A Ryanair é um dos maiores clientes do 737 do mundo e tem 210 unidades encomendadas do MAX (Ryanair)

A Ryanair está para a Europa o que a Southwest representa nos Estados Unidos: a low-cost irlandesa transportou mais gente no Velho Continente em 2019 que as tradicionais Lufthansa, grupo IAG (British Airways, Iberia e outras) e Air France-KLM. Foram 152 milhões de passageiros que passaram pelos seus mais de 340 jatos Boeing 737 no ano passado.

Portanto, não é exagero dizer que quando Michael O´Leary, o chefão da empresa, resolve falar suas declarações ecoam longe, mais precisamente em Chicago, onde fica a sede da Boeing. E o CEO falou nesta segunda-feira em Dublin, na Irlanda. E acenou com algo que faria a fabricante norte-americana brilhar os olhos não fosse o momento delicado que vive: uma nova encomenda de jatos 737 Max, mas da variante -10, a maior do modelo e que teve o protótipo apresentado recentemente.

Com capacidade para 230 passageiros, o Max 10 é um paliativo para os clientes mais fiéis da Boeing e que não admitem ter outra fornecedora em sua frota. Sim porque o maior 737 de todos os tempos não chega aos pés do desempenho do A321LR, quanto mais do impressionante A321XLR, o “destruidor de widebodies”, tamanha sua capacidade de conciliar um número alto de assentos com um alcance transoceânico – e custos bem inferiores a qualquer jato de dois corredores.

Michael O´Leary, CEO da Ryanair: “esperamos estar no topo da fila” (Ryanair)

Mas para uma companhia aérea que, como sua “gêmea” Southwest, reza a cartilha da frota padronizada em apenas um tipo de avião, o Max 10 vale ouro. Ainda assim, O´Leary afirmou com um tom de orgulho que “para ser justo com eles (Boeing), não acho que a nova equipe de gerenciamento esteja em posição de poder conversar conosco sobre um novo pedido”. Na visão do CEO, a Boeing precisa primeiro colocar o 737 Max de volta ao serviço antes de pensar em analisar qualquer novo acordo de compra.

Primeira da fila

Por outro lado, a Ryanair tem toda a razão de estar fula da vida com a Boeing. A companhia aérea planejava atingir a marca de 200 milhões de passageiros transportados em 2024 e o 737 Max era crucial para isso. O´Leary afirmou que esperava já contar com 55 jatos em sua frota até meados deste ano, mas agora acredita que isso só ocorrerá em 2021.

A Ryanair estava prestes a receber seu primeiro Max no ano passado quando o segundo acidente com a aeronave, da companhia aérea Ethiopian Airlines, desencadeou o aterramento de toda a frota em março. Um duro golpe para os irlandeses, mas mais que isso, um vexame para a Boeing justamente com um dos seus maiores clientes e que tem em carteira nada menos que 210 unidades encomendadas do novo 737.

O 737 Max 10, maior versão do jato: Ryanair diz ter proposta na mesa da Boeing (Boeing)

Essa situação constragedora para a Boeing tem colocado a fabricante contra a parede, literalmente. Ao frustrar os planos de dezenas de companhias aéreas que contavam com a economia proporcionada pelo Max para traçar novas rotas e ampliar sua capacidade, a empresa americana ficou em dívida eterna com eles. Não é à toa que várias delas ganharam ou estão em vias de receber enormes compensações.

Mas talvez nem isso seja suficiente – O´Leary que o diga. O chefão da Ryanair já marcou território na nova negociação pelos Max 10: “Contamos com descontos no pedido que já temos e esperamos estabelecer um acordo com a Boeing em novas aeronaves logo após a resolução de retorno ao serviço”, afirmou. “A Airbus agora tem 12 a 18 meses de vantagem sobre a Boeing em termos de pedidos de aeronaves, e o ponto de partida para recuperar a liderança devem ser os maiores clientes, a Southwest e a Ryanair. Esperamos estar à frente da fila”, completou.

Com informações da Reuters.

A Ryanair é a companhia europeia que mais transportou passageiros no continente com seus 340 Boeing 737 (Divulgação)

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