Concepção artística do novo turboélice de passageiros da Embraer (Embraer)

Concepção artística do novo turboélice de passageiros da Embraer (Embraer)

Faz tempo que o mercado de aviação não recebe uma novidade na categoria dos turboélices de passageiros. Os últimos produtos lançados nesse filão foram os modelos da ATR, introduzidos no final da década de 1980 e hoje os líderes absolutos no segmento que no passado também teve a participação da Embraer.

A fabricante brasileira deixou a categoria dos turboélices de passageiros em 2003, quando encerrou a produção do EMB-120 Brasília e passou a focar seus esforços em projetos de aeronaves comerciais com motores a jato. Deu certo e hoje a Embraer é a terceira maior fabricante de aviões comerciais do mundo e lidera a categoria dos jatos regionais para até 150 ocupantes.

Nos últimos dois anos, a Embraer vem estudando o mercado e aventa um retorno ao segmento onde iniciou suas atividades há mais de 50 anos. O projeto de um novo turboélice era uma das possibilidades sugeridas para a joint venture que a empresa formaria com a Boeing, mas o acordo foi cancelado no primeiro semestre deste ano.

Em declarações recentes, executivos da Embraer demonstram que a empresa tem a disposição e o conhecimento para executar um novo programa, mas falta o fôlego financeiro. Para o projeto ir adiante, a fabricante busca um parceiro ou “dois ou três sócios”, como disse recentemente o presidente e CEO da Embraer, Francisco Gomes Neto, em entrevista ao Aviation Week.

“Estamos procurando parceiros para nos ajudar a desenvolver (o turboélice). Acreditamos que o projeto tem futuro, mas neste momento, realmente precisamos de um parceiro”, disse Gomes Neto.

Em entrevista ao podcast do Air Finance Journal, Rodrigo Silva e Souza, vice-presidente de marketing da Embraer Aviação Comercial, reforçou que a empresa vê o segmento de turboélices de forma promissora. Antecipando a visão da empresa, o executivo afirmou que o avião é pensado para ser mais eficiente e oferecer maior conforto aos passageiros, em níveis semelhantes ao de um jato.

“Atualmente, uma grande parte do mercado de turboélices tem restrições por que passageiros não gostam e não se sentem confortáveis (em turboélices), ou acham barulhentos e se incomodam com a vibração. Muitas dessas coisas podem ser significativamente aprimoradas em um novo avião”, contou Souza.

Turboélice disruptivo

Há quem diga que a Embraer tem uma “bola de cristal” escondida em São José dos Campos (SP) onde ela descobre as oportunidades certas de investimento. Todos os produtos da empresa, dos jatos executivos e comerciais até os modelos militares (ou até de uso agrícola), são referências nas categorias em que competem no mercado.

Todo o portfólio da Embraer é composto por aeronaves “disruptivas”, palavra repetida como um mantra pelos corredores da Embraer. São produtos que rompem com o tradicional oferecendo alta performance e experiências diferenciadas, mesmo que nos mínimos detalhes.

Turboélice EMB-120 Brasília

O EMB-120 Brasília foi produzido entre 1983 e 2001; Embraer entregou 354 unidades (Embraer)

Reunindo toda esse conhecimento e faro para inovações, a Embraer planeja um turboélice totalmente diferente dos que são oferecidos hoje no mercado. Além doa ATR, outra rara opção na categoria é o canadense Dash-8 (ex-QSeries da Bombardier).

“Planejamos um turboélice grande, maior do que qualquer outro produto disponível atualmente. Estamos falando de uma capacidade entre 70 e 100 assentos. Ele será significativamente mais econômico. Pensamos em custos operacionais entre 15% e 20% mais baixos comparado ao avião que é referência no mercado atualmente”, disse o VP de marketing da Embraer.

“Brasilhão”

Pelas redes sociais, a Embraer divulgou ilustrações de um turboélice de passageiros em post convidando seus seguidores a escutarem a entrevista de Rodrigo Silva e Souza ao podcast do Air Finance – em edição patrocinada pela Embraer.

As imagens mostram um turboélice de fuselagem delgada com 21 janelas. O tamanho sugere um avião com capacidade para 70 passageiros, como o ATR 72. Para embarcar até 100 ocupantes, como citou Souza, talvez seja necessário uma versão ampliada. As ilustrações também apresentam uma aeronave com asa baixa e cauda em T, repetindo o formato clássico usado no Brasília.

Ilustração do novo turboélice de passageiros da Embraer

Ilustração do novo turboélice de passageiros da Embraer (Embraer)

Pelo teor das declarações recentes de executivos e a iniciativa da empresa em comentar sobre o tema nas redes sociais, o novo turboélice é um assunto sério na Embraer. Engenheiros da empresa já criaram até um apelido informal para o avião: “Projeto Brasilhão”.

Para sair do papel, a Embraer precisa de um parceiro investidor e um produto revolucionário. Não basta superar as capacidades do ATR. Um novo competidor nessa categoria precisa oferecer uma performance e eficiência avassaladoras ao ponto de convencer as companhias a trocarem seus aviões antigos pelo novo produto, mesmo se ele for mais caro.

Aos que esperam pelos aviões elétricos e híbridos, o uso de sistemas de motorização alternativos ou complementares não devem aparecer no turboélice de última geração pretendido pela Embraer.

O VP de marketing da Embraer acredita que novas tecnologias de propulsão que estão prestes a surgir serão usadas em primeiro lugar em aeronaves com até 50 assentos. A afirmação vai de encontro com declarações do presidente da companhia, Francisco Gomes Neto, que considerou o futuro turboélice comercial um avião convencional.

Embraer Bandeirante - Força Aérea Brasileira

De volta às raízes: próximo produto da Embraer pode ser um turboélice (Embraer)

Todavia, a Embraer está sim de olho nos sistemas de propulsão mais “ecológicos”. A empresa está conduzindo um estudo em parceria com a Força Aérea Brasileira (FAB) sobre um avião utilitário de pequeno porte com motorização híbrida.

No futuro, uma aeronave híbrida de pequeno porte pode ocupar o posto dos antigos Bandeirantes da FAB. Outro possibilidade é uma versão “commuter” de passageiros para atender o mercado sub-regional.

A Embraer tem a chance de projetar o que pode ser um dos últimos turboélices de propulsão convencional da aviação comercial. Uma mudança radical na categoria seria o emprego de controles fly-by-wire no lugar dos antigos sistemas mecânicos, além de soluções para reduzir os níveis de ruído e vibração na cabine. Imaginando um produto altamente avançado para acompanhar o mercado nas próximas décadas, não seria demais incluir estruturas e asas de material composto.

O custo de um programa desse porte pode bater nos US$ 10 bilhões e a execução e certificação leva tempo. Sendo otimista, considerando a agilidade de desenvolvimento da Embraer, o turboélice de última geração poderia ficar pronto até o final desta década.

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