, quando recebeu o PT-SSK. A adição representava aumento da oferta de assentos em relação ao 737-500, espinha dorsal da frota.

Todos os 737-300 eram usados e três deles tiveram passagens por empresas brasileiras anteriormente: PT-SSJ e PT-SSP (ex-PP-SOD e PP-SNZ na VASP) e PT-SSK (ex-PP-VOM na VARIG).

PT-SSP
O PT-SSP com logojet, estratégia da Rio-Sul para incrementar receita (Remi Dállot)

BRA (2000-2007)

A BRA operou com sete unidades entre 2000 e 2007, quando encerrou suas operações. A primeira unidade, PR-BRA, tinha as cores híbridas da EuroAtlantic Airways e posteriormente virou PR-BRY. A empresa usou intensamente os 737-300 para voos charters, mas que eram vendidos como regulares, recebendo críticas das concorrentes.

Diversas aeronaves eram provenientes das concorrentes: PR-BRB (ex-PT-TEH na Transbrasil), PR-BRF (ex-PP-VOU), PR-BRG (ex-PP-VOU na VARIG) e PR-BRK (ex-PP-SFL na VASP e PP-VQW na VARIG). Parte dos 737-300 chegaram a ser pintados como BRA Rotatur, quando a empresa tinha parceria com o Grupo VARIG para fretar aeronaves.

BRA
O Boeing 737-300 foi a principal aeronave da BRA (Aeroprints).

Quando reativou as operações, em 2009, a empresa utilizou o PR-GLK ex-Gol para as operações, mas logo após encerraria as atividades definitivamente.

NORDESTE (2001-2002)

A Nordeste operou três Boeing 737-300 a partir de dezembro de 2001, um deles proveniente da Transbrasil, o PT-TEQ, que virou o PT-MNJ na empresa baiana. Esta aeronave recebeu duas pinturas especiais: em 2001 com a Turma da Mônica celebrando as festas de fim de ano, e em 2002 para o jornal Valor Econômico. O Mike November Juliet posteriormente foi para a Webjet, tornando sua primeira aeronave.

PT-MNJ
PT-MNJ operando voos da VARIG. A aeronave recebeu logojets da Turma da Mônica e do Valor Econômico, motivo pelo qual o logotipo da empresa está pequeno (Aeroicarus).

GOL (2004-2014)

Em 2004, durante sua ascensão meteórica, a Gol trouxe 15 Boeing 737-300 ex-United Airlines para operar enquanto não recebesse os 737-700 e 737-800 encomendados. As aeronaves, junto das 16 recebidas da VRG Linhas Aéreas, ficaram até 2011. Com a absorção da Webjet em 2012, a empresa herdou os 737-300 operados por esta, sendo retirados de operação em 2014.

PR-GLH
PR-GLH, um dos 15 737-300 da Gol (Morio)

WEBJET (2005-2012)

Fundada em 2005 com o único avião, o 737-300 PT-MNJ ex-Nordeste, a Webjet tentou operar em rotas já consolidadas por outras empresas aéreas, levando-a cancelar os voos temporariamente.

Com novos donos, a empresa reiniciou suas operações em 2007 com o PR-WJA. Com configuração de alta densidade, ausência de serviço de bordo e com apoio dos grupos rodoviários Águia, Jacob Filho e, posteriormente, com a CVC, a empresa cresceu vertiginosamente.

PR-WJB
PR-WJB na primeira pintura da Webjet (Aeroprints).

No total, a Webjet operou 24 737-300 de 2005 até 2012, quando a Gol comprou a empresa e encerrou as operações. Diversas aeronaves eram provenientes do Grupo VARIG, da BRA e da Gol, com algumas sem realizar voos para a Webjet, servindo apenas como peças de reposição.

RICO (2006-2007)

A RICO Linhas Aéreas operou um único 737-300, PR-RLB, entre 2006 e 2007. A aeronave foi a primeira do modelo a operar como Quick-Change (QC) no Brasil, com voos tanto para passageiros quanto para cargas.

RICO
A RICO operou o PR-RLB, o único 737-300 da frota (E. Wolff).

VARIG – VRG LINHAS AÉREAS (2006-2008)

Empresa resultante da parte boa do Grupo VARIG, a VRG Linhas Aéreas operou com 16 unidades provenientes da VARIG de 2006 até 2008, em voos domésticos, para Buenos Aires, Bogotá e Caracas, estes dois últimos com escala em Manaus.

