Chuck Yeager, o primeiro ser humano “supersônico” do mundo, morre aos 97 anos

Veterano da Segunda Guerra, piloto de testes dos EUA colecionou recordes, entre eles quebrar a barreira do som em 1947 a bordo do avião-foguete X-1
Chuck Yeager a bordo do X-1 Glamorous Glennis (USAF)
Chuck Yeager quebrou a barreira do som em 14 de outubro de 1947 a bordo do avião-fogute Bell X-1 (USAF)

Lenda da aviação, Charles “Chuck” Elwood Yeager faleceu nesta terça-feira (08) em Los Angeles (EUA) aos 97 anos. Em meio a inúmeras realizações, o piloto norte-americano tem como principal feito superar a barreira do som a bordo do avião-foguete Bell X-1, tornando-se o primeiro ser humano “supersônico” da história.

Mas definir a longa carreira de Chuck Yeager apenas por esse fato histórico é uma enorme injustiça. O piloto, nascido em fevereiro de 1923 no estado da Virginia do Oeste, teve uma carreira recheada de episódios espetaculares e arriscou sua vida tantas vezes que soa como ironia ter vivido quase 100 anos.

O norte-americano se alistou na USAAF em 1941, poucos meses antes do ataque à Pearl Harbour, como mecânico de aviões, mas logo recebeu treinamento de voo por conta da entrada dos EUA na Segunda Guerra. Em 1943, Yeager ficou baseado na Inglaterra para combater a Alemanha nazista a bordo do caça P-51 Mustang “Glamorous Glen”, em homenagem à sua então namorada e futura esposa Glennis Yeager (falecida em 1990). No ano seguinte, em sua oitava missão, Chuck foi abatido sobre a França, mas conseguiu escapar pela Espanha com a ajuda da resistência local.

Ao voltar à Inglaterra, no entanto, o piloto conseguiu quebrar uma regra que impedia que ele voltasse ao combate, sob risco de num segundo abate entregar posições da Resistência Francesa. Com a intervenção do então General Dwight Eisenhower, Yeager voltou a voar o P-51 e com isso colecionou recordes, como abater cinco aviões inimigos em uma única missão. No fim da Guerra, ele colecionava 11 aviões derrubados, incluindo o jato Me.262.

Piloto de testes

Foi por conta de sua experiência como mecânico de aviões e o interesse pela parte técnica da aviação que Chuck transformou-se em piloto de testes da USAF na base aérea de Edwards, no deserto da Califórnia (na época chamada de Muroc). Yeager então foi indicado pela força aérea para testar o avião-foguete XS-1, da Bell, que tentava romper a barreira do som, sendo lançado de um bombardeiro B-29. No entanto, pouco antes do histórico voo, em 14 de outubro de 1947, ele caiu de um cavalo e quebrou duas costelas.

Para não perder a oportunidade, Chuck escondeu o fato de seus superiores e sofreu para embarcar no cockpit apertado do X-1, batizado como “Glamorous Glennis”. A aeronave de cor laranja foi lançada e pela primeira vez fez soar o famoso “boom supersônico” sobre o lago seco de Rogers no deserto de Mojave.

A revelação da experiência bem sucedida só ocorreu em junho de 1948, colocando Chuck Yeager nos anais da história, mas mesmo assim ele seguiu em sua carreira de piloto de testes, voando outros protótipos em velocidades cada vez maiores. O risco, inerente à profissão, quase cobrou seu preço em 1953 quando, ao perder controle do X-1A, despencou 16.000 metros antes de conseguir estabilizar a aeronave.

Chuck Yeager ainda encontrou tempo para comandar esquadrões de caças nos EUA e Europa e uma ala tática baseada nas Filipinas na época da Guerra do Vietnã. No entanto, a paixão pelo voo de teste persistiu até 1963 após voos nos jatos NF-104 e o protótipo sem asas M2-F1, da NASA.

 

Já aposentado, Chuck Yeager voou a bordo do caça F-15 nas comemorações dos 50 anos da quebra da barreira do som (USAF)

Exploração espacial

Na lista de feitos de Yeager, no entanto, faltaram ao menos dois fatos, pilotar o avião experimental X-15, o mais veloz artefato humano a voar na atmosfera, e participar do programa espacial americano.

Já com patente mais alta, ele participou do programa X-15 selecionando pilotos que voaram no modelo hipersônico, entre eles o astronauta Neil Armstrong, o primeiro ser humano a pisar na Lua. Na época, os EUA estavam na corrida contra a União Soviética para chegar ao satélite, com os programas Mercury, Gemini e Apollo, mas Chuck Yeager seguia longe da NASA, em missões da Força Aérea.

A importância do piloto para a aviação foi retratada no livro “Os Eleitos”, que mais tarde ganhou um filme baseado nele (1983), com o ator Sam Shepard assumindo seu papel. A história abordava os desafios da carreira de pilotos de testes e dos primeiros astronautas a serem lançados nas cápsulas Mercury.

Poucos anos antes, em 1975, ele se aposentou da USAF como brigadeiro general aos 52 anos. Desde então, Yeager foi homenageado e venerado por décadas. Até pouco tempo, o veterano piloto ainda participava de muitos eventos e chegou a voar em caças F-15 durante comemorações do aniversário do primeiro voo supersônico.

Com seu jeito simples e direto, Chuck explicou a um seguidor de sua conta no Twitter porque escolheu ser piloto: “Eu estava na manutenção e vi que os pilotos tinham lindas garotas em seus braços e não tinham as mãos sujas, então me inscrevi”.

Em 2018, Chuck Yeager foi homenageado pelos 95 anos na base aérea de Luke (USAF)

Veja também: Concorde: 50 anos do supersônico mais elegantes dos céus

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  1. Boa noite a todos !
    Lí o livro dele e lá ele relata que, quando era piloto de caça, sempre ia na frente do esquadrão porque podia avistar aviões alemães a mais de 80 Km de distância, graças à sua aguçadíssima e privilegiada visão !!
    Descanse em Paz, Chuck Yeager !!!

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