Opinião: A disputa pela Avianca e o Equilíbrio de Nash

Disputa de interesses pelos espólios da companhia em recuperação judicial é danosa para todo o mercado de aviação comercial
A maior parte dos jatos comerciais que voam no Brasil são alugados (Divulgação)
A maior parte dos jatos comerciais que voam no Brasil são alugados (Divulgação)
A maior parte dos jatos comerciais que voam no Brasil são alugados (Divulgação)
A concessão da Avianca Brasil para operar no Brasil foi suspensa pela ANAC (Divulgação)

Apesar de sua formação em matemática, o norte-americano John Forbes Nash (1928-2015) ganhou seu Nobel em Economia (1994) por seus estudos baseados na Teoria dos Jogos, conceito desenvolvido por outro matemático, o húngaro John von Neumann (1903-1957). Mas o que os ensinamentos desses dois matemáticos têm a ver com o caso da disputa pelo espólio da Avianca Brasil? Leia e texto a seguir e descubra!

A Teoria dos Jogos estuda as situações em que jogadores fazem suas escolhas com base na escolha do(s) outro(s) jogador(es). Trazendo essa teoria para o caso da Avianca, podemos dizer que a escolha da Azul em comprar a empresa, afetou diretamente a escolha da Latam e da Gol, que optaram por fatiar a empresa em sete pequenas unidades para não permitir que a Azul levasse sozinha a Avianca. Tanto a escolha da Azul como da Latam e da Gol acabaram por afetar, também, a decisão da Swissport, que pediu o cancelamento do leilão de venda das sete Unidades Produtivas Isoladas (UPIs). Ao cabo dessa disputa de interesses, perderam todos. Os jogadores interessados, o mercado, os passageiros e, principalmente, os milhares de colaboradores da Avianca.

Em recente entrevista publicada na Folha de São Paulo, o presidente da Latam afirmou que as declarações do presidente da Azul de que Latam e Gol se uniram para acabar com a Avianca, maculam a imagem do setor aéreo e o levam ao descrédito, fazendo parecer que o setor não tem regras. Entretanto, o que leva o passageiro a pensar que o setor não é sério é o fato de ele se dirigir para o aeroporto, com o bilhete comprado, e não ter avião para fazer o seu voo. Pela proposta inicial da Azul, tanto os voos como os empregos seriam mantidos.

Mas o que nos interessa mesmo é analisar, sob a perspectiva da teoria de Nash, se seria possível preservar os 5.500 colaboradores da Avianca. Até o asfalto da pista de pouso do aeroporto de Brasília sabe que o Brasil ostenta o triste número de 13 milhões de desempregados e que, pela proporção atual de geração de empregos, levaríamos 100 meses (13.000.000 de desempregados/130.000 novas vagas em abril) para zerar o estoque de desempregados no país. Evidentemente nenhum desempregado pode esperar por até mais de oito anos até voltar a trabalhar.

Aí é que entra a teoria que ficou conhecida como o Equilíbrio de Nash, muito bem retratada na famosa cena do bar do filme “Uma mente brilhante”, vencedor do Oscar de melhor filme em 2002. Nash e seus amigos estão num bar quando entra uma linda loira acompanhada de quatro amigas. Enquanto seus amigos discutem sobre quem conseguiria atrair a loira, Nash conclui que eles deveriam fazer o oposto: ignorá-la. “Se todos forem atrás da loira”, ele diz, “bloqueamos uns aos outros e nenhum de nós irá tê-la. Então, vamos atrás de suas amigas”. Segundo Nash, assim nenhum amigo irá atrapalhar a estratégia do outro e aquele seria o único jeito de vencer a disputa.

Assim, ao invés de todos os jogadores (Azul, Gol e Latam) disputarem a linda loira (Avianca), uma opção para todos saírem ganhando seria a formação de um consórcio, em que os interessados ficassem com o espólio da Avianca. Dessa forma, os participantes do jogo teriam algum ganho, mesmo que parcial, em vez de todos perderem. Isso já foi feito no passado, quando um consórcio criado em 1959 pela Varig, Cruzeiro do Sul e Vasp administrava os voos dessas companhias entre Rio de Janeiro e São Paulo.

Quem sabe não seja uma opção? Nash já provou que funciona.

Sady Bordin é presidente do Instituto Eu Consigo e autor do livro “Vencendo a Crise – 100 dicas para conseguir, manter ou trocar de emprego”, da Editora Best-Business.

