Uma peça importante para controlar o movimento do nariz do Learjet 60 que caiu na Flórida foi encontrada a quilômetros do local do acidente. Investigadores recuperaram a maior parte do profundor esquerdo do jato em três pedaços, sendo que o mais distante estava a 6,1 km da cratera aberta pelo impacto.

A descoberta confirma que pelo menos parte da cauda se soltou antes de o Learjet atingir o solo em Greenacres, perto de West Palm Beach, no domingo (1º). Isso, porém, não significa que a separação tenha provocado a perda de controle.

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O Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos Estados Unidos (NTSB) ainda tenta descobrir justamente a ordem dos acontecimentos. O Learjet entrou em um mergulho extremamente rápido a partir de aproximadamente 10.700 metros de altitude e pode ter sofrido esforços enormes durante a queda.

Learjet 60 N722BD
Learjet 60 N722BD | Mike Illien

Profundor controla movimento do nariz

O profundor é uma superfície móvel instalada na parte traseira do estabilizador horizontal. Quando o piloto movimenta o manche para frente ou para trás, essa superfície ajuda a fazer o nariz do avião subir ou descer.

No Learjet 60, o estabilizador horizontal fica no alto da cauda vertical, formando o conhecido desenho em T. O avião possui um profundor de cada lado.

Por isso, encontrar grande parte do profundor esquerdo longe da cratera é uma evidência importante. Tom Chapman, integrante do NTSB, afirmou que sem a superfície intacta os pilotos não conseguiriam tirar o avião do mergulho.

Mas há uma diferença fundamental entre saber que a peça se soltou antes do impacto e concluir que ela iniciou o acidente. Chapman disse que os investigadores ainda não sabem se a separação foi causa ou consequência das forças às quais o Learjet foi submetido.

Learjet 60
Learjet 60 | Social media

Imagens levantam outra dúvida

Vídeos gravados nos últimos segundos do voo acrescentaram outra pista. Em alguns quadros, é possível reconhecer as asas, a fuselagem e a cauda vertical do Learjet durante o mergulho, mas o estabilizador horizontal parece não estar mais no topo da empenagem.

Até agora, porém, o NTSB informou ter recuperado longe da cratera partes do profundor esquerdo. O órgão não confirmou que o estabilizador horizontal inteiro tenha sido encontrado separado dos destroços principais.

A distância em que os três pedaços foram localizados também pode ajudar a estabelecer quando ocorreu a separação. Eles estavam entre 2,1 km e 6,1 km do ponto de impacto.

Jeff Guzzetti, ex-investigador de acidentes da Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA), disse à Associated Press que acredita que a separação provavelmente ocorreu como consequência do mergulho em alta velocidade. Segundo ele, peças que tivessem se soltado quando o Learjet ainda estava em altitude de cruzeiro provavelmente seriam encontradas muito mais longe.

Possível tentativa de recuperação

Há outro momento do voo que chama a atenção dos especialistas. Dados de rastreamento indicam que, depois de despencar milhares de metros, o Learjet aparentemente interrompeu a descida por cerca de oito segundos quando estava próximo de 2.440 metros de altitude.

John Goglia, ex-integrante do NTSB, considera possível que uma tentativa forte de recuperação naquele momento tenha imposto cargas suficientes para provocar danos estruturais na cauda.

É apenas uma hipótese. A investigação ainda não estabeleceu que isso tenha acontecido, nem determinou por que o avião começou a cair.

Antes da perda de controle, a tripulação havia relatado formação de gelo e turbulência. Os pilotos solicitaram autorização para subir de aproximadamente 10.700 para 11.300 metros, mas menos de 30 segundos depois informaram que estavam descendo e declararam emergência.

Durante a queda, a tripulação também comunicou uma condição de excesso de velocidade. Em determinado momento, a razão de descida chegou a pelo menos 6.100 metros por minuto.

Nathalia Gadelha Filgueiras obteve o brevê de piloto antes de tirar carteira de habilitação
Nathalia Gadelha Filgueiras obteve o brevê de piloto antes de tirar carteira de habilitação | Reprodução

Copiloto tinha família brasileira

O Learjet 60 de matrícula N722BD havia decolado de Austin, no Texas, com destino a North Eleuthera, nas Bahamas. As nove pessoas que estavam a bordo morreram.

A copiloto era Nathalia Gadelha Filgueiras, de 20 anos. Nascida nos Estados Unidos e de família brasileira, ela havia começado a voar ainda durante o ensino médio e acumulava cerca de 1.300 horas de voo. Pouco antes do acidente, Nathalia chegou a enviar uma mensagem ao namorado relatando turbulência e formação de gelo.

O mau tempo é uma das frentes da investigação do NTSB. Os investigadores pretendem analisar as condições de gelo e turbulência encontradas pelo avião, seus sistemas e os destroços espalhados ao longo da trajetória.

Também será importante recuperar o gravador de voz da cabine. O impacto em alta velocidade abriu uma grande cratera na avenida e as fortes chuvas encheram o local de água, dificultando o trabalho das equipes que tentam recuperar componentes do Learjet.