A TAP Air Portugal registrou prejuízo líquido de €99,2 milhões (cerca de R$ 630 milhões) no primeiro semestre de 2026, resultado 40% pior que o déficit de €70,7 milhões (R$ 449 milhões) apurado um ano antes. A deterioração ocorreu apesar do crescimento do tráfego e da receita e foi provocada principalmente pelo forte aumento dos gastos com combustível, sobretudo entre abril e junho.

A receita operacional cresceu 4,3%, para €2,04 bilhões (R$ 12,95 bilhões), enquanto a receita com passagens avançou 4,4%, para €1,83 bilhão (R$ 11,62 bilhões). A companhia transportou 8,2 milhões de passageiros, 4,2% a mais que no primeiro semestre de 2025.

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O desempenho operacional também melhorou. O tráfego medido em passageiros-quilômetro pagos (RPK) aumentou 5,9%, enquanto a oferta de assentos cresceu apenas 1,7%. Com isso, a ocupação média dos voos passou de 82,1% para 85,4%. Ou seja, a TAP transportou mais passageiros e aproveitou melhor a capacidade disponível, mas isso não foi suficiente para compensar a alta dos custos.

As despesas operacionais recorrentes cresceram 9,6%, mais que o dobro do ritmo da receita, chegando a €2,12 bilhões (R$ 13,46 bilhões). Os gastos com combustível aumentaram 18,7%, para €566,4 milhões (R$ 3,60 bilhões), uma diferença de €89,4 milhões (R$ 568 milhões) em apenas um ano. Custos com pessoal também subiram 7,5%, enquanto depreciações e amortizações avançaram 9,8%.

Essa diferença aparece de forma clara nos indicadores de rentabilidade. O EBITDA recorrente, que mede o resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações, caiu 29,8%, para €181,9 milhões (R$ 1,16 bilhão). Já o EBIT recorrente, que considera despesas como a depreciação das aeronaves, passou de um resultado positivo de €17,3 milhões (R$ 110 milhões) para prejuízo de €83,7 milhões (R$ 532 milhões).

TAP Air Portugal Airbus A321 (Markus Eigenheer)
TAP Air Portugal Airbus A321 (Markus Eigenheer)

Combustível pesa no segundo trimestre

Foi entre abril e junho que a situação se deteriorou mais rapidamente. A TAP gastou €370,2 milhões (R$ 2,35 bilhões) com combustível no segundo trimestre, 52,3% acima dos €243,1 milhões (R$ 1,54 bilhão) registrados no mesmo período de 2025. Foram €127,1 milhões (R$ 807 milhões) adicionais em três meses.

Enquanto isso, a receita operacional recuou 0,6%, para €1,13 bilhão (R$ 7,15 bilhões), e a receita com passagens permaneceu praticamente estável, em €1,02 bilhão (R$ 6,47 bilhões).

A própria TAP explica parte desse descompasso pelo tempo necessário para reajustar tarifas. Grande parte das passagens do segundo trimestre já havia sido vendida quando o preço do combustível começou a subir, o que limitou a capacidade da companhia de transferir imediatamente o aumento de custos para os passageiros. A receita por assento-quilômetro disponível (PRASK) cresceu apenas 0,3%.

O impacto foi suficiente para transformar o resultado do trimestre. O EBITDA recorrente caiu de €256,3 milhões (R$ 1,63 bilhão) para €86,4 milhões (R$ 549 milhões), enquanto o EBIT recorrente passou de lucro de €136,5 milhões (R$ 867 milhões) para prejuízo de €47,6 milhões (R$ 302 milhões). O resultado líquido foi negativo em €59,3 milhões (R$ 377 milhões), contra lucro de €37,5 milhões (R$ 238 milhões) no segundo trimestre do ano passado.

A América do Norte também apresentou desempenho mais fraco. A receita unitária caiu 7% na região, resultado que a TAP atribuiu ao aumento da oferta e à pressão sobre as tarifas da classe econômica. Europa e África registraram altas de 2% e 3%, respectivamente. Em junho, a América do Sul, que inclui o Brasil, seu maior mercado de longe, ajudou na recuperação da receita unitária da companhia.

TAP Air Portugal CS-TON Airbus A330-200
TAP Air Portugal CS-TON Airbus A330-200 | Anna Zvereva

Frota volta a crescer

Os números também revelam uma mudança importante na frota da TAP. Depois de passar os últimos anos submetida às restrições do plano de reestruturação associado à ajuda estatal aprovada pela Comissão Europeia durante a pandemia, a companhia voltou a aumentar o número de aeronaves em operação.

Ao final de junho, a TAP tinha 101 aviões operacionais, dois a mais que três meses antes. Um Airbus A320neo que estava em processo de incorporação no final de março entrou em serviço no início do segundo trimestre, enquanto outro exemplar foi recebido e colocado em operação no período. Um terceiro A320neo já havia sido entregue até 30 de junho, mas ainda estava em processo de entrada em serviço e não fazia parte da contagem de 101 aeronaves.

A frota operacional era formada por 22 aviões de fuselagem larga, 60 de corredor único e 19 regionais. Entre os Airbus havia 19 A330neo, três A330 da geração anterior, 13 A321LR, dez A321neo, 17 A320neo, três A321ceo e 14 A320ceo, além dos 19 Embraer E-Jets utilizados nas operações regionais. Segundo a TAP, 72% da frota operacional de médio e longo curso já pertence às famílias A320neo e A330neo.

A retomada do crescimento ocorre depois da conclusão do plano de reestruturação imposto como condição para a ajuda estatal recebida durante a crise da Covid-19. As limitações incluíam restrições ao tamanho da frota, justamente para evitar que recursos públicos fossem utilizados para financiar uma expansão agressiva da companhia.

A Air France, em conjunto com a KLM, e a Lufthansa são candidatas a assumir parte da TAP (u278)
A Air France, em conjunto com a KLM, e a Lufthansa são candidatas a assumir parte da TAP (u278)

Privatização em andamento

A divulgação dos resultados ocorre em um momento particularmente importante para a TAP. O governo português está colocando em prática a privatização parcial da companhia, com a venda de até 49,9% do capital.

Do total, 44,9% serão destinados a um investidor estratégico, enquanto até 5% poderão ficar com funcionários. Air France-KLM e Lufthansa disputam a participação e apresentaram propostas vinculantes em julho.

O governo português pretende manter o controle da TAP e não avalia apenas quanto cada grupo está disposto a pagar. Os planos para a companhia, capacidade financeira, desenvolvimento da malha e investimentos futuros na frota também fazem parte da análise.

Nesse cenário, os resultados do primeiro semestre mostram uma TAP em situação diferente daquela que entrou no processo de reestruturação: a companhia transporta mais passageiros, melhorou a ocupação dos voos e voltou a incorporar aeronaves, mas o segundo trimestre também expôs sua sensibilidade a uma alta abrupta dos custos.

A TAP encerrou junho com €1,22 bilhão (R$ 7,75 bilhões) em caixa e equivalentes, após captar €350 milhões (R$ 2,22 bilhões) por meio de títulos de dívida no segundo trimestre. A dívida financeira líquida ficou em €787,1 milhões (R$ 5,00 bilhões), ligeiramente abaixo dos €803,7 milhões (R$ 5,10 bilhões) registrados no final de 2025.

A companhia também aprovou um plano estratégico para o período de 2026 a 2035, focado no crescimento de longo curso, investimento em produto e novas fontes de receita. O investimento em frota e o desenvolvimento da malha previstos nesse plano estarão entre as principais decisões estratégicas para a TAP e para o grupo aéreo europeu que se tornar seu novo acionista minoritário.