Uma das raras fotos do Bandeirulha com pintura das forças da Argentina

Aviões da Embraer voam pelo mundo inteiro transportando passageiros e também estão presentes em forças aéreas de diversos países. No entanto, foram poucos os modelos dispararam suas armas. Em 2007, por exemplo, aeronaves Super Tucano da Força Aérea da Colômbia atacaram acampamentos das FARC com bombas de queda livre. O avião militar fabricado no Brasil também já enfrentou combates no Afeganistão.

Porém, essas não foram as primeiras operações militares que os aviões da Embraer executaram. O P-95 Bandeirulha, versão de patrulha naval do Bandeirante, participou de ações na Guerra das Malvinas, em 1982, a serviço da Força Aérea Argentina (FAA). Embora não tenha disparado nenhuma arma (o aparelho tampouco carregava armas), esse pode ser considerado o “batismo de fogo” de um avião fabricado pela empresa brasileira.

Ao combate

Enquanto tropas argentinas tentavam consolidar o domínio sobre as Malvinas, os aviões S-2E Tracker e P-2 Neptune da marinha argentina efetuavam os trabalhos de patrulhamento aéreo em busca de navios de guerra britânicos. E não eram poucos.

O Reino Unido moveu quase 2/3 de sua marinha em direção ao Atlântico Sul para retomar as ilhas. A força era composta por navios militares, submarinos (incluindo aparelhos com propulsão nuclear), quase uma centena de embarcações de transporte e reabastecimento e dois porta-aviões carregados com aviões de decolagem vertical Harrier, além de dezenas de helicópteros.

A esquadrilha argentina de exploração marítima era composta por dois P-2 Neptune (um dos aparelhos foi desativado durante o conflito) e quatro S-2E Tracker, da marinha, que podiam operar a partir do porta-aviões 25 de Mayo.

Grumman S-2E Tracker

Grumman S-2E Tracker da marinha argentina

Passado um mês de conflito, as forças argentinas começavam a sofrer suas primeiras quedas, enquanto os britânicos ficavam cada vez mais próximos de recuperar o arquipélago. Proibida de comprar armamentos, devido ao embargo internacional imposto pela OTAN, a Argentina apelou para fontes clandestinas para adquirir mais armamentos e nesse meio tempo também conseguiu alugar dois P-95 e 11 jatos Xavantes da Força Aérea Brasileira (FAB).

O Bandeirulha entrou em ação no auge da Guerra da Guerra das Malvinas, em maio de 1982. Os modelos foram pintados com as cores do Esquadrão de Vigilância e Patrulhamento Marítimo da FAA, com uma camuflagem cinza escuro. Operando a partir da Base Aérea Militar Rio Gallegos, no sul da Argentina, as duas aeronaves intercalaram turnos de patrulhamento com o único Neptune que ainda voava.

Os P-95 operam por mais de 200 horas na Guerra das Malvinas

Os P-95 operam por mais de 200 horas na Guerra das Malvinas

Inglaterra reclama

Os ingleses reclamaram do “aluguel” dos aviões e chamaram o embaixador do Brasil em Londres, Roberto Campos, para prestar explicações. Diplomático, Campos reafirmou a posição de neutralidade do Brasil durante o conflito e ofereceu emprestar dois P-95 e 11 Xavantes aos britânicos, caso também fossem requisitados.

Publicações inglesas sempre comentam o assunto em tom de desconfiança. Um dos pontos mais polêmicos é de que os Bandeirulhas usados nas Malvinas foram operados por tripulantes da FAB, já habituados ao avião e seus equipamentos de vigilância. Os britânicos questionavam que não haveria tempo hábil para treinar novas tripulações argentinas para o voar o avião da Embraer com o conflito em plena atividade.

Um estudo do historiador Moniz Bandeira sobre a Guerra das Malvinas afirma que seria necessário pelo menos dois anos para treinar plenamente uma tripulação para o Bandeirulha, ou então, com treinamento intenso, em alguns meses. Documentos da FAB consultados pelo pesquisador confirmam apenas que pilotos brasileiros participaram de ações de “treinamento intensivo”.

Durante os conflitos, os P-95 voaram mais de 200 horas com as cores da Argentina e não registraram nenhum problema. Em 1983 foram devolvidos à FAB, pois o comando argentino não ficou satisfeito com as capacidades do radar de busca marítima que equipava a aeronave na época.

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