Um turboélice Xian MA60 da Nepal Airlines (Rui Miguel – Wikimedia Commons)

A Nepal Ailines aterrou nesta semana todas as suas aeronaves de origem chinesa. Isso inclui dois Xian MA60 e quatro Harbin Y-12, ambos modelos turboélices. Segundo a media nepalesa, os aviões não provaram ser benéficos para a empresa.

A companhia aérea de bandeira do Nepal, fundada em 1958, adquiriu as seis aeronaves em 2014. O fato ainda ficou lembrado como a primeira aquisição de aviões da empresa em 28 anos.

De acordo com o Kathmandu Post, a Nepal Airlines abriu mão dos aviões chineses na esperança de reduzir suas perdas financeiras durante a pandemia da COVID-19. Além disso, a publicação menciona reclamações sobre o Y-12, que tem sido questionado por sua funcionalidade e desempenho limitados.

O jornal nepalês afirma que a compra dos aviões foi um acordo entre os governos da China e do Nepal. A negociação começou em novembro de 2011, quando equipes técnicas de Bangladesh e Nepal visitaram a China para avaliar os modelos MA60 e Y-12.

A equipe de Bangladesh considerou os aviões “inadequados”, enquanto o Nepal fechou a compra de seis aparelhos com o grupo chinês AVIC (controlador da Harbin e da Xian), em 2012.

Para Achyut Pahari, membro do conselho da Nepal Airlines citado pelo jornal, a compra dos aviões chineses foi a pior decisão da transportadora.

“Foi motivado pela ganância e pelas comissões. Eles [a equipe técnica] enviaram um relatório. O Y-12 foi comparado com o Twin Otter e o MA60 foi comparado com o ATR-72. A Nepal Airlines está pagando o preço agora. Pilotar esses aviões significa jogar fora um bom dinheiro depois”, reclamou Pahari.

O Harbin Y-12 é produzido na China desde 1985 (Shadman Samee – Wikimedia Commons)

Os dois aviões poderiam ser ideais para operar no Nepal, sobretudo o Y-12, voando para os desafiadores aeroportos construídos pelas montanhas do país, o que justamente é uma das especialidades da Nepal Airlines. Mas não deu certo.

Em pouco tempo, os Y-12 na Nepal Airlines estiveram envolvidos em dois incidentes sem vítimas e a imprensa local afirma que a empresa não tem pilotos devidamente treinados para operar os aviões. Quanto ao par de MA60, um dos aparelhos está parado há três anos.

Que aviões são esses?

O Xian MA60 é um turboélice bimotor projetado para receber até 60 passageiros. É um avião para rotas domésticas e de curta distância, com capacidade semelhante a do popular ATR 72. Já o Harbin Y-12, também bimotor turboélice, é uma aeronave de asa alta e trem de pouso fixo que acomoda até 17 pessoas e capaz de operar aeroportos pequenos e com pouca estrutura.

O Y-20 é um avião de certa forma consagrado na China, operado pelas forças armadas e na aviação regional local. O avião é produzido pela Harbin Aircraft desde 1985 e já foi exportado para mais de 20 países. Em 2018, uma importadora anunciou o bimotor chinês no Brasil e aventou até produzir o modelo no país.

A versão de exportação do Y-12 é chamada pelo fabricante de "Twin Panda" (Divulgação)

A versão de exportação do Y-12 é chamada pelo fabricante de “Twin Panda” (Divulgação)

Concorrente do ATR 72, embora seu design e desempenho lembre mais o de um antigo Fokker 50, o MA60 é produzido pela Xian Aircraft desde o ano 2000. Acumula pouco mais de 100 unidades entregues e tem mais de 200 pedidos em espera. Segundo dados do fabricante, o avião pode receber até 62 passageiros e tem alcance de 1.500 km.

Desconhecido no Ocidente, o MA60 tem um histórico operacional questionável, com uma série de incidentes causados por falhas mecânicas. Em 2016, o Wall Street Journal apurou que dos 57 turboélices exportados até janeiro daquele ano, pelo menos 26 estavam armazenados por preocupações de segurança e problemas de manutenção e desempenho. Além disso, outros seis aparelhos foram danificados e não poderiam ser reparados.

O bimotor chinês não é bem-vindo na Nova Zelândia. Em 2013, o governo do país emitiu uma declaração aconselhando os turistas a não viajarem nos MA60 operados pela Real Tonga, alegando que “esta aeronave esteve envolvida em um número significativo de acidentes nos últimos anos” e o avião “não é certificado para voar na Nova Zelândia ou em outras jurisdições comparáveis”.

(Dmitry Malov – Wikimedia Commons)

O Real Tonga, empresa aérea do Reino de Tonga, deixou de operar o MA60 no início de 2015, depois que o governo do país aprovou uma legislação que adotava os regulamentos de aviação civil da Nova Zelândia.

Na reclamação mais recente sobre o MA60, a Autoridade de Aviação Civil dos Camarões suspendeu o certificado de aeronavegabilidade do avião chinês após um incidente grave, em 26 de março de 2019. Um dia depois a aeronave foi autorizada a voar novamente.

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