Seis anos depois de a Boeing desistir da compra da divisão de aviação comercial da Embraer, o presidente da fabricante brasileira, Francisco Gomes Neto, considera que o desfecho acabou sendo favorável à companhia. Para o executivo, o episódio pertence ao passado e encontrou uma Embraer hoje em uma posição muito diferente daquela do período em que o acordo foi negociado.

“Acho que o caso da Boeing já está totalmente superado. Foi no passado, antes da minha chegada. Na época, teve uma lógica, uma estratégia, pelos movimentos de mercado”, afirmou Gomes Neto nesta quinta-feira (8), durante a apresentação do primeiro E195-E2 da LATAM.

“Mas aquilo não aconteceu por conta da Covid, por conta dos problemas que a Boeing teve. Acho que, no final, acabou sendo positivo para a Embraer.”

A Boeing anunciou em abril de 2020 que desistiria da operação que previa assumir 80% da divisão de aviação comercial da Embraer. O negócio havia sido avaliado em US$ 4,2 bilhões e teria colocado os E-Jets dentro de uma nova empresa controlada pelo grupo norte-americano.

Em vez disso, a Embraer continuou sozinha no mercado de jatos comerciais e atravessou os anos seguintes com uma estrutura que havia sido preparada para a separação do negócio.

Francisco Gomes Neto w Jerome Cadier
Francisco Gomes Neto w Jerome Cadier | Willian Moreira

Agora, Gomes Neto usa os resultados mais recentes para sustentar que a situação mudou. Segundo ele, a receita da companhia tem aumentado em quase US$ 1 bilhão por ano desde 2022. A Embraer encerrou 2025 com US$ 7,4 bilhões e espera ficar perto de US$ 8,5 bilhões neste ano.

“A Embraer hoje está mais forte do que nunca”, disse. “Não tem nenhuma unidade à venda. Muito pelo contrário: estamos comprando.”

LATAM dá nova vitrine ao E2

É nesse cenário que a chegada da LATAM ao E195-E2 ganha peso para a Embraer. A maior companhia aérea da América Latina recebeu nesta quinta-feira seu primeiro exemplar e possui 24 aeronaves encomendadas, além de opções para outras 50.

Gomes Neto disse que a importância do negócio vai além da presença de mais E2 no mercado brasileiro. Para ele, uma empresa do porte da LATAM ajuda a mostrar a outras companhias como o modelo pode ser usado para abrir rotas ou aumentar frequências em mercados que não justificam aeronaves maiores.

“É uma mensagem para o mundo todo de que o avião é muito adequado para isso que o Jerome acabou de falar: abrir novas rotas e oferecer maior frequência de voos para os passageiros”, afirmou.

PS-LTC, terceiro E195-E2 da LATAM
PS-LTC, terceiro E195-E2 da LATAM | Willian Moreira

A própria LATAM pretende usar o E195-E2 dessa maneira. Com 136 assentos, ele ficará abaixo dos Airbus A319, A320 e A321 da empresa e permitirá ajustar a capacidade em mercados menores ou oferecer mais voos sem necessariamente acrescentar o número de assentos de um A320.

Para a Embraer, cada novo operador também contribui para melhorar a economia do programa.

“Isso, para a Embraer, é muito importante, porque ajuda no crescimento da aviação comercial e gera mais receita. A gente consegue amortizar melhor os custos fixos”, disse Gomes Neto.

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Segundo o executivo, a família E2 soma atualmente cerca de 25 clientes e aproximadamente 500 pedidos. O programa ganhou novos operadores nos últimos anos e hoje possui clientes nos cinco continentes.

Ainda assim, a escala permanece distante daquela alcançada pelos principais programas de narrowbodies. O Airbus A220, concorrente mais próximo do E2, já superou a marca de mil encomendas, enquanto A320neo e Boeing 737 MAX operam em outra dimensão de mercado e produção.

Envoy E175
Envoy E175 | BOSSHEP

Produção ainda enfrenta gargalos

A diferença também aparece na capacidade industrial. A Embraer prevê entregar entre 80 e 85 jatos comerciais em 2026, número que inclui sua produção de E-Jets e não apenas o E2.

A comparação direta com Airbus ou Boeing tem limitações: a fabricante europeia, por exemplo, possui uma estrutura industrial muito maior e várias linhas de montagem espalhadas pelo mundo. Ainda assim, o volume mostra o espaço que a Embraer ainda tem para ampliar a escala do E2 caso consiga converter mais campanhas em encomendas.

Esse crescimento também depende da cadeia de fornecedores.

“A gente ainda tem dificuldades com a supply chain. Ela tem melhorado bastante, mas estamos aumentando a produção, e todos os fabricantes de aviões também estão aumentando a produção”, afirmou Gomes Neto.

