O Lion Tech é o jato de “test-drive” da Embraer para demonstrações com clientes (Embraer)

A estreia do Embraer E195 E2 com a chamativa pintura TechLion em Congonhas nessa quarta-feira (23) não foi à toa. A empresa levou o aparelho ao aeroporto mais concorrido do Brasil para fazer uma demonstração da nova geração do E-Jet a potenciais clientes, incluindo três companhias aéreas brasileiras: Passaredo, Gol e LATAM. Airway pôde acompanhar esse voo mais do que especial, que envolve uma turnê mundial, burocracia e assentos misturados.

Se a pintura preta chamou a atenção dos passageiros enquanto o avião taxiava por Congonhas, o mais inusitado de seu interior está na mistura de configurações. Por ser um avião de demonstração, a Embraer fez uma configuração híbrida (totalizando 116 lugares) no PT-ZIQ. Além dele ter duas classes, a cabine recebeu quatro tipos de assentos e dez opções de pitch, distância entre os bancos. O objetivo é mostrar aos clientes na prática a diferença de uma configuração mais apertada, de 29 polegadas, até uma alternativa com ótimas 35″. O TechLion também é equipado com 12 lugares de classe executiva, com assentos de maior inclinação (mas não flatbed) e 54″ de pitch.

O visual dos assentos também muda e varia na classe econômica entre o Z2, Z2S e Z2S+. O primeiro é uma das opções mais baratas (ainda há o Z85 com pitch de 28″, que não equipava esse avião), com encosto sem ajuste para a cabeça e mesa feita em uma única peça. Os assentos “S” são mais refinados, com apoio de cabeça ajustável em altura e com abas e mesa retrátil dobrável na versão +. Além desses bancos, a Embraer também oferece entre os opcionais o sistema multimídia nos assentos, TV via satélite, tomadas 110V universais e conectores USB.

Todas as dúvidas dos convidados são tiradas por executivos da Embraer que acompanham o voo, e o tratamento é personalizado. A companhia pode, por exemplo, fazer um cálculo dos custos do E195 E2 uma ou mais rota específica da companhia aérea, e compará-lo com os aparelhos usados atualmente pelo potencial cliente. O único “senão” é por conta da impossibilidade do futuro comprador pilotar a aeronave de “test-drive”. O Zulu-India-Quebec só pode ser controlado por comandantes da Embraer, mas pilotos das companhias aéreas podem acompanhar todo o voo no assento extra da cabine, o jump-seat. O voo de demonstração, aliás, é com emoção.

Performance versus conforto

Os aviões de carreira procuram fazer decolagens, curvas e pousos de forma suave, para preservar os passageiros e o conteúdo do estômago deles. A maioria das aeronaves, porém, é capaz de ir muito além do envelope tradicional de voo, e parte dessa capacidade é mostrada nesses voos de demonstração. Por ser um avião comercial, o E195 não faz um voo de performance como na apresentação de um jato executivo, mas algumas manobras se diferenciam do que normalmente se espera de um aeronave capaz de decolar pesando até 59,4 toneladas.

A subida de Congonhas foi intensa, com o avião mantendo uma atitude elevada por um período muito maior. Rapidamente já alcançamos as nuvens, e bastou cerca de quatro minutos para que já estivéssemos a dez mil pés de altitude. O tempo nublado impediu a bela vista que teríamos sobrevoando o litoral paulista, mas algumas curvas durante a demonstração tiraram a atenção da paisagem pela janela. Com alta aplicação dos estabilizadores verticais e elevada inclinação das asas, os comandantes do TechLion provocaram um súbito aumento de peso nos passageiros, ocasionado pelo aumento rápido da força G. Para a maioria dos civis, é o mais próximo que você vai estar de um caça.

Um E195-E2 “zero km” custa cerca de US$ 60 milhões (Rodrigo Ribeiro)

Executivos presentes afirmaram que o E2 poderia ir além, mas destacaram que essas performances intensas normalmente são restritas a shows aéreos, com o avião vazio. A presença de pessoas na cabine, aliás, impacta até na movimentação do avião no país.

Se os aviões de demonstração da Embraer estiverem com mais de três ocupantes, a chamada tripulação mínima, ele obrigatoriamente deve pousar em um aeroporto internacional para que se façam todos os trâmites de imigração. Além disso, a empresa precisa emitir documentos de movimentação de ativo conforme o E2 vai visitando diferentes mercados. Esses estão entre os motivos que impediram o TechLion de vir direto de Santiago, onde foi apresentado na semana passada à LATAM, até Congonhas.

Ir a Dubai, próximo destino do PT-ZIQ, será ainda mais difícil. Mesmo vazio, o E195 E2 não tem autonomia para fazer voos transcontinentais sem escalas técnicas. O processo não é tão demorado como a entrega de um Phenom na China, mas ir aos Emirados Árabes para o Dubai Airshow exigirá do E195 ao menos uma parada para reabastecimento.

Os motores Pratt & Whitney PW1000G são mais eficientes e menos ruidosos (Rodrigo Ribeiro)

Sigilo total

Outra característica dos voos de demonstração é a discrição de todos os envolvidos. Mesmo com cada companhia aérea sendo representada por diversos executivos, a análise deles é feita com parcimônia. Airway notou diversos comentários a respeito do bom espaço interno da cabine e do silêncio a bordo, grande característica dos novos Pratt & Whitney da família PW1000G. Os elogios, porém, pararam por aí e em nenhum momento foi comentada uma eventual compra.

Além de ser um negócio que pode chegar à escala de bilhões de reais, a aquisição de uma ou mais aeronaves também influencia no valor de mercado da companhia aérea. Isso faz com que qualquer informação de novos negócios obedeça às regras da CVM (Comissão de Valores Imobiliários), órgão que rege o segmento de empresas de capital aberto. A legislação para empresas menores, como de taxi aéreo, é menos restrita, mas o sigilo em torno das propostas não muda. Uma das características da aviação, afinal, é nunca levar em conta o preço de tabela do avião, e sim, oferecer a cada cliente o melhor negócio. Em tempo: neste voo o Airway não conseguiu nenhum desconto na tabela de estimados US$ 60 milhões cobrados por cada E195 E2.

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