Esguio e elegante: o Urupema era um planador projetado para competições de voo a vela (Embraer)

Responda rápido: qual foi a primeira aeronave fabricada pela Embraer? Errou quem pensou Bandeirante ou Ipanema. Na verdade, a primeira experiência da fabricante brasileira na indústria aeronáutica foi na área de voo a vela, construindo um planador.

Antes mesmo da criação da Embraer, o então Centro Técnico de Aeronáutica (CTA) desenvolveu uma série de protótipos de aeronaves. Alguns desses estudos eram a versão inicial do Bandeirante e o avião agrícola Ipanema. Outro projeto, que corria pelo CTA desde 1963, era o Urupema, um planador de competição.

A construção do protótipo foi iniciada em 1965 nas oficinas do CVV-CTA (Clube de Voo a Vela – Centro Técnico de Aeronáutica). O Urupema foi projetado por alunos do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), subordinado ao CTA, orientados pelo professor Guido Pessotti (1933 – 2015), um dos engenheiros aeronáuticos mais renomados na história da aviação brasileira.

Com formato elegante e esguio, o Urupema media 7,50 metros de comprimento por 15 m de envergadura e era classificado como um planador de alto rendimento. Ele podia alcançar velocidade máxima de 258 km/h e tinha uma razão de planeio de 36:1. O primeiro voo foi realizado em janeiro de 1968.

Em 1969, três projetos do CTA – Bandeirante, Ipanema e Urupema – foram transferidos para a recém-criada Embraer. O EMB 400 Urupema foi o primeiro produto a sair da linha de produção e ser entregue pela fabricante de São José dos Campos (SP), em janeiro de 1971. Mais adiante, naquele mesmo ano, começaram as entregas do Ipanema, enquanto o Bandeirante estreou em abril de 1973.

Guido Pessotti no hangar de projetos do CVV-CTA; o engenheiro era um grande entusiasta do voo a vela (AGP)

Na época em que trabalhava no Urupema com seus alunos no ITA, Guido Pessotti já era uma das mentes envolvidas no Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento/Departamento de Aeronaves (IPD/PAR) do CTA, grupo foi o embrião da Embraer.

Em entrevista ao Airway em 2019, Ozires Silva, fundador da Embraer, revelou que a construção do Urupema foi uma moeda de troca para conseguir tirar Pessotti do ITA.

“O planador foi uma espécie de pagamento, por que nós queríamos três professores do ITA para trabalhar na Embraer, entre eles o Guido Pessotti. Mas o reitor do ITA não liberava eles de jeito nenhum, justamente porque eles estavam fazendo o Urupema. Daí ofereci de fabricar o planador em troca dos professores e ele concordou. Foram excelentes contratações, principalmente o Guido, que chefiou a engenharia da Embraer por mais de 20 anos”, relembrou Ozires.

Urupema preservado no Museu da TAM, hoje fechado ao público (Ricardo Reis)

Entre 1971 e 1972, o Ministério da Aeronáutica recebeu 10 Urupemas, encomendados por meio do DAC (Departamento de Aviação Civil), e os distribuiu a aeroclubes brasileiros.

A Embraer não faturou com o Urupema, mas ganhou muito ao contratar Guido Pessotti, cuja engenhosidade e brilhantismo foram fundamentais no desenvolvimento de projetos como o Brasília, Xingu, Tucano, AMX e o jato regional ERJ.

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