Segundo ele, alguns componentes continuam com problemas específicos de fornecimento. A Embraer, porém, não espera que essas restrições impeçam o aumento das entregas de aviões comerciais, executivos e militares.

A LATAM foi um caso incomum nesse cenário. Gomes Neto destacou o curto intervalo entre a encomenda e o início das entregas. O pedido firme foi anunciado em setembro de 2025 e o primeiro avião chegou pouco mais de um ano depois.

Os três primeiros E195-E2 da Mexicana no sábado, 23 (Mexicana)
Os três primeiros E195-E2 da Mexicana no sábado, 23 (Mexicana)

México, Colômbia e Argentina no radar

A Embraer também acredita que ainda existe espaço significativo para o E2 na América Latina, embora isso não signifique que novas encomendas estejam próximas.

Gomes Neto citou especificamente México, Colômbia e Argentina entre os mercados nos quais a fabricante enxerga oportunidades. Segundo ele, parte do potencial está na baixa conectividade entre cidades e na futura substituição de aeronaves mais antigas.

O executivo apontou o Caribe como exemplo da deficiência da malha regional. Em alguns mercados, passageiros ainda precisam passar pelos Estados Unidos para viajar entre países relativamente próximos.

“Eu vejo ainda muita oportunidade. Tem os grandes mercados que a gente ainda precisa explorar mais”, afirmou. “Falando de México, Colômbia, Argentina, ainda tem bastante coisa para fazer.”

A entrada da LATAM também pode ampliar geograficamente a presença do modelo no futuro. Por enquanto, a companhia pretende manter no Brasil os 24 E195-E2 de seu pedido firme. As 50 opções poderão eventualmente resultar em aeronaves baseadas em outros países da América do Sul, mas a empresa ainda não tomou essa decisão.

Como um E195-E2 poderia parecer nas cores da GOL
Como um E195-E2 poderia parecer nas cores da GOL

Governo como instrumento para abrir mercados

Gomes Neto também defendeu a participação do governo brasileiro na abertura de mercados para a Embraer, mas fez uma distinção entre apoio institucional e ajuda financeira.

“A gente não precisa de dinheiro, de subsídio, de nada”, afirmou.

Segundo o executivo, o apoio necessário envolve instrumentos como o BNDES e a atuação institucional do governo brasileiro junto a outros países para facilitar negócios da fabricante.

Essa relação é particularmente visível na área de Defesa, na qual negociações de aeronaves como o C-390 Millennium e o A-29 Super Tucano frequentemente envolvem governos dos países comprador e vendedor. A aviação comercial também pode receber esse tipo de suporte diplomático.

No Brasil, o governo já defendeu publicamente uma maior participação dos aviões da Embraer nas frotas das companhias nacionais. LATAM e Abra, grupo controlador da GOL, anunciaram posteriormente encomendas do E195-E2, embora não esteja claro até que ponto a atuação de Brasília teve influência nas decisões comerciais das empresas.

Gomes Neto afirmou que a Embraer mantém uma boa relação com o governo atual e adotaria a mesma postura diante de uma eventual mudança de administração.

“Apoio institucional é apoio do BNDES e apoio institucional junto a outros países, para garantir a boa relação e poder introduzir nossos produtos”, disse.

C-390 Millennium
C-390 Millennium | Embraer

Gripen e mercado de Defesa

Na área militar, Gomes Neto voltou a destacar o aumento das oportunidades para a Embraer diante do cenário internacional. Segundo ele, conflitos têm acelerado campanhas envolvendo o C-390 e o Super Tucano.

O executivo citou negociações e encomendas recentes, além da grande concorrência em andamento na Índia para uma nova aeronave de transporte militar.

Ele também comentou o primeiro voo do Gripen E produzido no Brasil, realizado em Gavião Peixoto. Embraer e Saab ampliaram sua parceria para que a estrutura brasileira possa participar da produção de aeronaves destinadas a futuros clientes internacionais.

O programa Gripen se soma ao C-390 e ao Super Tucano como uma das áreas nas quais Gomes Neto vê possibilidade de expansão do negócio de Defesa.

Ao mesmo tempo, o CEO voltou a citar os estudos da Embraer para futuros produtos. A empresa avalia há alguns anos alternativas para um novo ciclo de desenvolvimento, sem definir publicamente se o próximo grande programa será destinado à aviação comercial, executiva ou militar.

Por enquanto, Gomes Neto aposta que os produtos atuais ainda sustentam vários anos de expansão.

“Para os próximos cinco anos, nós temos um plano muito robusto. A companhia vai continuar crescendo com os produtos que nós temos”, afirmou.