Embraer dobra aposta na divisão de aviões militares

Divisão de produtos militares da Embraer fechou importantes negócios durante o segundo semestre, incluindo a venda do KC-390 para a Hungria
Embraer KC-390 voando em formação com Super Tucanos da Esquadrilha da Fumaça
Embraer KC-390 voando em formação com Super Tucanos da Esquadrilha da Fumaça (FAB)
Embraer KC-390 voando em formação com Super Tucanos da Esquadrilha da Fumaça
Estrelas militares do Brasil: Embraer busca novas oportunidades para o KC-390 e o Super Tucano (FAB)

Presidente-executivo da Embraer Defesa & Segurança, Jackson Schneider está otimista com o futuro da divisão de produtos militares do grupo Embraer. Em entrevista ao Flight Global, o executivo comentou sobre os desafios da empresa durante a pandemia e novas oportunidades para os produtos-chave da companhia, o Super Tucano e o C-390 Millennium.

A despeito da crise de saúde global e do insucesso da joint venture com a Boeing em abril, a Embraer obteve alguns sucessos notáveis no segundo semestre deste ano, incluindo um pedido da Hungria por dois KC-390 no mês passado.

O novo anúncio do novo cliente internacional do Millennium (o segundo, depois de Portugal) ocorreu em seguida à entrega de seis aeronaves Super Tucano à força aérea de Filipinas, após uma jornada intercontinental. Os aviões fabricados no Brasil realizaram escalas nas Ilhas Canárias, Portugal, Malta, Egito, Emirados Árabes Unidos, Índia, Bangladesh, Tailândia e Vietnã.

“Foi um esforço realmente grande, porque você tem que cruzar o mundo com muitos países afetados (pelo coronavírus)”, disse Schneider. “Alguns foram fechados, exigiram autorizações especiais, licenças especiais. Mas foi um grande esforço de equipe. Claro, custou mais em termos de energia e em termos de recursos, mas estávamos lá.”

Entregas à parte, o presidente da Embraer Defesa & Segurança diz que o maior impacto sentido em função da pandemia foi nas campanhas de vendas. Embora seja possível realizar reuniões por videoconferência, Schneider comentou que os clientes do setor defesa preferem discutir negócios e contratos pessoalmente.

Com as medidas de restrição social de prevenção contra a COVID-19, além do fechamento de fronteiras ao redor do mundo, diversas feiras e eventos de aviação foram cancelados neste ano ou realizados em formatos virtuais, como foi o caso do Farnborough Airshow, na Inglaterra.

“Não perdemos nenhuma campanha”, diz Schneider. “Apenas suspendemos algumas delas e adiamos outras. Mas agora estamos as retomando. Acreditamos que teremos o mesmo ímpeto que tínhamos antes do surto.”

Boeing fora: Embraer vende KC-390 por conta própria

Schneider não comentou sobre negociações em andamento sobre o Super Tucano e o C-390. “Não comentamos sobre campanhas específicas, porque a concorrência adora ouvir falar delas”, disse o executivo, acrescentando que a Embraer tem “campanhas em todos os cantos do mundo”.

Embraer KC-390 - Força Aérea Brasileira
O C-390 já tem três clientes com pedidos firmes: Brasil, Portugal e Hungria (Embraer)

“A Boeing poderia ter adicionado algumas possibilidades em termos de vendas, mas acho que podemos fazer isso sozinhos”, diz ele. Além da joint venture de aviação comercial, acordo da Embraer com a Boeing também previa a criação de uma divisão especial (a Boeing-Embraer Defense) para promover o C-390 Millennium no mercado internacional.

Com o negócio com a Hungria, a Embraer mostrou que pode vender o C-390 por conta própria. Schneider disse ainda que a empresa espera fechar mais um pedido internacional em 2021.

“Tenho certeza de que o avião terá sucesso e, com ou sem a Boeing, podemos administrá-lo muito bem e ir em frente e vender o avião em todos os continentes. O avião vai voar em todos os continentes, é uma questão de tempo”, disse o presidente da Embraer Defesa & Segurança.

A Força Aérea Brasileira (FAB) opera atualmente com três KC-390 e tem mais 25 aeronaves encomendadas. Além dos dois jatos húngaros, Portugal vai receber outros cinco exemplares. A Embraer também tem cartas de intenção de compra da Argentina, Chile, Colômbia, República Tcheca e da empresa de serviços de aviação SkyTech, interessada na versão civil do Millennium.

