O Concorde prefixo F-BVFD em 1981, antes de ser canibalizado pela Air France (Jean-Pierre Bazard)

Fora de serviço desde 2003, o supersônico Concorde pode ser visitado em vários museus pelo mundo, sobretudo no Reino Unido, França e EUA. Dos 20 aviões construídos, entre protótipos e unidades de série, restam 18 preservados, a maior parte em boas condições.

Um dos dois Concordes que não existem mais é conhecido, o prefixo F-BTSC, da Air France, que caiu após decolar do Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, no dia 25 de julho de 2000, no único acidente fatal do supersônico anglo-francês.

Mas é outro jato da Air France que desapareceu primeiro, o que exibia o prefixo F-BVFD, que deixou de voar em 1982, apenas cinco anos após ser entregue à companhia. Curiosamente, os motivos que levaram o Concorde de número de série 211 a ter se tornado sucata envolvem o Brasil.

Como se sabe, uma das rotas de estreia do avião foi o Rio de Janeiro em 1976. O voo da Air France fazia uma escala técnica no Dakar por conta da pequena autonomia do jato e foi justamente num pouso no país africano que o F-BVFD sofreu avarias na sua estrutura.

O Concorde no Galeão: rota de estreia do jato supersônico durou até 1982

Em novembro de 1977, poucos meses após entrar em serviço, o jato realizou o chamado “pouso duro” ao tocar na pista a uma razão de descida de 14 metros por segundo em vez de 10 m/s, seu limite estrutural. O choque com o solo acabou danificando o amortecedor de cauda, que lembra um pequeno trem de pouso localizado logo abaixo do leme.

Apesar desse incidente, o Concorde número 211 continuou voando, inclusive durante um curto período nos EUA com tripulação americana da Braniff, em voos subsônicos entre Dallas e Washington, de onde seguiam para a França com equipe francesa.

Em 1982, no entanto, a crise econômica brasileira teria motivado a Air France a encerrar os voos com o Concorde para o Rio. Com isso, a frota de sete aviões da companhia foi reduzida para apenas cinco, com dois exemplares desativados, justamente o F-BVFD e também o F-BTSC, o avião do acidente, mas que voltou ao serviço mais tarde.

O Concorde F-BVFD é desmantelado na França em 1994: único jato a virar sucata (Reprodução/Alonso Canapeli)

Ao relento

É a partir daí que o primeiro Concorde a sair de operação inicia sua triste trajetória rumo ao desmantelamento. Em vez de mantê-lo abrigado durante seu recesso, a Air France deixou o jato ao relento por anos e passou a canibalizá-lo, inclusive vendendo peças para a British Airways, a outra operadora da aeronave.

Ano após ano, o F-BVFD foi se transformando apenas numa casca oca até que em 1994 a Air France constatou que o avião estava com sua estrutura comprometida a tal ponto que uma eventual recuperação seria impossível.

Com apenas 5.814 horas de voo, o F-BVFD voou pela última vez em 27 de maio de 1982 e doze anos depois foi desmontado num pátio do Charles de Gaulle enquanto seus irmãos seguiam voando a poucos metros dali.

As partes do Concorde acabaram levadas para um ferro-velho próximo ao aeroporto de Le Bourget com exceção da seção do nariz, que foi arrematada por um bilionário americano por 300 mil francos, aproximadamente 420 mil reais em valores atuais. Diz-se que apenas uma parte da fuselagem ainda estaria abandonada no local.

O paradeiro do nariz do F-BVFD também é desconhecido, fazendo da aeronave a única “vítima intencional” na carreira do Concorde, um dos mais famosos e espetaculares aviões já criados. Difícil, portanto, entender como a Air France permitiu que uma raridade como essa fosse perdida dessa forma.

Felizmente, os 18 remanescentes tiveram destino mais nobre, embora a própria British Airways tenha deixado um exemplar, o G-BOAB, numa área remota do Aeroporto de Heathrow e, segundo relatos, sem os devidos cuidados de preservação – imagens do seu interior revelaram que a companhia chegou a usá-lo para armazenar papeis e formulários. A torcida desde já é para que seu destino final seja um museu e não outro ferro-velho, como o pobre F-BVFD.

Uma das seções da fuselagem do Concorde no ferro-velho francês (Reprodução/A. Fernandes)

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