O mercado russo deve absorver 50 aeronaves como o CR929 nos próximos 20 anos enquanto na China há um potencial bem maior, de 450 a 500 unidades (Divulgação)

Projeto conjunto de chineses e russos, o jato widebody CR929 passa por novas atribulações. Segundo declarações do diretor geral da Irkut, Ravil Khakimov, as entregas do modelo, desenvolvido em parceria com a COMAC, devem ocorrer apenas em 2028 ou 2029.

Até então, a previsão da CRAIC, a joint venture das duas empresas, era que o bimotor de corredor duplo estreasse em 2027 após uma campanha de testes de voo de dois anos.

“No momento, estamos no estágio de coleta e análise de propostas de todos os fornecedores para determinar a configuração final da aeronave. Planejava-se concluir esse trabalho em 2020 e, em 2021, passar para a fase de contratação com todos os co-empreiteiros e fornecedores” explicou Khakimov ao comitê de política econômica do governo russo na quarta-feira.

“Mas, infelizmente, há dificuldades em trabalhar em conjunto com parceiros chineses, então essa fase pode ser alterada para 2021”, acrescentou o diretor geral da Irkut.

Focos diferentes

A joint venture entre a COMAC e a Irkut, parte do grupo UAC, foi lançada em maio de 2017 com perspectivas otimistas afinal unia dois velhos parceiros dos tempos do comunismo num trabalho conjunto que parecia perfeito. Os chineses desejavam a experiência dos russos com projetos complexos de aeronaves enquanto estes viam na injeção de recursos do governo chinês como a solução para viabilizar o programa.

No entanto, a sociedade começa a dar sinais de desgastes. Segundo a imprensa russa, a COMAC pretende ter a venda exclusiva do CR929 no mercado interno chinês, deixando para a Irkut a exploração de clientes de outros países. Como se sabe, concorrer com gigantes como Airbus e Boeing é uma tarefa quase impossível.

Estimava da Irkut indica que o mercado russo deve absorver 50 aeronaves como o CR929 nos próximos 20 anos enquanto na China há um potencial bem maior, de 450 a 500 unidades.

Mocape apresentado na Rússia antecipou como pode ser a cabine do CR929 (Divulgação)

Mercado com poucos concorrentes

Desenvolver um jato widebody é um dos maiores desafios da indústria aeroespacial. Poucas empresas conseguiram ser bem sucedidas nesse mercado e até nomes famosos como a Lockheed fracassaram – com o trijato L-1011 Tristar.

A Rússia, por meio da Ilyushin, desenvolveu o aeronave quadrimotor Il-86 e posteriormente o mais eficiente Il-96, mas ambos aviões tiveram produção modesta – consta que menos de 150 unidades foram produzidas. Já a China tem investido pesado nos últimos anos para viabilizar seus primeiros aviões comerciais, o ARJ21 e o C919, ambos de um corredor.

Por essa razão, o CR929 parecia ser a solução ideal. Com três variantes previstas, o bimotor poderá transportar de 250 a 320 passageiros e concorrer com o Boeing 777 e o Airbus A350. Os estudos iniciais indicam uma autonomia de 10.000 km a 14.000 km, dependendo da versão. Metade da estrutura da fuselagem utilizará materiais compostos, parte do escopo da COMAC.

A escolha do motor turbofan do novo jato tem sido complicada. A UAC (grupo estatal que reúne os principais fabricantes de aviões da Rússia) tem conversado com a Rolls-Royce e GE como alternativas para uma variante de exportação, mas ao mesmo tempo estudam uma solução nativa ou em parceria com os chineses.

A crise na aviação desencadeada pela pandemia do coronavírus, entretanto, pode tornar o futuro do CR929 bastante difícil. Se programas mais robustos como o 777X e o A350 sofrem com cortes de encomendas, o que dirá um inédito widebody sino-russo.

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