Super Tucano e Gripen “Made in Brazil”

Aeronave militar mais popular da Embraer nos últimos anos, o Super Tucano está espalhado em forças aéreas em quase todos os continentes e hoje é uma referência em sua categoria. Na entrevista, Jackson Schneider observou que apesar do surgimento de novas tecnologias de inteligência artificial e ciberguerra, o avião fabricado no Brasil continua sendo um recurso eficiente em conflitos não convencionais que requerem operações de ataque ao solo.

A-29 Super Tucano - Força Aérea de Filipinas
Novo cliente: Filipinas recebeu recentemente seis Super Tucano e já tem planos para dobrar a frota (Embraer)

O presidente da Embraer Defesa & Segurança ainda destacou o emprego do Super Tucano como avião de treinamento avançado e sua eficácia em outras missões, como busca e salvamento. Ele ainda revelou ter grandes esperanças em relação a aeronave no sudeste da Ásia, onde o turboélice é operado na Indonésia e Filipinas.

A produção nacional dos caças Gripen E/F da Força Aérea Brasileira (FAB) em parceria com a Saab e outras empresas brasileiras é o próximo grande passo da divisão militar da Embraer.

Com a transferência de tecnologia do caça sueco e a instalação de uma linha de produção no Brasil, há uma expectativa de que no futuro a FAB encomende mais lotes do Gripen.

Schneider, no entanto, não comentou sobre a possibilidade do governo brasileiro adquirir mais aeronaves, além dos 36 modelos já encomendados – e que serão parcialmente construídos na sede da Embraer em Gavião Peixoto (SP). O executivo ressaltou que o foco está na construção do primeiro lote, processo que levará alguns anos.

“Claro, mais tarde eu acho que (a encomenda do segundo lote) é uma decisão da Força Aérea Brasileira e estaremos lá para apoiar tudo o que eles quiserem em relação ao primeiro lote, segundo lote ou nenhum lote”, diz ele. “O que quer que eles decidam, vamos ajudá-los e apoiá-los.”

SAAB F-39E Gripen - Força Aérea Brasileira
O primeiro Gripen E da FAB voando no Brasil ainda é um modelo de testes (FAB)

Schneider disse ainda que a Embraer está apoiando os esforços da Saab para vender o Gripen para a força aérea da Colômbia, que busca substituto para seus antigos caças israelenses IAI Kfir.

“A Saab está à frente desta campanha e estamos ajudando no que for preciso, mas o líder desta campanha é a Saab. Assim que tivermos a linha de montagem final em Gavião Peixoto, ela poderá ser usada não só para aviões brasileiros, mas para aviões de outros países. Ficaremos mais que felizes em ajudar a Saab a montar aviões não só para a Colômbia, mas para outros países também.”

Embraer STOUT

A entrevista ao Flight Global, Schneider teceu os primeiros comentários sobre o novo projeto militar da Embraer, o avião híbrido STOUT proposto para a FAB como um substituto para os antigos turboélices Bandeirante e Brasília.

Embraer STOUT
Propulsão híbrida: projeto STOUT é proposto como um substituto para os Bandeirante e Brasília da FAB

Ainda comedido ao revelar detalhes da aeronave, o executivo disse que o projeto pode repetir o mesmo formato usado no desenvolvimento do C-390 Millennium, com parceiros internacionais – o programa C-390 também tem a participação de empresas de Portugal, Argentina e República Tcheca, que colaboraram no desenvolvimento e fornecem componentes para a aeronave.

De acordo com Schneider, por enquanto o foco é investigar os detalhes da aeronave, mas ressaltou que a empresa está a aberta para trabalhar com parceiros estrangeiros. Ele acredita que o STOUT oferece uma oportunidade para os países interessados ​​em desenvolver suas próprias indústrias aeroespaciais e revelou ter recebido consultas internacionais sobre o projeto.

“Isso é muito bom para países que querem dominar o processo de engenharia aeronáutica, porque você desenvolverá um avião do zero”, afirmou. “E a melhor forma de absorver isso é aprendendo do início ao fim, cruzando todas as etapas, e entendendo todas as etapas e fases do processo de engenharia.”

Veja mais: Porta-helicópteros Atlântico da Marinha agora é um porta-aviões

Total
0
Shares
Previous Post

Air France cogita o 737 MAX e o hipotético A220-500 para substituir seus A320

Next Post
Embraer E190

Embraer prevê demanda por 5.500 jatos e turboélices regionais até 2029

Related Posts
Total
0
Share