Terminal 1 de Guarulhos, o famoso “puxadinho”: desativado durante a crise do coronavírus

Estrutura precária criada antes da concessão para a iniciativa privada, o Terminal 1 do Aeroporto de Guarulhos deixará de funcionar a partir do meio-dia desta quarta-feira, 1º de abril. A GRU Airport anunciou que fechará o famoso “puxadinho” por conta da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), que reduziu as operações no maior aeroporto do país de forma brutal.

A Azul Linhas Aéreas, única companhia que utilizada o local, havia anunciado que manterá apenas 25 rotas em operação nas próximas semanas e decidiu suspender todos os voos que possui em Guarulhos assim como no Galeão até o final de abril. Sem a empresa, não fazia sentido algum manter o espaço funcionando. Por isso, a GRU confirmou que “os serviços de restaurantes também serão desativados e o traslado entre terminais e de conexão com a CPTM não mais contemplará o Terminal 1, neste período”. Para atender seus clientes, a Azul manterá um plantão das 8 às 17 horas no Terminal 3, na área de desembarque.

A concessionária já havia concentrado todos os voos internacionais que ainda estão ativos no Terminal 3, o mais moderno do aeroporto, mantendo as rotas nacionais remanescentes no Terminal 2. A extensão dos cortes nas malhas das empresas aéreas que operam em Guarulhos, no entanto, deve transformá-lo num imenso estacionamento de aeronaves a céu aberto.

A situação se repete em outros grandes aeroportos brasileiros como o Galeão, segundo mais movimentado do país em tráfego aéreo internacional. Sua operadora, a RioGaleão, anunciou nesta terça-feira, 31, que fechará o terminal 2 entre 23h e 5h e o acesso fora desse período será feito apenas por duas das portas do Terminal 2. A razão apontada pela empresa é que, com os cortes na malha, o Tom Jobim ” terá sua movimentação reduzida a três voos diários (pousos e decolagens) da Gol Linhas Aéreas, para o Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo”, explicou a concessionária.

Da carga para os passageiros

O advento da quarentena por conta do coronavírus e da proibição de entrada de estrangeiros no Brasil conseguiram algo que parecia impossível para a GRU Airport, fechar o “remendo” chamado inicialmente de “Terminal 4”, mais tarde alterado para Terminal 1. Reformada às pressas pela Infraero no começo dos anos 10, a estrutura nada mais é do que a junção de dois galpões de carga que foram operados pela Vasp e Transbrasil e desativados após a falência de ambas.

Aeroporto do Galeão, ainda nos tempos da Infraero: apenas três voos diários da Gol em abril (governo federal)

Enquanto gastava dinheiro construindo terminais pomposos em outras regiões do país, a estatal federal não conseguia destravar a construção do Terminal 3 de Guarulhos, embora tenha investido R$ 22 milhões em um projeto arquitetônico suntuoso e que acabou descartado pela GRU Airport. Em vez disso, a Infraero inaugurou em agosto de 2011 o MOP (Módulo Operacional Provisório), com capacidade para 1,2 mil de passageiros por hora e vulgarmente chamado de “puxadinho”.

Na época, o então presidente da estatal, Gustavo Valle, foi profético: “O nome está errado. Esse terminal vai continuar servindo Cumbica por um bom tempo. É um engano achar que isso não pode ser uma solução de longo prazo para o aeroporto”. Sábias palavras.

Com meia dúzia de posições para aeronaves herdadas da área de cargas do aeroporto, o terminal já foi usado por Passaredo, Webjet e Avianca, mas só atende a Azul, única companhia que opera turboélices e jatos de menor porte em Guarulhos. Os embarques e desembarques contrastam completamente com o imenso Terminal 3, cujos fluxos são separados por andares. No puxadinho, não há pontes de embarque ou qualquer solução arquitetônica moderna. Ou seja, é um resumo do legado que a Infraero está deixando em dezenas de pequenos aeroportos pelo país e que estão sendo repassados para a iniciativa privada por meio de leilões.

Curiosamente, a GRU Airport “adotou” o prédio provisório e o manteve ativo mesmo investindo muito dinheiro para transformar os terminais 1 e 2 originais (hoje unidos) em um padrão mais em linha com aeroportos do exterior. A concessionária, que há bastante tempo anda no vermelho, mal dá conta de oferecer pontes de embarque para o imenso tráfego aéreo que utiliza seus principais terminais.

Apesar do ambiente rústico e datado, o pequeno Terminal 1 tem até admiradores que o consideram prático de ser utilizado. De quebra, ainda fica a uma distância pequena da linha de trem da CPTM, o que faz dele uma espécie de solução “low-cost” dentro do maior terminal aéreo da América do Sul. De fato, sua localização, logo na entrada do aeroporto, poderia ser bem aproveitada, mas seria mais coerente que os galpões fossem substituídos por um edifício projetado para tal e que de alguma forma fosse conectado aos demais terminais.

Abatida pela queda na receita, certamente a GRU Airport vai reativar o local assim que os voos voltarem. E tudo continuará na mesma, como sempre no Brasil.

O projeto do Terminal 3 de Guarulhos (no alto à direita) encomendado pela Infraero: em vez dele, maior aeroporto do país viu galpões de carga reformados para receber passageiros (Biselli e Katchborian)

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