Mais de 40 companhias aéreas faliram em 2020

Apesar da crise histórica, número de empresas aéreas que fecharam as portas neste ano não foi dos piores
A regional britânica FlyBe foi a “primeira vítma” do coronavírus entre as empresas aéreas (Tony Hisgett)

Em março, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou estado de pandemia em função do novo coronavírus surgido na China e que em poucos meses já estava disseminado por todo o planeta. Para frear o avanço do vírus, governos no mundo todo fecharam suas fronteiras, impedindo principalmente a entrada e saída de voos comerciais. Sem passageiros, o setor aéreo rapidamente colapsou.

No início da pandemia, analistas apontaram que todas as companhias aéreas do mundo corriam algum risco de fechar suas portas. A única solução para fugir desse destino era receber ajuda financeira e auxílios de governos, o que de fato aconteceu em muitos países, inclusive no Brasil.

Agora nos últimos dias de 2020, observando o estrago deixado pelo coronavírus, o resultado não é dos piores. Segundo dados de viagens da consultoria Cirium, até outubro 43 companhias aéreas comerciais faliram neste ano, em comparação com 46 em todo o ano de 2019 e 56 em 2018.

Evidentemente, esse número ainda vai aumentar. Nos últimos três meses foram registradas ao menos quatro quedas significativas. A mais recente foi a suspensão das atividades da Interjet, a terceira maior companhia aérea do México.

Para o analista independente Brendan Sobie, fundador da consultoria Sobie Aviation, o apoio dos governos foi fundamental para evitar mais falências no setor. Em entrevista a rede CNBC, o especialista disse que “sem a intervenção e o apoio do governo, teríamos sofrido falências em massa nos primeiros seis meses desta crise. Em vez disso, tivemos um número administrável de falências e muito poucos colapsos”.

Chefe global da Cirium, Rob Morris, afirmou à mesma publicação que “as coisas estavam tão ruins que os governos não tinham outra opção a não ser apoiar” as medidas de ajuda para as empresas aéreas.

A Germanwings encerrou as operações em abril de 2020 (Sebastien Mortier)

Das 43 companhias aéreas que faliram em 2020 até agora, 20 delas operaram pelo menos 10 aeronaves, em comparação com 12 em todo ano de 2019 e 10 ao longo de 2018, de acordo com a Cirium.

“Embora tenhamos visto menos falências de companhias aéreas este ano, o número de companhias aéreas falidas que operaram dez ou mais aeronaves já é maior do que vimos em qualquer um dos últimos seis anos completos. Portanto, está claro que a pandemia está afetando as grandes companhias aéreas e fazendo com que falhem”, disse Morris.

Como resultado, um número maior de aeronaves também parou de operar. Cerca de 485 aviões ficaram inativos por causa do fechamento de companhias aéreas neste ano, contra 431 em 2019 e 406 em 2018.

O diretor da Cirium diz que companhias aéreas podem ir à falência devido a modelos de negócios deficientes ou outros problemas. No entanto, ele destacou que os maiores fracassos de 2020 e os que virão são “inevitavelmente uma consequência da perda de demanda induzida pela pandemia”.

“Esse choque repentino deixou as companhias aéreas sem receita e com custos estruturalmente altos”, acrescentou Morris.

Maiores baixas de 2020

As primeiras companhias aéreas que faliram neste ano foram abatidas por problemas financeiros acumulados antes da pandemia. O caso mais expressivo no início de 2020 foi a falência da FlyBe em março, tradicional empresa aérea regional do Reino Unido. Antes dela, a Air Italy já havia cessado as operações em fevereiro após anos enfrentando dificuldades.

A Air Italy não sobreviveu para ver o retorno do Boeing 737 MAX
A Air Italy não sobreviveu para ver o retorno do Boeing 737 MAX (Simone Previdi)

Ainda na Europa, outras empresas abaladas pela pandemia e que deixaram o mercado foram as alemãs Germanwings, German Airways e a SunExpress Deutschland. A lista de baixas no Velho Continente ainda inclui nomes como a Montenegro Airlines, Level Europe (Áustria) e Go2Sky (Eslováquia).

Nos EUA, o setor mais abalado pela pandemia foi o das empresas regionais. A ExpressJet, então dona da maior frota do mundo de jatos Embraer ERJ-145, encerrou as atividades em agosto. A companhia operava voos regionais em nome da United Express, subsidiária da United Express. Outra regional americana que fechou as portas em 2020 foi a Compass Airlines, que voava com o nome Delta Connection, divisão regional da Delta Air Lines.

Na Ásia, poucas empresas fecharam neste ano. Os casos mais notórios foram o encerramento dos voos da Air Asia Japan (divisão japonesa da Air Asia, da Malásia) e da Cathay Dragon (subsidiária regional da Cathay Pacific, de Hong Kong). Na África, o fechamento da South African Express (divisão regional da South African Airways) é a baixa mais expressiva no continente em 2020.

Analisando a América do Sul, Latam Argentina e a Avianca Peru, empresas que não conseguiram ajuda governamental, encerram suas operações ainda no primeiro semestre. No Equador, a estatal TAME também não suportou a baixa demanda durante e pandemia e acabou dissolvida em maio.

Airbus A320 da LATAM Argentina em Aeroparque
Airbus A320 da LATAM Argentina em Aeroparque (Juan Kulichevsky)

E no Brasil?

A despeito do baixo movimento de passageiros, as empresas aéreas do Brasil até o momento estão lidando bem com a situação e nenhuma delas corre risco eminente de fechar.

O grupo Latam Airlines deixou o mercado apreensivo em maio ao pedir recuperação judicial nos Estados Unidos em razão dos impactos da crise do coronavírus nas operações da companhia. O processo, todavia, não interferiu nos negócios da Latam Brasil. Ao menos por enquanto.

Para suportar o momento de crise, Azul, Gol e Latam Brasil fizeram cortes de pessoal ou reduziram salários, além de postergarem a compra e aluguel de novos aviões.

Boeing 737 MAX 8 - Gol Linhas Aéreas
Retorno oportuno: mais eficiente, o 737 MAX ajuda a reduzir os custos da Gol (GOL)

Em agosto, o presidente Jair Bolsonaro aprovou um projeto de lei que prevê uma série de proteções e medidas emergências para o setor da aviação civil durante a pandemia.

O projeto federal permitiu, por exemplo, às empresas aéreas terem mais tempo para reembolsarem passageiros que cancelarem seus voos devido à pandemia (até 31 de dezembro de 2020), ampliando este prazo para 12 meses. É uma forma de aliviar as contas das companhias num momento de pouca receita.

A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) estima que o tráfego de passageiros deve retomar os níveis de 2019 somente em 2024. Até lá, muitas companhias aéreas podem ficar pelo caminho.

Veja mais: Embraer promete novidades sobre seus futuros turboélices em 2021

 

 

 

 

 

 

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