O ano de 2020 foi o mais conturbado na história da aviação comercial. Em março, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou estado de pandemia e imediatamente países no mundo fecharam suas fronteiras e aeroportos, levando a uma diminuição dramática na quantidade de voos de passageiros. Com menos atividade no mercado, o número de acidentes fatais envolvendo aviões comerciais no ano passado acabou sendo o menor de todos os tempos.

Segundo o Aviation Safety Network (ASN), organização independente baseada na Holanda que compila todos os acidentes e incidentes da aviação pelo mundo, em 2020 ocorreram oito acidentes com aeronaves comerciais que deixaram um total de 315 mortes.

O número de fatalidades no ano passado, no entanto, está longe do resultado de 2017, o ano mais seguro da história da aviação comercial, quando foram registrados 10 acidentes e 44 vidas perdidas.

“O ano de 2020 foi o mais seguro de todos os tempos em número de acidentes fatais, em grande parte devido ao impacto da Covid-19 na aviação, que causou uma redução de cerca de 50% no número de voos”, diz o informe preliminar da ASN sobre os acidentes fatais de 2020 na aviação comercial.

A quantidades de óbitos decorrentes de desastres aéreos na aviação comercial em 2020 também ficou acima do saldo de 2019 (20 acidentes e 288 mortos), ano marcado pelo acidente do 737 MAX da Ethiopian Airlines e que levou a paralisação mundial da aeronave.

Na série histórica do ASN, o número de vidas perdidas no ano passado é sétimo menor da lista, que inicia a contagem de acidentes aéreos com aviões comerciais a partir de 1942 (e da aviação em geral a partir de 1919).

A lista de acidentes elaborada pela ASN considera aviões comerciais certificados para transportar 14 passageiros ou mais e cargueiros. A organização também compila dados de incidentes e acidentes da aviação geral e militar.

Dois aviões derrubados em 2020

No começo de janeiro de 2020, enquanto o mundo ainda ouvia falar dos primeiros casos da COVID-19, a manchete foi a queda do Boeing 737-800 da Ukraine International Airlines em Teerã, no Irã. Todos os 176 ocupantes a bordo do jato morreram no que foi o maior desastre aéreo do ano passado.

Dias após o acidente, as autoridades iranianas admitiram que derrubaram a aeronave por engano. O avião da Ukraine com destino a Kiev foi atingido por dois mísseis lançados do solo momentos depois de decolar do principal aeroporto internacional do Irã.

EMB-120 Brasília da African Express Airways, abatido em maio de 2020 (Alan Wilson)

Outro caso de avião comercial derrubado por engano aconteceu na Somália, em maio. Um bimotor turboélice EMB-120 Brasília voando em nome African Express Airways caiu próximo ao aeroporto de El Bardale, depois de ser alvejado por um foguete disparado por militares da Etiópia na região, matando todos os seis ocupantes. Esta foi a primeira vez que um avião de passageiros da Embraer foi abatido.

Acidentes graves na Índia e Paquistão

No 22 de maio de 2020, um Airbus A320 da Pakistan International Ailines (PIA) oriundo de Lahore caiu numa aérea urbana de Karachi, no Paquistão, deixando 98 mortos, incluindo uma pessoa em solo. Dois passageiros da aeronave sobreviveram.

Airbus A320 - PIA

Airbus A320 “AP-BLD”: modelo caiu na região de Karachi (Shadman Samee)

A investigação apontou que erros dos pilotos e controladores de tráfego aéreo de Karachi foram determinantes na tragédia, a segunda mais graves de 2020. Após a análise da caixa-preta do avião, o ministro da Aviação do Paquistão declarou que os tripulantes estavam distraídos durante o voo conversando sobre o novo coronavírus.

De acordo a Autoridade de Aviação Civil do Paquistão (CAA), o trem de pouso do avião ainda estava retraído quando os pilotos tentaram o primeiro pouso. Marcas de fricção na pista e vídeos de câmeras de vigilância revelaram que o motor esquerdo da aeronave raspou no asfalto. Após o choque, o jato ainda conseguiu arremeter, mas ao tentar retornar sofreu uma falha de motor e caiu nas proximidades do aeroporto.

No outro lado da fronteira do Paquistão, um Boeing 737-800 a serviço da Air India Express sofreu uma excursão de pista ao pousar no Aeroporto Internacional de Kozhikode, na Índia, e se partiu em dois pedaços. Ambos os pilotos e 19 passageiros morreram no acidente.

A aeronave vinha de Dubai e enfrentou mau tempo durante a aproximação do destino. No momento do pouso chovia forte e aeronave demorou para tocar a pista a ponto de conseguir frear com segurança. Segundo a agência de aviação civil da Índia, o avião pousou nos 900 metros finais da pista, de 2.850 m de comprimento.

A lista do ASN inclui ainda o acidente com um Boeing 737-800 da Pegasus Airlines, em 5 de fevereiro. O avião também sofreu uma excursão de pista depois de pousar no aeroporto Aeroporto Internacional Istanbul-Sabiha Gökçen, na Turquia. Havia 183 ocupantes na aeronave. Três passageiros morreram e outros 180 ficaram feridos.

Outros três acidentes fatais com aeronaves comerciais em 2020 na base de dados do ASN foram a queda de um Cessna Caravan em voo de carga pela Planemasters nos EUA (um óbito), um Let L-410 da Doren Air Congo na República Democrática do Congo (quatro óbitos) e um Antonov An-26 cargueiro operado pela South West Aviation (sete óbitos).

40 acidentes fatais no Brasil em 2020

O ASN registrou em 2020 um total de 3.540 ocorrências de segurança em todos os setores da aviação. Nessa lista estão incluídos desde incidentes considerados de menor risco, como birdstrikes ou até colisões entre aviões no pátio de aeroportos, e acidentes fatais com todo tipo de aeronave, de ultraleves, caças e até balões.

Segundo os dados da organização, houve um total de 604 acidentes fatais com aviões e helicópteros no mundo todo em 2020, com um saldo de 1.435 óbitos (incluindo as 315 vítimas dos oito acidentes com aeronaves comerciais).

O Embraer Ipanema detém 80% do mix de vendas da categoria agrícola

ASN contabilizou 11 acidentes com aviões agrícola Ipanema no Brasil em 2020 (Embraer)

O Brasil aparece no índice do ASN com 130 ocorrências, sendo 40 acidentes fatais que deixaram um total de 60 mortos. Quase metade desses registros ocorreram com aviões agrícolas (17), com 11 modelos Embraer Ipanema e seis Air Tractor perdidos, somando nove mortes (oito em acidentes com Ipanema e um no Air Tractor).

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