PP-VPB
Decolando de Congonhas, o PP-VPB foi o único a receber as cores da VARIG – VRG Linhas Aéreas (MikeFox via Jetphotos)

Após a compra pela Gol, os 737-300 foram substituídos progressivamente pelos 737-700 e 737-800. Mesmo com a substituição, o PP-VPB recebeu as cores da VRG.

OCEANAIR (2007-2009)

A OceanAir operou quatro 737-300 ex-BRA: PR-BRB, PR-BRD, PR-BRG e PR-BRK, em um período que a empresa crescia de forma desorganizada. Um dos aviões chegou a ser pintado nas cores completas da OceanAir. Em reestruturação, a empresa devolveu todos os tipos de aeronaves, concentrando as operações nos Fokker 100.

PR-BRD
PR-BRD com o nome Oceanair. Apenas o PR-BRK recebeu a pintura completa (Rafael Nunes via Airliners.net).

FLEX (2008-2010)

A Flex foi a herdeira da tradição (e das dívidas) da VARIG após esta ter sido dividida em duas em junho de 2006. A empresa operou um único 737-300, PR-FLX, que voou anteriormente na VARIG como PP-VNY.

FLEX
PR-FLX no Aeroporto do Galeão, Rio de Janeiro (Aeroprints).

A única rota que operava era entre Rio de Janeiro Galeão e Porto Seguro, com operação contratada pela Gol, uma vez que a falência da Flex poderia fazer que as dívidas fossem assumidas pela Gol. Assim que a justiça definiu que a Gol não era sucessora das dívidas da VARIG, ela parou de contratar os serviços da Flex e, sem entrada de recursos, encerrou suas operações em 2010.

PUMA AIR (2010-2011)

A Puma Air operou com o 737-300 PR-PUA, ex-Gol PR-GLK, em voos entre Guarulhos e Belém. A empresa chegou a reservar matrícula para um segundo modelo, PR-PUB, porém a concorrência acirrada e problemas com o proprietário fizeram a empresa encerrar as atividades.

PUMA
PR-PUA, ex-PR-GLK (Cmte. Lobato).

CLUBE NÁUTICO ÁGUA LIMPA (2013-2022)

O clube recebeu o 737-300 PR-CID, ex-Webjet PR-WJX, em 2013, para realizar voos para seus sócios. Até onde se tem conhecimento, foram realizados pouquíssimos voos até que, em 2015, a Certidão de Aeronavegabilidade foi suspensa pela Agência Nacional de Aviação Civil – ANAC.

Desde então, o Cidão – como era conhecido, ficou estocado no Aeroporto de São José do Rio Preto, até que foi adquirido pela Sideral em 2022 e realizou seu primeiro e último voo desde que estava estocado há 8 anos: para Curitiba, para servir como spare-parts para as outras aeronaves.

PR-CID
O 737-300 “Cidão” antes de ir para o Clube Náutico Água Limpa (Renato Spilimbergo Carvalho)

SIDERAL LINHAS AÉREAS (2015-)

Atualmente é a única operadora do Boeing 737-300 no país. Ela opera com 7 unidades, divididos em quatro cargueiros (PR-SDF, PR-SDL, PR-SDQ e PR-SLI), Quick-Change (PR-SDG e PR-SDO) e o único full-pax, PR-SDW. O PR-CID foi adquirido do Clube Náutico Água Limpa para fornecer peças de reposição para outras aeronaves. O PR-SDL tem a pintura especial dos Correios.

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A Sideral emprega o Boeing 737-300 tanto para passageiros quanto para cargas (Marcus Soares).

MODERN LOGISTICS (2018-2025)

A empresa fundada pelos ex-executivos da Azul e JetBlue Gerald Blake Lee e Marlon Ramirez, a Modern Logistics operou com dois 737-300, PR-YBC e PR-YBD, em serviços cargueiros. As aeronaves foram devolvidas em 2024 e 2025.

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Um dos dois Boeing 737-300F da Modern (ThiagoA. Denz via Airliners.net).

ANÍVIA SERVIÇOS AÉREOS / TOTAL EXPRESS(2022-2025)

A empresa aérea de cargas operou um único 737-300F, PS-TOT, de 2022 à 2025 nas cores da Total Express, sem relação com a Total Linhas Aéreas.

PS-TOT
O PS-TOT foi o único avião da Total Express/Anívia Serviços Aéreos (Omar Yadiel Pérez Santiago via Planespotters.net)

TOTAL LINHAS AÉREAS (2026-)

A tradicional cargueira tem previsão para receber este ano o PS-TLX, um 737-300 fabricado em 1990 para a United Airlines como N387UA e posteriormente foi para a Jordan Aviation como JY-JAD.