Logo passa: jatos da Azul armazenados no aeroporto de Viracopos, em Campinas, com proteções especiais (Azul)

Quem já deixou o carro estacionado na garagem por um longo período sem cuidados sabe muito bem como pode ser difícil religá-lo. A bateria arria, os pneus murcham, o combustível estraga, os fluídos secam, entre outros problemas decorrentes da falta de rodagem. Isso também pode acontecer com aviões comerciais que passam meses sem voar, como neste momento de paralisação parcial do setor aéreo devido à pandemia do novo coronavírus.

Para evitar que aeronaves sofram danos enquanto estão aterradas é necessário uma série de cuidados especiais na hora de armazená-las. “Os procedimentos variam de acordo com o tempo que ficarão paradas. Existem preservações para intervalos de tempo menores e outras mais profundas que têm previsão de ficarem estocadas por muitos meses ou anos”, explicou Carlos Naufel, diretor técnico da companhia aérea Azul, em entrevista ao Airway.

“Na Azul optamos por fazer um tipo de preservação que deixam as aeronaves mais prontas para retornarem a operação”, revela Naufel, acrescentando que a empresa deve manter parte da frota armazenada por até 90 dias. Segundo dados de rastreamento da consultoria CAPA, a Azul estocou 124 aviões até o final de março (e manteve 30 aparelhos em serviço).

Diferentemente de um automóvel, que pode ser guardado numa garagem coberta, não existem hangares suficientes para armazenar tantos aviões e muitos acabam estacionados ao ar livre. Quando isso acontece é necessário tomar uma série de providências para manter as aeronaves em condições adequadas, sobretudo no Brasil, um país com clima quente e úmido.

“Vários cuidados são tomados durante estas preservações. Sensores como tubos de pitot, ângulo de ataque, sensor de gelo e outros equipamentos são protegidos com capas, assim como entradas de ar e outras carenagens são tamponadas para evitar a entrada de objetos estranhos”, afirma o diretor da Azul.

A cabine de passageiros também exige atenção dos técnicos de companhias aéreas quando um avião está armazenado. Naufel contou que, uma vez por semana, as portas das aeronaves são abertas, assim como os bins, galleys e outros compartimentos, que precisam ser ventilados. “Depois tudo é fechado novamente.”

Os turboélices ATR da Azul estão armazenados no aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte (Azul)

Umidade, o maior vilão dos aviões aterrados

Talvez a parte mais sensível de uma aeronave (a jato ou turboélice), os motores precisam ser muito bem tratados quando um avião é armazenado para evitar a ação corrosiva da umidade. “Sílica em gel são introduzidas no motores e APU (Unidade de Energia Auxiliar) para ajudar no controle da umidade. Sensores de umidade são utilizados para monitoramento e controle da reposição da sílica. Dependendo do tempo de preservação, partidas nos motores podem ser necessárias para manter o correto funcionamento”, conta Naufel.

Além das várias tarefas que são executadas semanalmente nos aviões aterrados, existem outros serviços que são realizados pelo menos uma vez por mês, “tais como energização da aeronave e a completa movimentação de todas as superfícies de comando (ailerons, leme, flaps e slats)”, de acordo com o diretor técnico da Azul.

Naufel ainda explicou que é recomendável que os tanques dos aviões parados fiquem com uma determinada quantidade de combustível. “Fungicidas são adicionados para evitar a degradação dos tanques e mantê-los em excelentes condições. Os tanques também são drenados regularmente para tirar qualquer formação ou excesso de água através de drenos próprios para esta atividade. Os demais fluídos dos sistemas da aeronave são verificados semanalmente.”

Segundo o diretor técnico da Azul, não existe um limite de tempo que um avião pode ficar parado. “A umidade é um fator que deve ser controlado para evitar a degradação dos equipamentos. O importante é monitorar e controlar a umidade e este cenário está completamente coberto pelos manuais dos fabricantes.”

Os aviões da Azul foram preparados para permanecerem armazenados por até 90 dias (Azul)

“Se os procedimentos e cuidados citados nos manuais não forem executados corretamente, o excesso de umidade pode causar o surgimento de odores e fungos no interior das aeronaves, mau contato em cablagens e conexões elétricas, corrosão em áreas mal protegidas, o que exigiria a troca de determinados componentes para o avião poder voltar a voar”, acrescenta Naufel.

Em casos extremos, quando um avião precisa ficar parado por anos a fio, o mais adequado é armazená-lo em regiões de clima seco, como acontece em desertos nos EUA. O diretor da Azul diz que a empresa não considera essa possibilidade. “Optamos em fazer o tipo de preservação mais curta e que deixa as aeronaves mais perto de retomar para condição de voo.”

Quando a crise do coronavírus passar e o transporte aéreo retomar o vigor das atividades, o que ainda pode levar alguns meses, a companhia aérea que tiver armazenado seus aviões em condições adequadas não terá grandes dificuldades para voltar a voar com toda sua frota.

Veja mais: Antonov An-225 estabelece dois novos recordes na aviação