De volta após quatro anos, Farnborough deixou a desejar

Mais importante evento aeroespacial de 2022, show aéreo teve poucos anúncios importantes e participação militar discreta. Esperança está na mobilidade aérea urbana
Farnborough 2022: show deveu

De “molho” desde 2018, o Farnborough Airshow voltou a ser realizado na semana passada na pequena cidade a sudoeste de Londres. Evento que se reveza com Le Bourget anualmente como o maior do gênero no setor aeroespacial, o show aéreo de 2022 terminou de forma um tanto decepcionante.

Após o cancelamento da edição de 2020, em meio à pandemia do Covid-19, a expectativa era de que as empresas voltassem com força, comprovando a retomada das atividades na indústria aeronáutica. Mas o que se viu nos cinco dias de evento foram poucos anúncios relevantes e uma presença modesta de aeronaves, sobretudo militares.

É fato que alguns grandes chamarizes do evento, como a Airbus, estão numa entressafra de novidades. Por outro lado, há toda a dificuldade em produzir aviões com os problemas na cadeia de suprimentos, o que afetou grandes vendas, como ocorre em quase todos os eventos.

A seguir, Airway faz um balanço do evento deste ano:

Boeing

A fabricante dos EUA tem passado por maus momentos há pelo menos três anos, por conta de problemas de segurança em seus aviões comerciais. Não por acaso, as principais novidades no segmento vieram dela, a presença do 737 MAX 10 e do gigante 777-9. Ambos participaram das demonstrações aéreas e estiveram entre os modelos mais procurados. A Boeing conseguiu bons contratos em Farnborough, mas continua a ver o 777X de passageiros sem pedidos novos. O alívio vem da versão cargueira que aos poucos vai mostrando sua força.

Airbus

Com amplo domínio trazido pela família A320neo, a Airbus se deu ao luxo de não mostrar qualquer uma das versões do modelo de corredor único. O novo A321XLR, por exemplo, poderia ter realizado uma passagem pela Inglaterra, mas a empresa não fez questão de deslocá-lo do sul da França para isso. Os anúncios também foram bem tímidos, restando como destaque os 12 A220 da Delta, uma das poucas aeronaves presentes.

Embraer

Se Farnborough não encheu os olhos não foi por causa da Embraer. A fabricante brasileira trouxe novidades praticamente em todos os dias, incluindo o domingo, véspera do evento, quando atualizou o visual do seu eVTOL. Vieram alguns pedidos de jatos comerciais, mas sobretudo parcerias importantes como a que a uniu à BAe Systems. A empresa também levou para Farnborough quatro de seus principais produtos, os jatos E190-E2, E195-E2 e os militares KC-390 e A-29 Super Tucano. O cargueiro, aliás, foi uma cortesia da FAB, que já havia marcado presença no Royal International Air Tatoo dias antes.

Turboélices de passageiros

Com um ATR 72-600 equipado com motores PW127XT, a ATR apresentou bons acordos, mas poderia ter participado das demonstrações aéreas. Já a novata Deutsche Aircraft levou um Do328 para exposição estática enquanto desenvolve o avançado turboélice D328eco. Já a renascida DeHavilland Canada apenas compareceu com seu estande e novidades sobre conversão do Dash 8, que está com a produção suspensa.

Militares

Certamente a maior decepção de Farnborough. Na programação de voos, apenas caças em serviço que realizaram passagens pelo aeroporto. A única apresentação que chamou a atenção do público foi do F-35B da RAF. A Turkish Aerospace Industries até tentou fazer barulho com a presença do treinador Hürkus e helicóptero ATAK, uma versão sob licença do A129 da Leonardo. Em seu estande havia alguns drones e as maquetes do Hürjet e do caça T-F, com concepção furtiva.

A Airbus levou um A400M que ficou estacionado ao lado do A350 da ITA Airways, além de um CASA C295M. As forças armadas dos EUA compensaram as ausências com um espaço em que se viam dois F-16, um F-15E, um F-35A, um P-8 e os helicópterso CH-47 e AH-64.

Já a Leonardo compareceu com um grande estande e dois de seus caças leves, o M345 e M346, além de helicópteros (veja abaixo).

Helicópteros

Além do ATAK turco, em uma demonstração bastante interessante, a Airbus expôs o H175M, novo helicóptero militar, além de um H135 e um H145M. A Leonardo colocou em exposição estática o AW149 e o AW159 Wildcat, uma versão aprimorada do conhecido Super Lynx. Havia também um Black Hawk produzido pela PZL, da Polônia, que é hoje parte da Lockheed Martin.

Jatos executivos

Fora do calendário de eventos, Farnborough é um movimentado aeroporto executivo, com dezenas de jatos de grande porte. Portanto, não faltaram aeronaves dessa categoria no local, mas a exposição em si viu poucos destaques. A Dassault levou uma maquete da cabine do Falcon 6X enquanto a Gulfstream enfileirou quatro de seus modelos. Curiosamente, uma estreia na Europa, o G800, foi até a Inglaterra, mas ficou parado do outro lado da pista.

Mobilidade Aérea Urbana

Ironicamente, o maior destaque do show aéreo de 2022 ficou restrito aos pavilhões e áreas fechadas. Além da cabine do eVTOL da Embraer, outras concorrentes no novo segmento de Mobilidade Aérea Urbana estiveram presentes no evento como a Lilium, a Vertical Aerospace e a Supernal, uma divisão do grupo sul-coreano Hyundai.

A Lilium, que tem aeronaves em testes de voo, preferiu levar apenas pequenas maquetes de futuros modelos enquanto a Supernal fez o mesmo que a Eve, mostrou apenas a cabine de seu eVTOL conceitual, que deve entrar em serviço em 2028. A Wisk, que tem apoio da Boeing, teve um estande próprio próximo da pista, mas seu avião permaneceu dentro do local apenas.

Mas foi a Vertical Aerospace e seu VX-4 que mais causaram impacto. Um modelo em tamanho real da aeronave foi apresentado, com seus rotores basculantes e outros detalhes impressionantes. Vale lembrar que a startup britânica foi escolhida pela Gol como parceira no projeto de mobilidade aérea urbana da companhia brasileira.

Sustentabilidade

Se ficou aquém das expectativas em negócios e novidades, o evento foi palco de muitos anúncios direcionados à sustentabilidade e tecnologias que prometem uma pegada mais ecológica para a aviação.

Mas enquanto muita coisa não passou de promessa de longo prazo fato é que os primeiros dias de Farnborough mostraram na prática como os efeitos do aquecimento global podem causar efeitos nocivos para a aviação.

Com termômetros batendo em quase 40ºC, as aeronaves que se apresentaram no show tiveram que maneirar na hora do pouso por conta do estado da pista super aquecida.

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