Por que o programa europeu de caça avançado fracassou após quase uma década de discussões

Disputas por liderança, exigências militares conflitantes e a guerra na Ucrânia selaram o destino do projeto FCAS

conceito FCAS
conceito FCAS

A decisão de França e Alemanha de abandonar o desenvolvimento conjunto de um caça de nova geração encerra um dos programas de defesa mais ambiciosos da Europa após quase uma década de negociações.

Lançado em 2017 pelo presidente francês Emmanuel Macron e pela chanceler alemã Angela Merkel, o Future Combat Air System (FCAS) previa um caça de sexta geração apoiado por drones, sensores avançados e uma rede digital segura conhecida como combat cloud.

No entanto, o projeto acabou cada vez mais travado por disputas industriais, divergências políticas e prioridades militares distintas.

No centro do impasse estava a relação entre Dassault e Airbus, as duas empresas à frente do desenvolvimento do caça. A Dassault, fabricante do Rafale, insistia em manter a autoridade geral sobre o projeto da aeronave, alegando deter a expertise necessária para liderar o programa. Já a Airbus, representando interesses alemães e espanhóis, buscava papel maior e acesso ampliado à propriedade intelectual.

O impasse remete a episódios dos anos 1980, quando a França deixou o programa multinacional que resultou no Eurofighter Typhoon. Paris optou por desenvolver o Rafale de forma independente após discordâncias sobre requisitos de projeto e controle industrial.

O FCAS também enfrentou um problema mais fundamental: França e Alemanha queriam aeronaves diferentes.

Projeto do FCAS (Dassault)

Planejadores militares franceses preferiam um caça relativamente compacto, capaz de operar a partir do porta-aviões Charles de Gaulle e de seu futuro substituto. Já a Alemanha buscava uma aeronave maior, otimizada para missões de superioridade aérea de longo alcance e integração com operações da OTAN.

Essas diferenças se acentuaram após a invasão russa da Ucrânia em 2022.

Avanço acelerado dos drones

A guerra provocou uma mudança significativa na política de defesa alemã, encerrando décadas de restrição nos gastos militares. Berlim iniciou um amplo esforço de rearmamento e passou a mostrar menos disposição para ceder em requisitos militares ou participação industrial.

Destroços do Su-35S abatido na Ucrânia (Divulgação)

Ao mesmo tempo, avanços rápidos em drones, inteligência artificial e sistemas autônomos levantaram dúvidas sobre o papel de caças tripulados em conflitos futuros. O chanceler alemão Friedrich Merz chegou a questionar publicamente se ainda fazia sentido investir em um caça tripulado de sexta geração, considerando custos e prazos envolvidos.

Embora o projeto do caça pareça ter sido abandonado, alguns elementos do FCAS podem sobreviver. Relatórios indicam que tecnologias como o combat cloud, sensores e sistemas não tripulados podem seguir em desenvolvimento separado.

O colapso do programa de caça deixa a Europa sem um projeto unificado de aeronave de combate de sexta geração. Reino Unido, Itália e Japão seguem trabalhando no Global Combat Air Programme (GCAP), que pretende colocar um novo caça em operação na década de 2030.

Para a Europa, o fim do FCAS confirma a dificuldade de conciliar exigências militares nacionais com a cooperação industrial multinacional, mesmo em um contexto de aumento dos gastos em defesa e desafios crescentes à segurança.

Conceito do caça GCAP