Executivos da Airbus e da BAE Systems devem se reunir na próxima semana para discutir uma possível participação do grupo aeroespacial europeu no Global Combat Air Programme (GCAP), movimento que pode ser decisivo para definir se a Alemanha ingressará no projeto de caça de nova geração liderado por Reino Unido, Itália e Japão.
Quatro fontes próximas ao assunto disseram ao Financial Times que as empresas vão discutir possíveis formas de cooperação em sistemas aéreos de combate do futuro. As conversas devem abordar tanto o caça em si quanto aeronaves colaborativas e a chamada “nuvem de combate”, que conectará aeronaves, sensores e outros ativos.
O encontro transfere o debate sobre a possível participação alemã do âmbito governamental para as negociações industriais necessárias para viabilizá-la.
A Alemanha vem avaliando alternativas após o rompimento da parceria do Future Combat Air System (FCAS) com a França, cujo foco era um caça de nova geração para substituir o Eurofighter Typhoon e o Dassault Rafale a partir de 2040.
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O Reino Unido já sinalizou abertura para a participação alemã no GCAP. Londres e Berlim também discutiram requisitos e divisão de trabalho, mas a entrada da Alemanha exigiria acordo com Itália e Japão, além de mudanças em uma estrutura industrial que já está em formação.

Um novo parceiro de peso
A Alemanha poderia ampliar significativamente a base econômica e industrial do GCAP. Sua participação agregaria outro grande orçamento de defesa, uma potencial demanda da Luftwaffe e empresas como Airbus e MTU Aero Engines a um programa já apoiado por três grandes economias.
Isso também permitiria diluir os custos de desenvolvimento em uma base produtiva maior. Programas de caças de nova geração envolvem não apenas uma nova aeronave, mas também motores, sensores, armamentos, aeronaves autônomas e a infraestrutura digital que conecta todos esses elementos.
Esse potencial benefício, porém, exige uma negociação complexa. BAE Systems, Leonardo e Mitsubishi Heavy Industries já criaram a Edgewing como organização industrial responsável pelo desenvolvimento do caça do GCAP, com acordos de divisão de trabalho e propriedade intelectual firmados entre os três países fundadores.
A Airbus dificilmente aceitaria um papel periférico em um programa desse porte. Mike Schoellhorn, CEO da Airbus Defence and Space, já afirmou que a empresa precisa de um papel relevante, e não apenas de fabricar estruturas isoladas como asas ou superfícies de cauda.
Qualquer ampliação também terá de preservar o cronograma do GCAP. Os três países parceiros planejam a entrada em serviço em 2035, cinco anos antes do prazo anteriormente previsto para o caça do FCAS.

Poucas alternativas para a Alemanha
A Alemanha poderia, em tese, buscar um novo programa liderado pela Airbus, possivelmente com a Espanha e outros parceiros, mas isso exigiria criar praticamente do zero outro projeto de caça de nova geração.
Outra possibilidade discutida nos últimos meses envolve cooperação com a Suécia. Airbus e Saab estudaram possíveis colaborações, enquanto Estocolmo conduz estudos e demonstrações tecnológicas para definir o sucessor do Gripen.
A Suécia, porém, ainda não decidiu desenvolver um novo caça tripulado. Os estudos atuais do Future Fighter System visam manter diferentes opções além de 2040, incluindo demonstradores autônomos subsônicos e supersônicos.
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Isso coloca um eventual programa Airbus-Saab em estágio bem anterior ao do GCAP, que já conta com organização multinacional, estrutura industrial e meta definida para entrada em serviço.
Para a Alemanha, aderir ao GCAP significaria negociar sua posição em um programa já existente, em vez de criar um novo. Para os atuais parceiros, aceitar a Alemanha pode reduzir o peso financeiro e ampliar o mercado potencial, mas também exigirá acomodar um participante com peso industrial e econômico suficiente para demandar influência substancial.
De volta aos antigos parceiros
Há um paralelo histórico para a situação enfrentada agora pela Alemanha. Nos anos 1980, a França participou de esforços europeus para desenvolver um caça comum, mas divergências sobre requisitos, liderança industrial e autoridade de projeto levaram Paris a seguir com o Rafale de forma independente.
A Alemanha permaneceu ao lado de Reino Unido, Itália e Espanha no programa que resultou no Eurofighter Typhoon.
Mais de três décadas depois, a Alemanha escolheu a França como principal parceira para o caça sucessor. O FCAS foi lançado em 2017, com a Dassault Aviation responsável pelo New Generation Fighter e a Airbus representando grande parte da participação industrial alemã e espanhola.

A parceria acabou dominada por disputas sobre divisão de trabalho, propriedade intelectual e autoridade sobre o projeto do caça. A Dassault sempre defendeu que sua experiência como contratante principal de aeronaves de combate exigia manter o controle sobre decisões de engenharia e proteger tecnologias desenvolvidas de forma independente.
Essas divergências se mostraram incompatíveis com a estrutura industrial desejada por Alemanha e Airbus.
Uma eventual aproximação alemã ao GCAP reuniria boa parte da parceria industrial do Eurofighter. BAE Systems, Airbus e Leonardo já trabalham juntas no Typhoon, embora o GCAP inclua a Mitsubishi Heavy Industries do Japão em uma estrutura multinacional bastante diferente.
A reunião entre Airbus e BAE Systems na próxima semana não definirá sozinha a participação alemã. Pode, no entanto, indicar se há espaço industrial suficiente no GCAP para a Airbus ingressar em um programa cujos papéis principais já foram divididos entre britânicos, italianos e japoneses.



