O que o futuro reserva para a Embraer?

Fim da parceria com a Boeing deixou muita gente aflita, mas a verdade é que a Embraer jamais deixará de existir, mesmo que para isso ela precise ser reestatizada
Ainda sem clientes, o E175-E2 deve ser certificado em 2021 (Embraer) (Embraer)
A Embraer estuda montar uma fábrica na China após a estreia do E195-E2, em 2019 (Embraer)
Com ou sem Boeing, o fato é que a Embraer jamais deixará de existir (Embraer)

O que podemos esperar da Embraer nos próximos anos após o fim da parceria com a Boeing e quando a pandemia do novo coronavírus for enfim controlada? Essa é uma pergunta de bilhões de dólares que muitos investidores e entusiastas da aviação podem estar fazendo após o fracasso no acordo de joint venture com a gigante norte-americana.

Como se sabe, a Boeing estava prestes a assumir 80% do controle da divisão de aviação comercial da Embraer por US$ 4,2 bilhões e formar uma nova marca, a “Boeing Brasil – Commercial”. O acordo entre as duas empresas também previa a criação de um segundo empreendimento na área militar, a “Boeing Embraer – Defense”, para promover o C-390 Millennium.

Enrolada até o pescoço com o aterramento do 737 MAX que já dura mais de um ano e vendo sua credibilidade sendo destroçada, a Boeing “arregou” do acordo com a fabricante de São José dos Campos no final de abril. Não só isso, os norte-americanos ainda soltaram os cachorros e acusaram a Embraer de não cumprir as condições necessárias para selar a joint venture, o que foi negado pela empresa brasileira. De toda forma, a ruptura foi ruim para os dois lados.

Novos rumos da Embraer na aviação comercial

Se a parceria estratégica com os americanos fosse ratificada, os jatos regionais da Embraer poderiam ser oferecidos as mais de 300 companhias aéreas que voam com aeronaves da Boeing. Para os americanos, a joint venture era a chance de finalmente ter produtos na área de aviação regional e assim poder concorrer contra o Airbus A220 (ex-Bombardier CSeries).

Com pouco mais de 60 clientes, a Embraer está acostumada a vender apenas algumas unidades ou, quando o acordo é muito bom, algumas dezenas de jatos a cada novo contrato que fecha. Com a Boeing, haveria maior capilaridade e a oportunidade para comercializar centenas de aeronaves fabricadas no Brasil de uma só vez.

(Airbus)
Assumindo a Embraer Aviação Comercial, a Boeing teria produtos para competir com o Airbus A220 (Airbus)

Os americanos ficariam com a maior parte dos rendimentos dessas vendas de baciada, mas a Embraer também lucraria por ainda ser um grande fornecedor de componentes das aeronaves. Sem o acordo de joint venture, a empresa brasileira volta a realidade mais modesta a qual está habituada e que a colocou no posto de terceira maior fabricante de aviões comerciais do mundo.

Em declarações recentes, o presidente e CEO da Embraer, Francisco Gomes Neto, vem afirmando que a empresa não vai repetir modelos de parcerias como o que era proposto com a Boeing. Se houver algum novo acordo de cooperação com outra companhia, ele será bem menor. O executivo ainda nomeou China e Índia como potenciais parceiros no futuro.

A preparação e divisão dos negócios de aviação comercial que seria adquirida pela Boeing custou caro para a Embraer e o trauma é evidente. A fábrica em São José dos Campos seria assumida pelos americanos, por isso a produção local de jatos executivos foi transferida para a planta de Gavião Peixoto. Nesse meio tempo, a fabricante brasileira também investiu na construção de uma nova sede no Vale do Paraíba, a unidade em Eugênio de Melo. No final das contas, isso tudo foi em vão.

Com a crise no setor aéreo causada pela pandemia, a Embraer deve ter um ano difícil pela frente e 2021 certamente também não será fácil. No entanto, diferentemente de Airbus e Boeing, a fabricante não perdeu um único pedido até o momento. Em vez disso, seus clientes estão apenas adiando os prazos para receber novas aeronaves. Sendo assim, em algum momento a receita será retomada.

Novos projetos

Os US$ 4,2 bilhões que a Boeing pagaria para assumir o controle majoritário da Embraer Aviação Comercial seria de suma importância para a empresa brasileira investir em novos projetos, como era o tão falado turboélice de última geração que poderia ser desenvolvido em parceria com os americanos. Agora, com o que tem em caixa, a Embraer está focada apenas em continuar seus negócios.

Os jatos da série E2, introduzidos no mercado a partir de 2018, continuam sendo aeronaves interessantes e que podem oferecer bons rendimentos aos seus operadores. Até certo ponto, são aviões que não têm concorrentes diretos e reinam absolutos do segmento abaixo de 140 passageiros, mas ainda pecam por ter poucas unidades encomendadas. Em 2021, a fabricante deve finalizar e certificar o último dos três modelos da nova família, o E175-E2.

