Cinco Boeing 777 que chegaram ao Irã em circunstâncias incomuns em julho de 2025 estão no centro de um processo criminal em Madagascar envolvendo ex-integrantes do governo, autoridades de aviação e empresários.
As aeronaves, todas Boeing 777-200ER anteriormente operadas pela Singapore Airlines e depois pela NokScoot, apareceram no registro malgaxe pouco antes de serem transferidas para o Irã. Os movimentos dos aviões chamaram atenção internacional após os jatos decolarem do Camboja rumo ao Oriente Médio e desaparecerem dos serviços públicos de rastreamento de voos antes de chegarem ao Irã.
Uma nova investigação da Agence France-Presse (AFP), baseada em parte em documentos do processo criminal, informa que 28 pessoas respondem a processos em Madagascar por causa da operação. O caso inclui acusações de corrupção e autorização irregular das matrículas das aeronaves. Os réus contestam várias das acusações.
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O processo judicial acrescenta um novo capítulo a uma transferência que já vinha sendo investigada por autoridades de Madagascar e dos Estados Unidos, já que o Irã está sujeito a restrições para adquirir aeronaves comerciais fabricadas no Ocidente.
Cinco Boeing 777 ex-Singapore Airlines
Os cinco aviões foram fabricados como Boeing 777-212ER e entregues originalmente à Singapore Airlines. Posteriormente, foram transferidos para a NokScoot, companhia aérea de baixo custo da Tailândia, que encerrou as operações em 2020.

Após alguns anos sem operar em companhias regulares, as aeronaves reapareceram em 2025 com matrículas de Madagascar, apesar de não haver ligação operacional aparente com o país africano.
Os jatos receberam as matrículas 5R-RIS, 5R-ISA, 5R-HER, 5R-IJA e 5R-RIJ. A inclusão no registro malgaxe ocorreu antes da partida do Camboja, em 15 de julho.
Dados de rastreamento de voos mostraram as aeronaves seguindo para oeste antes que os transponders parassem de transmitir ao cruzar a região do Afeganistão. Em seguida, surgiram no Irã.
Os voos incomuns rapidamente levantaram suspeitas sobre o uso das matrículas malgaxes como etapa intermediária para transferir aeronaves fabricadas no Ocidente ao Irã.
Autoridades dos Estados Unidos posteriormente identificaram os cinco 777 como aeronaves transferidas ao Irã em violação às restrições de exportação norte-americanas. O Departamento de Comércio dos EUA afirmou que os jatos continham componentes de origem americana e estavam sujeitos às Export Administration Regulations.
As aeronaves depois receberam matrículas iranianas ao ingressarem na Mahan Air, com os 777 operando principalmente em rotas internacionais a partir de Teerã. O EP-MTA, por exemplo, tem voado principalmente para a China, além de operar para destinos como Phuket. Um dos cinco, o EP-MTC, foi destruído em Mashhad em março de 2026 durante os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã.

Um caminho conhecido para contornar sanções
As companhias aéreas iranianas dependem fortemente do mercado secundário para obter aeronaves, já que as sanções as impedem de comprar a maioria dos novos jatos Airbus e Boeing diretamente.
As transações frequentemente envolvem intermediários, matrículas temporárias e estruturas de propriedade em terceiros países. As aeronaves podem trocar de operador ou de matrícula várias vezes antes de chegar ao Irã, dificultando a identificação do destino final nas fases iniciais da negociação.
Os cinco 777 chamaram atenção por representarem uma adição significativa de grandes aeronaves de longo curso em uma única operação.
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O Irã acumulou frotas de Airbus e Boeing mais antigos por meio de aquisições semelhantes no mercado secundário, mas o 777 oferece capacidade de longo alcance muito superior à de muitos aviões adquiridos por operadores iranianos nos últimos anos.
A identidade do operador iraniano final inicialmente não estava clara. A Mahan Air, uma das maiores companhias aéreas privadas do Irã e alvo de sanções dos EUA, foi repetidamente associada às aeronaves após a chegada delas ao país.
O caso em Madagascar agora desloca o foco dos voos em si para o mecanismo que permitiu que as aeronaves obtivessem matrículas antes de chegarem ao Irã.
O processo relacionado à transferência está previsto para ser retomado em Madagascar em 27 de outubro.



