A Força Aérea Brasileira (FAB) realiza uma nova campanha de ensaios com o caça F-5M para tentar concluir a certificação do Link-BR2, sistema desenvolvido no país para permitir que aeronaves, radares e centros de comando compartilhem informações durante uma missão. O projeto começou há 14 anos e tem previsão de conclusão em dezembro.

Batizada de Operação IRIS 2026, a campanha ocorre na Base Aérea de Canoas, no Rio Grande do Sul, e envolve o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), a Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (COPAC), o Instituto de Pesquisas e Ensaios em Voo (IPEV) e a AEL Sistemas, responsável pelo desenvolvimento do Link-BR2.

Segundo um oficial da FAB responsável pela operação, os ensaios estão verificando requisitos que ficaram pendentes na campanha realizada em 2025 e demonstrando novas funcionalidades. Os resultados serão posteriormente apresentados ao Alto Comando da Aeronáutica para subsidiar decisões sobre os próximos passos do sistema.

Documentos da própria FAB mostram que 2026 deverá ser um ano decisivo para o projeto. O planejamento do DCTA estabelece como meta concluir o desenvolvimento do Link-BR2 até dezembro, incluindo a finalização dos ensaios de certificação e a integração final dos sistemas de solo e voo.

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Caça F-5M em Canoas
Caça F-5M em Canoas | Reprodução

Desenvolvimento começou em 2012

O Link-BR2 nasceu de um contrato de R$ 193 milhões assinado em dezembro de 2012 entre a FAB e a Mectron. A empresa foi posteriormente incorporada pela AEL Sistemas, que assumiu a continuidade do projeto.

A ideia era superar uma limitação dos sistemas então utilizados pela FAB, que permitiam a troca de informações apenas entre determinados tipos de aeronaves. O Link-BR2 foi concebido para criar uma rede comum, capaz de conectar diferentes plataformas aéreas e estruturas em solo.

Na prática, um caça pode receber informações obtidas pelo radar de outra aeronave ou por sensores terrestres sem que o piloto dependa da comunicação por voz. Posições de aeronaves, dados de sensores e outras informações do cenário tático podem ser distribuídos aos participantes da rede, oferecendo a diferentes tripulações uma visão mais completa do que ocorre ao seu redor.

Essa capacidade ganhou importância com a chamada guerra centrada em redes, na qual sensores e plataformas deixam de operar de maneira isolada. Uma aeronave que detecta um alvo, por exemplo, pode transmitir sua posição para outros participantes da missão, mesmo que eles próprios ainda não consigam detectá-lo com seus sensores.

Caças F-39E Gripen e F-5 Tiger II ( (FAB)
Caças F-39E Gripen e F-5 Tiger II ( (FAB)

Os primeiros voos do Link-BR2 embarcado no F-5M ocorreram em 2020. Em outubro de 2021, dois caças trocaram dados entre si pela primeira vez usando o sistema. Meses depois, a FAB demonstrou uma operação na qual dois F-5M conectados ao Link-BR2 receberam informações de uma estação de Comando e Controle durante uma interceptação simulada.

As campanhas continuaram nos anos seguintes. Em 2024, a Operação IRIS utilizou dois F-5M já integrados ao sistema para realizar ensaios complementares identificados em testes anteriores. A certificação do Rádio Terminal Data Link (RTDL), equipamento instalado nas aeronaves, e sua integração ao caça permaneceram entre os objetivos da IRIS 2025 e voltaram a fazer parte do planejamento oficial para 2026.

O sistema já passou também a ser empregado em exercícios. Durante o Escudo-Tínia 2026, realizado em Anápolis, o Link-BR2 conectou caças F-5M a informações produzidas pelo avião de alerta aéreo antecipado E-99M, radares em solo e estruturas de Comando e Controle.

Do F-5M ao Gripen

A conclusão do desenvolvimento ganha importância porque o F-5M, principal plataforma utilizada nos ensaios do Link-BR2, está na etapa final de sua longa carreira na FAB. Os caças modernizados continuam operacionais, mas serão gradualmente substituídos pelo Saab F-39 Gripen, que já equipa o 1º Grupo de Defesa Aérea em Anápolis.

O Link-BR2, porém, não foi concebido especificamente para o F-5. A FAB prevê seu emprego em diferentes meios aéreos, terrestres e navais, e cita expressamente o F-39 entre as aeronaves que deverão integrar a rede.

Painel do cockpit do Gripen (Saab)
Painel do cockpit do Gripen (Saab)

A integração com o Gripen já começou a ser preparada. Em julho de 2025, o DCTA realizou um workshop dedicado ao Link-BR2 no F-39, com participação da COPAC, do Comando de Preparo, do 1º Grupo de Defesa Aérea e de especialistas do próprio departamento. O trabalho tratou, entre outros pontos, do conceito operacional para utilização do sistema no novo caça.

Essa transição é essencial para que o investimento feito desde 2012 permaneça útil depois da retirada do F-5M. Ao contrário de equipamentos desenvolvidos exclusivamente para uma aeronave, o Link-BR2 pretende funcionar como uma infraestrutura comum de troca de informações da FAB, à qual diferentes plataformas podem ser conectadas ao longo do tempo.

A página de projetos estratégicos da FAB informa atualmente que 67,74% das etapas contratuais do Link-BR2 foram executadas. A meta inclui dez Rádios Terminais Data Link, além de estações terrestres de Comando e Controle, gerenciamento e planejamento. Até agora, seis rádios foram recebidos, sendo que os dois primeiros ainda deverão ser atualizados.