Caçula da família E2: o jato E175-E2 fez seu voo inaugural em dezembro de 2019 (Embraer)

Embora a grana esteja curta, isso não quer dizer que a Embraer está longe das pranchetas. Em dezembro de 2019, a fabricante assinou um “memorando de entendimento” com a Força Aérea Brasileira (FAB) para estudar a viabilidade de uma nova aeronave leve de transporte militar, de preferência com motorização híbrida-elétrica. Dentro de poucos anos, a FAB vai precisar substituir os antigos Bandeirante e a resposta para essa necessidade pode ser novamente uma solução caseira.

Outro programa importante da Embraer em andamento é o de uma aeronave com motorização totalmente elétrica baseada no avião agrícola Ipanema. Embora a empresa ainda não tenha pretensões comerciais com esse projeto, ele servirá como banco de provas para estudar a eletrificação da aviação, uma das maiores tendências para o setor no futuro.

O primeiro voo do Ipanema elétrico era programado para este ano, mas a pandemia atrasou o projeto (Embraer)

Por fim, a Embraer também quer entrar no ramo dos “táxis voadores”. Para competir nessa disputa, a empresa criou uma divisão com ares de startup, a EmbraerX, e vem trabalhando em parceria com a Uber para desenvolver um veículo eVTOL, uma pequena aeronave com motorização elétrica capaz de realizar pousos e decolagens verticais e que futuramente pode até ter controles autônomos.

E se tudo der errado?

No pior dos cenários, imaginando que a Embraer enfrente uma catástrofe financeira, com a ameaça de fechar fábricas e encerrar a produção de aeronaves, uma das soluções poderia ser a sua reestatização. Isso permitiria ao Brasil manter alguma soberania na indústria aeronáutica, sobretudo na área militar.

Livre da amarras do governo brasileiro desde 1994, a Embraer cresceu a passos largos após ser privatizada. Foi nesse período que a empresa lançou a família de jatos regionais ERJ e posteriormente os E-Jets, entrou no mercado de aviação executiva e criou novas divisões, entre elas a Atech (desenvolvedora de sistemas) e a Bradar (fabricante de radares).

O KC-390 é o maior avião já desenvolvido pela Embraer (FAB)
No pior dos cenários, a Embraer pode ser reestatizada e seguir viva, principalmente na área militar (FAB)

O simples fato de cogitar a reestatização da Embraer é algo que deixa muita gente de cabelos em pé e inflama os ânimos dos brasileiros, sobretudo daqueles que levam a sério o debate ideológico polarizado que hoje beira o radicalismo. Se este o futuro da empresa, ela certamente perderia credibilidade no mercado internacional, dado a tendência histórica de governantes do país se aproveitarem de estatais para desviar dinheiro. Para der certo nesse formato, seria necessário uma intensa fiscalização para impedir movimentos corruptos.

O fato é que, por mais grave que possam ser os problemas nos anos a seguir, a Embraer dificilmente deixará de existir, mesmo que para isso precise reduzir seus negócios e voltar para as mão do governo.

Veja mais: Centro de Alcântara é aberto para lançamentos espaciais de empresas estrangeiras

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Roosevelt Maria de Castro
Roosevelt Maria de Castro
1 ano atrás

A Embraer tem que pensar grande. O A220 é um sucesso de vendas que está fadado ao fracasso com os problemas que aparecem e a Airbus procura cobrir ou focar em outro assunto. A Boeing vai afundar com o Max e os europeus vão emperrar após o chilique de querer processar os clientes. Os chineses são podres, péssimo pata a Embrar se vender a eles. Os indianos, não sei.
Hora dos brasileiros investir em aeronaves de 150 a 220 passageiros. A Boeing e a Airbus vão se queimar e quando o mercado voltar a normalidade, uma enxurrada de pedidos vão aparecer e com uma base nos E2 podem ter aviões mais econômicos e com mais retanbilidade porcassento.

ANDERSON CARIGE
ANDERSON CARIGE
1 ano atrás

Porque a embraer na faz mas publico.os lrojetosne vai a Volsa.buscar investimento atraves de novas.acoes? Nocos projetos, novas ações. Normalmentw quando uma.empresa coloca ações na bolsa e para.captar recursos. Depois as ações recebem.especulações. O que são 4 Bilhões para o mercado acionario brasileiro ?

Paulo
Paulo
1 ano atrás

As críticas com Boeing eram grande,agora que ela foi embora, as críticas mudaram. Graças Deus que ela desistiu, a Embraer e Grande parceria só em novos projetos.

EDVAN DE OLIVEIRA SILVA

o que reserva Embraer é o sucesso , o que se destaca nesses av8ões são baixa manutenção e baixo consumo tudo o que as companias precisam , a boeing só não fracassa porque os americanos dão o devido valor a suas empresas nacionais o mesmo podemos dizer da airbus , mas a Embraer …….. infelizmente

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