Veja mais: Azul foi a companhia que mais cresceu com a crise da Avianca

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AirWay mito
AirWay mito
2 anos atrás

Que teoria linda. Cade um exemplo prático pra aviação? Ficar só falando do teorema é fácil, difícil é colocar na prática em números que demonstrem real aplicação.

Fica dica, mesmo sabendo que vocês não sabem nem por onde começar a aplicar

ELISMARE DOS SANTOS
2 anos atrás

Quero e saber de quandoi vao me reembolsar pelo preuizo que tive por voo. Cancelado da avinca ,a audiencia de conciliação foi hj e nao tiveram bem consideração de mandar um representante,estão nem ai com os clientes,mas vou ate as ultimas consequências

julio Cordeiro
julio Cordeiro
2 anos atrás

Somente a Azul tinha interesse pelo espólio – Latam e Gol tinham o interesse de atrapalhar os planos da Azul. Deu no que deu, a Avianca vai falir, empregados perderão seus empregos, o preço da passagem já subiu, os credores vão todos ficar a ver navios e a Anac vai redistribuir os slots como quiser…

Alexandre
Alexandre
2 anos atrás

Consórcio?!
Você já viu a quanto foi o preço da ponte aérea?
A diferença entre GOL e LATAM nesses trechos é mínima. Os números são tão parecidos que até parecem empresas do mesmo grupo. Curioso, não?!
As duas empresas já estão operando como irmãs na ponte aérea e a justiça brasileira, assim como, os órgãos reguladores insistem em operar com lentidão extrema sem explicação.
A ineficiência e burocracia faz uma minoria milionária no Brasil.
Os únicos que perderam foram os passageiros e muito.
Enquanto isso, centenas de consumidores são enganados com migalhas chamadas de Mega Promo ou passagem a preço de cerveja que poucos conseguem comprar.
A desculpa dos preços altos é que tudo no Brasil é caro, mas quando a ocupação das aeronaves cai… então, vemos os preços caírem como nunca.
Esse é o Brasil que eu não quero, mas tenho que conviver.
Aguardando sentado pra ver se as empresas estrangeiras conseguirão entrar nesse mercado mercenário brasileiro e chacoalhar as velhas estruturas combinadas.
Está difícil ver o dia em que o brasileiro viajará mais de avião e a preços dignos ou vamos continuar pagando por uma ponte aérea o mesmo que se paga para ir e voltar de Miami?! Faça uma pesquisa para viajar na ponte aérea daqui um ou dois dias e compare você mesmo.

Felipe Centola
Felipe Centola
2 anos atrás

Simples, o pseudo presidente que colocaram na Latam Brasil, não sabe administrar uma frota de 3 Unos.

Luis bohemia
Luis bohemia
2 anos atrás

Uma coisa 1) isto daria certo se ainda existisse a empresa..mas perderam os slots, não tem aeronaves p operar (as q sobraram a Airbus já pediu e a Avianca Colômbia quer a dela de volta tb), não tem mais a marca fantasia (avianca holding cancelou), as dividas se acumulam e o passivo a muito cobriu os ativos… neste caso infelizmente qualquer ação é tarde demais p uma reversão de um quadro de tão grave desustrutura. A chance seria no meu ver 2
A) fatiar a empresa em parte boa e ruim e tentar salvar a boa. Tal como a varig
B) alguém entrar no cenário injetar muita grana, apresentar um plano de negócio viável p os credores, o q permitiria o arrolamento das dividas, e assumir a gestão do negócio..talvez c a absorção por outra.
O q temos contra os planos
A) a empresa praticamente não tem patrimônio que se aproveite ou que tenha uma força de mercado p justificar uma intervenção do governo p tal caminho, c foi c a varig ( a tendência de altas nas tarifas acredito q não seja revertido a curto prazo sem novos players q sejam efetivamente low fare)
B) a imagem da empresa está muito desgastada devido aos problemas apresentados e sua participação de mercado não é em números globais tão relevantes assim para justificar neste momento está ação…pois uma vez que parou de voar é muito mais difícil voltar a rodar.
E qto ao amigo Eslimare infelizmente é isto, a empresa não tem funcionários ou recursos para irem mesmo…e na fase que está mesmo que obtenha ganhos a probabilidade é q seu processo ganho entre na fila da falência e jamais seja pago (primeiro governo e funcionários) por lentidão do judiciário e o volume de ativos próprios x dívidas

Marcello
Marcello
2 anos atrás

Fantástica a matéria! A muito tempo não lia uma forma tão bacana na imprensa nacional! Parabéns !

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