Um Airbus A320 com o nariz pontudo de um caça Eurofighter Typhoon começou a operar como laboratório voador para o desenvolvimento de um novo radar militar. A fabricante europeia anunciou na sexta-feira (6) que a aeronave concluiu os voos de validação na Alemanha e está pronta para realizar os ensaios do equipamento que será instalado nos caças alemães e espanhóis.

O avião, de matrícula D-ATRA, pertence ao Centro Aeroespacial Alemão (DLR) e recebeu uma seção dianteira semelhante à do Eurofighter, substituindo o nariz arredondado característico dos A320 comerciais.

O Airway mostrou o primeiro voo do A320 modificado em janeiro de 2025. Na ocasião, o avião ainda passava por testes iniciais, sem utilizar plenamente o novo radar. Desde então, a Airbus Defence and Space realizou ensaios em solo e em voo para validar o funcionamento dos equipamentos instalados.

O radar em desenvolvimento é o ECRS Mk1, do tipo AESA, que utiliza uma antena de varredura eletrônica ativa. Diferentemente dos radares convencionais, ele pode direcionar seus feixes eletronicamente, sem depender apenas do movimento mecânico da antena.

Siga AIRWAY: WhatsApp | Instagram | LinkedIn | Twitter | Facebook

Segundo a Airbus, os voos mais recentes, realizados a partir de Manching, na Alemanha, confirmaram o funcionamento conjunto do radar e dos sistemas instalados no A320. Com essa etapa concluída, os engenheiros poderão aprofundar os testes de hardware, software e diferentes modos de operação.

Jato A320 voava em rotas turísticas antes de virar laboratório
Jato A320 voava em rotas turísticas antes de virar laboratório | Airbus

Por que usar um avião comercial?

À primeira vista, parece estranho utilizar um A320 para desenvolver equipamentos destinados a um caça supersônico. Mas há vantagens importantes nessa escolha.

O avião comercial pode permanecer mais tempo no ar, transportar vários engenheiros e acomodar equipamentos que dificilmente caberiam dentro de um Eurofighter. Também permite modificar e avaliar os sistemas experimentais sem depender da disponibilidade de um caça de testes.

Para receber o radar, a Airbus precisou reforçar a fuselagem dianteira do A320 e instalar centenas de metros de cabos, sistemas de refrigeração e equipamentos de alimentação elétrica.

No interior, estações de trabalho permitem que os engenheiros acompanhem os dados do radar durante os voos, analisando seu comportamento e fazendo ajustes no programa de desenvolvimento.

O ECRS Mk1 está sendo desenvolvido para melhorar as capacidades de detecção e acompanhamento de alvos dos Eurofighters, tanto em missões ar-ar quanto ar-solo. O programa envolve a Airbus, a alemã Hensoldt e a espanhola Indra.

O equipamento será utilizado em caças encomendados pela Alemanha nos programas Quadriga e Tranche 5 e pela Espanha no programa Halcón. Também estão previstas modernizações de aeronaves já em serviço.

Aeronave é plataforma de testes para radar militar
Aeronave é plataforma de testes para radar militar | Airbus

A320 já transportou turistas pela Europa

Antes de ganhar um nariz de caça, o D-ATRA teve uma carreira convencional como avião de passageiros.

Fabricado em Toulouse, na França, o A320-232 de número de série 659 realizou seu primeiro voo em 24 de janeiro de 1997. Dois meses depois, foi entregue à companhia alemã Aero Lloyd, recebendo a matrícula D-ALAE.

Durante os anos seguintes, transportou passageiros principalmente em rotas turísticas. O avião também passou por períodos de arrendamento à americana Ryan International Airlines.

Após o encerramento das atividades da Aero Lloyd, em 2003, o A320 passou para a austríaca Niki, companhia fundada pelo ex-piloto de Fórmula 1 Niki Lauda. Na nova empresa, recebeu posteriormente a matrícula OE-LOE.

Em 2006, o DLR adquiriu o avião para transformá-lo em uma plataforma de pesquisas aeronáuticas. A conversão incluiu a instalação de instrumentos de medição, sistemas de aquisição de dados, antenas e equipamentos adaptáveis a diferentes experiências.

Trabalho foi iniciado após quase dois anos
Trabalho foi iniciado após quase dois anos | Airbus

O A320 passou a operar regularmente como aeronave de pesquisa no final de 2008, recebendo a designação ATRA, sigla de Advanced Technology Research Aircraft.

Desde então, participou de estudos sobre aerodinâmica, ruído, combustíveis alternativos, sistemas de navegação e tecnologias de cabine. Também foi utilizado em pesquisas sobre turbulência de esteira, fenômeno que influencia a separação entre aeronaves durante pousos e decolagens.

Entre as experiências realizadas no avião estão testes com células de combustível e um sistema elétrico para movimentar o trem de pouso dianteiro, permitindo que aeronaves se desloquem pelo solo sem utilizar seus motores principais.

Agora, quase 30 anos após sua fabricação, o antigo avião de passageiros passou a trabalhar no desenvolvimento de equipamentos militares.

Boeing 757 também ganhou nariz de caça

O Boeing 757 N757A recebeu equipamentos do F-22 Raptor e serviu como laboratório voador para o desenvolvimento dos sistemas eletrônicos do caça americano.

A utilização de aviões comerciais para testar sistemas de caças não é novidade. A Boeing fez algo semelhante com um 757 que ajudou no desenvolvimento do F-22 Raptor, caça furtivo da Força Aérea dos Estados Unidos.

O avião utilizado foi justamente o primeiro Boeing 757 construído, em 1982, originalmente empregado como protótipo durante o desenvolvimento do modelo comercial.

Boeing 757 com radar do F-22 Raptor
Boeing 757 com radar do F-22 Raptor

Posteriormente, a aeronave de matrícula N757A foi transformada em um laboratório voador para testar os aviônicos do F-22.

O 757 recebeu o radar do caça na parte dianteira da fuselagem, alterando o formato do nariz. Outra modificação bastante visível foi a instalação de uma estrutura acima da cabine de comando, que reproduzia a posição de determinados sensores presentes nas asas do Raptor.

Dentro do Boeing havia estações de trabalho e uma cabine simulada do F-22, permitindo que os engenheiros avaliassem a integração dos sistemas eletrônicos em condições reais de voo.

A proposta era semelhante à adotada agora pela Airbus: utilizar uma aeronave maior, com mais espaço e autonomia, para realizar testes que seriam mais difíceis ou caros diretamente em um caça.

Há, porém, uma diferença entre os dois projetos. O Boeing 757 foi empregado no desenvolvimento de um conjunto mais amplo de sistemas eletrônicos do F-22, incluindo sensores e equipamentos de missão. O A320 do DLR tem uma tarefa mais específica, concentrada no radar ECRS Mk1 do Eurofighter.